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Bairro Saboeiro: os quilombolas e o Rio Cascão

          

              Antes era a mata e transcorria o Rio Saboeiro com todo a sua beleza, e, por todo ele, em suas margens tinha uma planta que produzia espuma, servia como sabão, como uma nuvem sobre a água que se espalhava por toda corrente. O nome dessa planta era saboeiro e até a década de 70 as mulheres e homens quilombolas usavam para lavar as suas roupas e até mesmo servia para tomar banho. Escrevo isso porque esses acontecimentos ocorreram no miolo de Salvador, numa parte da região onde fora o Quilombo do Cabula, no bairro que (como a antiga planta) se chama Saboeiro.

          O bairro se divide em Baixa do Saboeiro, Saboeiro e Beco da Coruja, vamos nos ater agora a primeira parte, visto que ela foi morada dos antigos quilombolas, e ainda é onde mora muitos dos seus descendentes. Segundo relatos dos mais velhos da região, relatos costurados pela oralidade, o local tinha muitas árvores frutíferas: bananeiras, limoeiros, tangerinas, abacates, mangueiras, jaqueiras, goiabeiras, cajueiros, coqueiros, pitangueiras, além do Rio Saboeiro que percorria boa parte do Cabula e tem suas nascentes localizadas entre os bairros da Engomadeira e Narandiba.

          O Rio Saboeiro é atualmente esgoto e a Baixa do Saboeiro se tornou uma periferia urbana comum a várias outras da cidade do Salvador. Com toda uma dinâmica que costura a vida dos descendentes dos quilombolas, como daqueles que vieram do interior devido à explosão de obras que tomou todo Cabula já em fins da década de 60.

          A outra parte do bairro conhecida somente como Saboeiro são os conjuntos habitacionais construídos pela URBIS na década de 70, o que destruiu muito da mata atlântica, além de contribuir para a poluição dos rios. Esses condomínios foram feitos para abrigarem parte de uma classe média branca da cidade. O Saboeiro, ou o conjunto habitacional governador José Marcelino é tido como o Cabula X, por causa da divisão feita pela URBIS da região.

          Já o Beco da coruja é uma área residencial, com casas grandes, e condomínios também. É uma região que possui ainda uma densa natureza, devido a toda mata atlântica preservada no 19 BC – 19° Batalhão de caçadores, além do Rio Cascão que tem suas nascentes protegidas dentro da mata.

          Sobre o Rio Cascão sigo com uma anedota pessoal: no ano 1998 ainda um pivete aventureiro fui com um tio e muitos amigos corajosos pescar tilápia no rio Cascão, no entanto a pesca era proibida, o rio se encontrava em áreas do exercito. Mas como bons quilombolas não tínhamos medo e em alta noite saímos de Narandiba, subimos o Saboeiro, entramos no Beco da Coruja, penetramos a mata e começamos a pescar em absoluto silêncio e escondidos em moitas para que nenhuma guarnição do exército em suas rondas nos visse. Todos tivemos muito sucesso com a pesca, estávamos cheios de gordas tilápias, mas na volta para casa, ainda dentro da mata, os soldados nos viram e  sofremos uma perseguição, como os quilombolas do Cabula em 1807 tiveram para se protegerem da Milícia de Pirajá. Os homens do exército não conseguiram nos pegar mesmo com os seus gritos e suas armas apontadas em nossa direção, fugimos. Depois de passado o perigo rimos e podemos ver nossas mães cozinharem, já em casa, os peixes enquanto resenhávamos da aventura.

          Essa anedota dá conta das violências e das perdas de espaço que sofremos no Cabula em todo século XX, e como resistimos a isso tudo durante esse tempo. Na Baixa do Saboeiro, o que era rio, virou esgoto, o racismo ambiental que degringola o espaço, degenera a natureza para nos afastar de nossas divindades e nos tornar frágeis; no conjunto Saboeiro, Cabula X, sobrou o amarelado sujo dos velhos apartamentos e o olhar peco de uma classe média pobre, e no Beco da Coruja a natureza escondida pelo exército.

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta,  contista e escritor de literatura infantil.


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