Saber-Literário

Diário Literário Online

APESAR DE TUDO, AINDA QUEREMOS SER PROFESSORES - Bianca Peter

Postado por Rilvan Batista de Santana 15/12/2016

APESAR DE TUDO, AINDA QUEREMOS SER PROFESSORES
publicado em sociedade por Bianca Peter

Desde que ingressei no curso de Letras, tive medo de escrever sobre os professores. Medo de soar definitiva demais como a Academia impõe, medo de ser uma fruta verde demais nessa vegetação pouco irrigada que é magistério no país para dizer algo. Há exatamente um ano, escrevi um texto que já estava guardado no meu peito e pulsava para sair, e ele, claro, falava sobre a vontade de ser professora. Com aquela vivência de aluna, entrei na licenciatura. Para no décimo mês dela, e já com a vivência de professora, descobrir que ainda sou aluna.

Esse texto foi escrito em homenagem ao Dia dos Professores; mas, claramente, não se deve escrever – nem se ler – sobre a Educação apenas no dia 15 de outubro.

Gostaria de iniciar esse texto da mesma forma que gostaria de iniciar todos (sim, todos!) os meus trabalhos acadêmicos: não tenho intenção alguma de comprovar uma verdade absoluta e imutável com essas palavras. Já somos grandinhos o suficiente para compreender que, não importa quão convictos estejamos sobre algo, mudaremos nossa acepção de alguma forma ou, como prefiro dizer, a melhoremos. Sempre. 1, 2, 3, você é uma pessoa alterada neste exato mesmo. Seja pelo que acabou de ler, seja pelo pernilongo que te mordeu nesse meio-tempo. E se esse texto tem algum objetivo, ele é provavelmente situar os estudantes de licenciatura nessa nebulosidade que encurrala a educação no Brasil – deixando meu coração sangrar até onde a saúde permite.

Desde que ingressei no curso de Letras, tive medo de escrever sobre os professores. Medo de soar definitiva demais como a Academia impõe, medo de ser uma fruta verde demais nessa vegetação pouco irrigada que é magistério no país para dizer algo. Há exatamente um ano, escrevi um texto que já estava guardado no meu peito e pulsava para sair, e ele, claro, falava sobre a vontade de ser professora. Eu, com a vivência de aluna, escrevia sobre meus professores do ensino fundamental ao médio e como alguns foram capazes de me moldar. Dizia, com a vivência de aluna, como alguns professores foram ruins para a sala de aula, enquanto outros foram mágicos. Deixava claro, com a vivência de aluna, que meu sonho era ser professora. Com a vivência de aluna, entrei na licenciatura. Para no décimo mês dela, com a vivência de professora, descobrir que ainda sou aluna.

Tenho medo de escrever sobre educação e tudo que é relacionado a ela. Sobretudo pela magnitude desse assunto, o peso irracional dele no cognitivo de qualquer professor. Nunca é fácil escrever sobre aquilo que nos faz perder o sono. Contudo, diante de circunstâncias tão lamentáveis, e da voz de um professor cada vez mais silenciada, não é momento de ter medo. Professores não surgem do nada, não é uma raça geneticamente modificada que escolhe seguir um ofício com a bênção divina e que andará pelo vale da sombra da morte e não temerá mal algum. Não existe “dom” algum, existe a transpiração, a empatia sofisticada, a paciência e outros engenhos que Filosofia de Educação não ensina durante a licenciatura. Adorno não vai ajudar um futuro professor a lidar com ministros da Educação leigos ou com uma paleta de 45 cores diferentes que é a sala de aula.

Mesmo que o filósofo alemão seja imperativo na compreensão das particularidades da área, o magistério é o único trabalho cujas funções são indelineáveis a ponto de confundir a posição do seu profissional, cambaleante entre professor de certos conhecimentos e absorvente de outros. E estes vão desde “como dispor às carteiras de modo que todos sejam capazes de aproveitar a aula” até “como eu posso compreender a singularidade dos sujeitos que estão sentados nelas” – é assim que, não importa a universidade que te formou, cada escola na qual você se inserirá depois disso fornecerá a sabedoria mais relevante.

