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VIVER DEVERIA SER COMO ESCREVER UM BILHETE NO PAPEL DE PÃO - Flávia Bechtinger

Escrever no papel de pão porque não encontrou um papel melhor é improvisar. E viver no improviso é aprender a ser feliz. É continuar buscando, independente do que acontece. Rir quando a chuva cai e você percebe que saiu de casa com a roupa branca, beber suco de laranja quando a água acabou, receber bilhete em um guardanapo quando o garçom demora demais para trazer um papel lá de dentro ou ir ao cinema enquanto espera o chaveiro para abrir sua casa, já que você não sabe onde deixou as chaves. Isso é improviso. Isso é mais do que aprender a jogar com as cartas que tem; é aprender a criar novas cartas quando as suas já não fazem mais o jogo avançar.

Sabe aquele dias em que você acorda atrasado, toma café correndo e, quando está quase saindo de casa, se lembra de que tem que avisar alguma coisa para alguém que ainda está dormindo? Você pensa em deixar um bilhete e prender na geladeira e sai em busca de um pedaço de papel e uma caneta. Você está com muita pressa, agoniado e não encontra nada em que possa escrever agora à sua volta. Levanta umas revistinhas de palavras cruzadas que deixou espalhadas pela mesa da cozinha, o jarro que fica em cima da mesa de jantar e nada. Você tem pouco tempo. Volta e refaz o caminho para procurar mais. Nada novamente. Nada ao seu alcance. Você tem que ir embora. Não há mais tempo. Eis que se rende ao papel de pão e deixa o bilhete num picote que faz com a mão mesmo. E pouco importa se a letra sair tremida. Naquele momento, você deu o seu melhor com o que dependia de você. Escreve e logo sai correndo para a reunião.

E depois? E depois a vida continua sem grandes mudanças. O recado foi dado e recebido e tudo está na sua mais perfeita ordem. Tirando o saco do pão, que agora está um pouco mais torto.
Assim deveria ser a forma com que a gente vê a vida: no improviso.

Deu errado? Relaxe. Olha à sua volta e, se não achar nenhuma solução, vá dançar sua música preferida ou dar um mergulho na praia. Se não tem o que fazer, o jeito é não se preocupar e esperar até pensar numa solução melhor.

É normal querermos que as situações se desenrolem exatamente como pensamos que se desenrolariam, mas, a menos que você queira viver uma vida estressante, esse não é o melhor caminho.

O que vai determinar o quanto somos felizes na vida não é bem o que nos acontece, mas o que escolhemos fazer com isso.

Se aconteceu algo diferente do que planejou, procure encontrar graça nessa nova possibilidade que se abriu para você. Não é que tenha dado errado; só saiu um pouco diferente do que pensava. Ou muito, mas isso meio que não importa. Saiu diferente e agora o cenário que se construiu é só diferente do que você construir dentro da sua cabeça.Só isso. E daí? É assim para todo mundo mesmo. Talvez seja a vida dando uma oportunidade para você fazer diferente, abrir sua cabeça para o que até então era meio desconhecido para você e crescer com isso. Você tem duas opções: sofrer (que, até onde eu sei, não resolve problema nenhum) ou sorrir e buscar uma opção dentre as milhões que você tem para resolver aquela questão. Você só tem que descobrir como. Tem uma terceira opção também: aceitar e tocar o barco. Algumas coisas simplesmente são e não vão mudar só porque você começou a chorar. A vida continua e você tem que aprender a continuar também. Isso se quiser viver uma vida mais simples. Você pode continuar se aborrecendo com as surpresas também.

Aliás, há um tempo que eu tenho vontade de sugerir para que a gente pare de classificar o que acontece entre bom ou ruim. Tudo acontece e pronto. O adjetivo que você escolhe para definir isso é problema seu e de mais ninguém. E isso não te leva muito além de um lugar de reclamações e chateações.Se você enxergar todos os desafios como oportunidades de amadurecimento e não como acontecimentos positivos ou negativos, eu aposto que a vida fica muito mais leve para você. E para as pessoas que estão à sua volta também.

Experimente.

Experimente acordar amanhã e deixar todas as suas expectativas na sua cama. Saia sem elas e esteja preparado para o novo. Quando alguma situação inesperada aparecer, sorria, mantenha-se calmo e pense nas suas opções. Estar preparado para o imprevisto é estar aberto para buscar. Busque alternativas, busque formas novas de fazer, busque agregar novos padrões para a sua vida.

Experimente não seguir sua agenda por um dia. Acorde uma hora mais cedo, vá correr na praia ou contemple a natureza pela sua janela. Escreva para um amigo que não vê há muito tempo, matricule-se numa academia nova. Vá fazer o que nunca fez ou faça o que sempre faz, mas de um jeito totalmente novo. No início, talvez isso canse um pouco, mas vai dar a você muito mais ideias para quando precisar improvisar.

Tudo o que é comum é mais fácil de ser esquecido. Se quer uma vida extraordinária e viva de verdade, se atreva a aprender o novo, a improvisar, a dançar na chuva caso não ache o guarda-chuva.
Você vai achar que perdeu um pouco o controle da sua vida, mas eu garanto que você vai ganhar muito mais momentos para se lembrar.

E se chegar o dia em que você não achar um saco de pão porque você se esqueceu de comprar pela manhã, vai se lembrar de que a caixa de pizza que comeu ontem à noite ainda está em cima do fogão.


FLÁVIA BECHTINGER


A Flávia é formada em Comunicação Social e autora na página Poesia que sorri. Desde pequena, escreve. Escreve para estar presente, para sentir, para ser. Escreve. Busca escolher palavras que ultrapassam o valor das palavras..


Fonte:  http://obviousmag.org/em_construcao/2016/viver-deveria-ser-como-escrever-um-bilhete-no-papel-de-pao.html#ixzz4N9DGQG40


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