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Maria Clara - R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 07/11/16

Maria Clara
 R. Santana

- Maria Clara!
            - Sim, mãezinha!
            - Onde está?
            - Estou brincando de boneca!
            - Perguntei-lhe onde?
            - No meu quarto!
            - Sozinha? Chame sua prima Karina!
            - Não estou sozinha!
            - Karina está aí?
            - Não!
            - Quem está aí? – Maria Clara não responde, sua mãe repete:
            - Quem está aí?
            - Mãezinha... mãezinha... estou brincando... – Helena impacienta-se:
            - Filha, quem está aí!?
            - Totó! – mentiu.
            - Totó está aqui, mentindo pra mãezinha!?
            - É que... é que... é que... você não gosta de Carol... – choramingando.
            - Oh filha, não chore!
            - Mãezinha, eu posso brincar com Carol?
            - Filhinha, Carol não existe...
            - Carol é minha amiga, mãezinha! – para não lhe contrariar:
            - Tudo bem, meu amor!
            
               Helena é vencida pela insistência da menina. Maria Clara tem 4 aninhos e seus pais estavam assustados com essa história de Carol, é que, ultimamente, a menina brincava boa parte do tempo com essa garota imaginária, que somente ela conhecia, muitas vezes, foi flagrada arrumando as bonecas e conversando com essa “garota”. Só queria brincar com Carol, exceto, na escola. Descrevia-a, a seu modo, como se ela fosse do seu tamanho, de sua cor e idade.
            Seus pais esgotaram todos os recursos médicos, ela passou por psicólogos e psiquiatras, nenhum diagnóstico de insanidade, nenhuma anormalidade, concluíram que tudo não passava de fantasia, mente fértil, filha única, uma maneira dela sublimar e racionalizar a ausência de um irmãozinho, de uma irmãzinha, mas com o tempo esse universo imaginário seria substituído pela realidade.
            Os pais de Maria Clara não saíam da igreja cristã, jamais iriam atribuir nenhuma manifestação espiritual, portanto, Carol não passava de capricho da filha, uma maneira da menina lhes chamar a atenção.
Noite de Natal, Helena e o esposo como bons cristãos, arrumaram a casa com gambiarras coloridas e árvore de Natal iluminada. A ceia de Natal foi feita com esmero. Naquela noite o padre paroquiano prometeu romper a tradição e liberar os fieis mais cedo. Justificava a violência das ruas e o perigo das famílias chegarem tarde a suas casas.

Helena serviu a ceia mais cedo. As crianças e os adolescentes brincavam no jardim da casa, os homens discutiam os últimos acontecimentos políticos. As mulheres falavam de seus pimpolhos. Tudo era clima de festa, quando houve um blackout decorrente da sobrecarga de energia e uma língua de fogo irrompeu num dos pontos de telhado que tomou forma e começou se alastrar...

Grande foi o tumulto. Muitos convidados tropeçavam sobre os móveis, ninguém ficou dentro de casa, os bombeiros foram acionados e chegaram de imediato, tudo parecia sob controle quando Helena deu por falta de Maria Clara e abriu o berreiro de socorro. O fogo estava praticamente debelado quando um dos bombeiros adentrou na casa ouvindo o clamor de Helena.

Se não fosse a situação estranha que o bombeiro encontrou, o socorro de Maria Clara teria sido rotina: a pequerrucha brincava de boneca, o quarto iluminado por uma luz misteriosa, falava com alguém que lhe correspondia, no fundo uma árvore de Natal iluminava mais ainda o ambiente. O bombeiro ficou confuso, absorto, sem nada entender, seguiu seu instinto, colocou a menina no colo, instante depois a deixava nos braços da mãe:

- Senhora há mais alguém na casa?
- Não! Por quê?
- Nada...





Autoria: Rilvan Batista de Santana


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