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JOSÉ SARAMAGO E SEU MEMORIAL DE UM CONVENTO - Clêuma Alves

Postado por Rilvan Batista de Santana 08/11/2016

JOSÉ SARAMAGO E SEU MEMORIAL DE UM CONVENTO - Clêuma Alves

José Saramago foi o primeiro escritor de Língua Portuguesa a ser agraciado com o premio Nobel de Literatura, em 1998, sendo também considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em Língua Portuguesa.
“ESCREVO PARA DESASSOSSEGAR”( Saramago).

 José Saramago: biografia

José de Souza Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província geográfica do Ribatejo, no dia 16 de novembro de 1922 embora o registro oficial apresente o dia 18 como a data do seu nascimento. Filho de camponeses, o autor sempre se assumiu como um homem de esquerda e ateu, o que já lhe renderam discriminações em vários países, inclusive em Portugal. O que não impossibilitou que Saramago se tornasse o escritor mais conhecido da literatura portuguesa contemporânea. José Saramago faleceu a 18 de Junho de 2010, aos 87 anos de idade.

ALGUMAS OBRAS:

O ano da morte de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1986), História do Cerco de Lisboa (1989), Memorial do Convento (1982), Ensaio sobre a cegueira (1995), As intermitências da morte (2005), Publicou também crônicas, poemas e contos.

A OBRA: MEMORIAL DE UM CONVENTO

O próprio título sugere uma retomada à história, respeitando sua memória. É fundamentado na reconstrução de espaços, tempos e acontecimentos, o autor cria outros heróis, geralmente aqueles que a verdade histórica esqueceu, colocando-os no plano ficcional, e fazendo referências aos acontecimentos da primeira metade do século XVIII. No romance, há dois tipos de personagens, as históricas e as ficcionais:

As personagens históricas pertencem a uma classe social privilegiada (nobreza/ clero) que vivem movidos por seus interesses pessoais, menosprezando os interesses do povo. Tal nobreza é representada no romance pelas figuras de grandeza histórica e são: D. Maria Ana Josefa, oriunda da Austrália, a rainha revela-se extremamente devota e submissa, cujo papel se resume basicamente a dar herdeiros ao rei; a infanta D. Maria Bárbara, filha primogênita do casal real; infante D. Francisco, irmão de D. João V é um homem se escrúpulos que cobiça o trono e a esposa do rei; Domênico Scarlatte, músico italiano, contratado para dá lições de musica à infanta D. Maria Bárbara; João Frederico Ludovic, arquiteto contratado para construir o convento de Mafra; e o padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, figura que tem fundamento histórico, imbuído de um espírito aberto e sem preconceito, acalenta o sonho de um dia voar, daí o seu projeto da “passarola” (máquina voadora) e mantém um laço de profunda amizade com Baltazar e Blimunda, personagens fictícios, que o ajuda na construção da máquina voadora.

As personagens fictícias por sua vez, são enigmáticas, apresentando características excêntricas e singulares. São eles: Sebastiana Maria de Jesus, mãe de Blimunda; Marta Maria, mãe de Baltazar; João Francisco, pai de Baltazar; Inês Antonia, irmã de Baltazar; Álvaro Diogo, homem do povo e amigo de Baltazar e antigo soldado; os trabalhadores do convento, personagem coletiva, cuja força bruta e esforço desmedido são explorados de forma desumana; o povo, massa anônima tantas vezes submetida e esquecida pela história e apresentado como verdadeiro herói, na medida em que foi a custa do seu sacrifício e muitas vezes da própria morte que se tornou possível a edificação do convento.

"Regressou o filho prodigo, trouxe mulher e se não veio de mão vazias é porque uma lhe ficou no campo de batalha e a outra segura a mão se Blimunda, se vem mais rico ou mais pobre não é coisa que se pergunte, pois todo homem sabe o que tem, mas não sabe o que isso vale [...] (SARAMAGO, p. 99)."

As características da narrativa exigem bastante atenção do leitor, usando somente vírgula e ponto como sinais de pontuação para indicar falas ou separar períodos. Quanto à presença, é onisciente, nisso, posiciona-se com comentários e divagações, sendo nesses aspectos subjetivos. Tanto em primeira quanto em terceira pessoas, o narrador se comporta como uma espécie de “guia” para seus leitores. Usando pronomes demonstrativos como se apontasse os acontecimentos, os seres, as coisas: “Esta é a cama que veio da Holanda [...].”

O “Memorial do Convento” ultrapassa o romance histórico, pois não é “apenas” uma reconstituição histórica, é um ir além de fatos, observando sofrimentos de pessoas submissas ao domínio do rei. O brilho em memorial não está em quem "mandou" construir o convento, mas naqueles que por meio de esforço, suor e morte superaram limites trabalhando incansavelmente, conduzindo a “pedra evidente” que ergueria o convento. As pessoas mais anônimas aparecem dando continuidade às páginas Blimunda Sete Luas, Baltasar Sete Sóis, viabilizando o imaginário da ficção.

ENTREVISTA COM SARAMAGO: PORTAL LITERATURA E CULTURA

AJ - O senhor acredita num mundo melhor?

JS - Acredito que temos que fazer algo por um mundo mais justo, buscar soluções para os problemas. Efetivamente, não adianta a crença num mundo melhor se continuarmos de braços cruzados, apenas acreditando em conceitos como esperança e utopia. É preciso indignarmo-nos. Ou melhor, deveríamos refletir seriamente sobre o que está acontecendo no mundo, na economia, na ecologia, na desigualdade [...].

AJ - Crer que a literatura pode ajudar a humanidade?

JS - A literatura pode muito pouco. Não vamos embarcar em ilusões, no otimismo. Ajudar a humanidade? Não sei se a humanidade quer ser ajudada. Mas a missão do escritor se existe alguma, é não calar-se, que deveria ser a missão de todas as consciências.

Assim, a página do livro é um jardim que se forma a cada palavra, imaginação, recuos e rasuras. O tempo passa ser refletido. Sobre esse tempo nos fala o poeta Leonidas Moura:

“É o que vos falaram sobre o tempo, por isso acreditais em eternidades. O tempo é tão rápido que se torna o Sol e empurra devagarinho as pedras pedrinhas tão pequenas que nem areia e a poeira, e às grandes pedras se juntam e formam a Terra que centrifuga juntando as águas; no mormaço as nuvens e nos abismos os mares [...].”


CLÊUMA ALVES









Escrever é exteriorizar para o mundo as experiências do ser... Ser que experimenta saberes, dizeres e viveres. Acredito na força das RETICÊNCIAS, elas me conduzem para UM além de mim....

Fonte: http://obviousmag.org/entre_rabiscos_e_palavras/2015/jose-saramago-e-seu-memorial-de-um-convento.html#ixzz4PNgya1ra


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