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Aquele maldito telex


Durante janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Hoje, o escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, autor de O drible, conta sobre sua primeira experiência como correspondente internacional.
* * *
Minha primeira vez como correspondente internacional popstar — ou pelo menos íntimo dos popstars, algo que deveria dar no mesmo segundo certo ponto de vista – foi um tremendo fiasco devido ao boicote provocado por um cruzamento de tecnologia das cavernas e descuido demasiado humano. Isso parece bem apropriado porque, percebo agora, já começa me obrigando a desfazer com demasiado cuidado humano a armadilha tecnológica das cavernas que ameaça boicotar minha história de “primeira vez”. Quem aí sabe o que é telex?

Em 1987, todos os jornalistas eram íntimos daquele aparelho de transmissão e recepção telegráfica de texto que fora criado meio século antes, mas ainda não dava sinais de cansaço — ou assim pensávamos. A verdade é que sua aposentadoria, provocada pela transmissão eletrônica de arquivos, já vinha dobrando a esquina. Mas em princípios de 1987 ainda era apenas por telex que chegavam barulhentamente às redações brasileiras, cuspidos dia e noite em formulários contínuos, os chamados despachos das agências internacionais de notícias. Era também por ele que os correspondentes enviavam seus textos.

Estávamos em princípios de maio, o que me situava no exato meio do caminho entre meus 20 e 30 anos. Por acaso, esse lugar era também o do auge da euforia por me ver desembarcando como correspondente do Jornal do Brasil em Londres — onde acabaria ficando por dois anos. Naquele momento, porém, o futuro que me interessava era bem mais imediato: mal chegado e ainda sem desfazer as malas, eu tinha que correr para meu primeiro compromisso na cidade, o de entrevistar uma banda de rock chamada Echo and the Bunnymen, que tomaria um voo naquela mesma noite para, em sua primeira visita ao Brasil, tocar no Canecão.

Sim, eu sei: à medida que avanço vai ficando claro que a armadilha no caminho deste texto não é só a defasagem tecnológica. Mal expliquei ao leitor com menos de quarenta anos o que é telex e já sou forçado a ampliar o glossário de termos de época para esclarecer que Jornal do Brasil era um jornalão carioca de grande prestígio e projeção nacional; que os quatro rapazes do Echo and the Bunnymen, Ian McCulloch à frente, formavam uma banda trendy de bastante sucesso na época; e que o Canecão era uma famosa casa de shows do Rio de Janeiro. Terei esquecido alguma coisa? O que mais se perdeu na poeira da história desde então?

(Pior: fará algum sentido um causo de primeira vez cheio de referências que já não têm vez, cuja última vez vai desbotando na memória? Taí uma pergunta que será prudente ignorar, sob pena de aborto textual imediato. Em frente.)

Bom, correu bem a entrevista com os Bunnymen, de quem eu era razoavelmente fã por conta de um LP chamado Ocean rain, lançado poucos anos antes e de incontáveis milhas rodadas em minha vitrola (eu sei, eu sei, mas chega de glossário). Pouco me lembro da entrevista além do interesse declarado por McCulloch de tomar pints e mais pints de caipirinha quando chegasse ao Brasil — um projeto temerário do qual tentei demovê-lo — e de minha satisfação autoral ao encontrar o adjetivo “transado” como tradução detrendy. Sei, de todo modo, que foi um papo simpático, ao fim do qual saí correndo da gravadora com minha Olivetti Lettera 22 a tiracolo direto para a sede da agência Associated Press, onde, conforme combinado previamente, filaria uma mesa para escrever e um telex para fazer o texto chegar ao Jornal do Brasil a tempo de estampar a capa do Caderno B do dia seguinte, nas bancas no momento em que o sol estivesse nascendo e os roqueiros ingleses desembarcando no Galeão.

Foi um desastre. Transmitido por telex em duas partes (eu despachei a primeira metade antes, entregando-a ao digitador da AP assim que a tirei da máquina, pois achei que desse modo ganharia tempo), o texto nunca mais virou um só. A abertura foi parar nas mãos do editor errado, que distraidamente a engavetou. A segunda metade chegou às mãos certas, mas era inútil. Tentaram me ligar na AP para que eu retransmitisse a primeira parte. Eu já estava em algum lugar do metrô, flutuando no alívio da missão cumprida, a caminho de casa – onde, recém-chegado, ainda não tivera tempo de instalar um telefone. Celular? Não havia, pois é. Como eram imensas as distâncias, e como tinha algo de heroico o trabalho de encurtá-las — quando se conseguia fazer isso.

Pelo menos o show do Echo and the Bunnymen no Canecão foi excelente, dizem. Há quem jure que chegou às raias do lendário. Se Ian McCulloch se afogou em pints de caipirinha não sei, mas eu fiz algo parecido com o mais famoso destilado local porque era assim que lidávamos naquele tempo com as frustrações da vida, meninos, eu vi.


* * * * *

Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista. Entre outros livros, é autor do romance O drible (Companhia das Letras), vencedor do Grande Prêmio Portugal Telecom (atual Oceanos) em 2014 e lançado em sete países. É mineiro e vive no Rio.



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