Não surpreende que a docência não interesse os vestibulandos, é penoso encontrar quem esteja interessado no ofício mais humano e, consequente, menos autômato, de um mercado, que além de reconstruir a filosofia empírica de toda uma vida, também abala as estruturas mentais do mais equilibrado ser. Todavia, é através dessas facetas do magistério que reconhecemos seu maior mérito: nunca faremos revolução a partir de uma sala de aula silenciosa. Transformação implica convulsões e cataclismos, pressupõe suor e humanidade. Lidar com pré-adolescentes e adolescentes durante horas por semana é lidar com uma parcela de mundo que ninguém se esforça em interpretar.

Cada um, em sua carteira, do mais extrovertido e participativo até o mais interiorizado e aquém, é o sujeito da própria vivência e essa demanda ser apreendida e reconhecida pelo professor da maneira que é: una. A sala de aula não é palco para exigir protagonistas e secundários. São todos, do professor aos alunos, cheios de espinhos e redondos demais para termos apenas um com lugar de fala. E se a docência implica essa percepção, não surpreende que tenhamos cada vez menos professores. Não que o mundo esteja caindo no abismo por isso, pois, se antigamente os profissionais da educação recebiam melhores salários e lecionavam mesmo sem esse discernimento, estamos no mesmo caminho há séculos.

O que o prestígio e a idealização exacerbada atraiam anteriormente, a falta de estrutura, pouca remuneração econômica e o medo do desconhecido afastam. Tendo isso em vista, é calculado que nada possa salvar a escola. Afinal, não existe um porquê do “ser professor”! Mas como já foi dito, ninguém nasce professor. Alguém, durante sua vivência de aluno, tornou-se dependente dessa ideia depois de agrupar várias experiências, de ouvir um “ser professor me faz ser sempre jovem” ou “eu amo ser professora, apesar de tudo, eu amo isso aqui”. Seja qual for o motivo que faz um sujeito querer ser professor atualmente, esse motivo troca a valia do alto salário pela remuneração imaterial de ver seu aluno descobrindo sua condição ímpar. Troca o escritório com ar-condicionado pela sala de aula sem cortina não por masoquismo, mas por significação. Troca o conformismo de afundar-se no próprio sofá do fraco autoconhecimento para respirar o outro em vários aspectos – seus sentidos, suas cognições, suas potencialidades, suas coisas-somente-inigualáveis-apenas-deles.

Virar-se de frente para o seu aluno e encará-lo na pupila pode ser a primeira validação de existência que ele terá na vida e sem troca de energia não há catarse e esperança de um “mundo melhor”. Se existem pessoas condenadas a acreditar num melhor porvir, essas pessoas são, por formação (formal e informal), professores. Felizmente, pessoas assim ainda existem, sistemas mal fundamentados são autodestrutivos e o mundo passa por uma brusca oscilação. Finalizo esse texto agradecendo todos os meus professores, os feiticeiros benignos ou os algozes, nesse dia 15 de outubro. Gilson, Monaliza, Beatriz, Deise, Viviane. Essas pessoas de carne, osso e muito sangue, que, como muitos, assinam diariamente a carta de alforria da educação.














BIANCA PETER

INFJ caricata, caiçara nascida em São Paulo que gosta da arte que faz chorar de alegria. Estudante de Letras e de tudo.



Fonte:http://obviousmag.org/pluripatia/2016/apesar-de-tudo-ainda-queremos-ser professores.html#ixzz4Sqrj35Hs


0 comentários

Postar um comentário

Recomende este blog!!!

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

THE END

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Perfil

Perfil
Antônio Cabral Filho - Escritor e coadministradores

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

Patrono

Patrono
Machado de Assis

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Tecnologia do Blogger.