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REVENDO RITA MOREIRA - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 06/10/2016

REVENDO RITA MOREIRA

Entre as tantas manias que tenho, uma delas é recortar pedaços de jornal com notícias ou artigos que acho interessantes. Outra mania é jogar esses recortes na gaveta e esquecê-los por lá. Relacionada a essas duas anteriores, vem minha mania de tempos em tempos resolver “limpar a gaveta da memória”. É o que estive fazendo recentemente.

Ao começar a faxina, encontrei sobre todos os recortes um menos amarelado, no qual minha própria letra indicava ser de novembro de 2010. Título: “A Voz Inquieta de Rita Moreira”. Era uma entrevista assinada por Angelo Mendes Corrêa, professor e mestre de Literatura da USP.

Intriguei-me por ter guardado essa entrevista. Lá estava por quê? Pelo mestre universitário, ou pela inquieta Rita? Não tinha a menor lembrança sobre quem era um e quem era a outra. No final da entrevista havia uma frase que sublinhei com destaca texto vermelho: “Rita, menina de trança que já se mostrava inquieta desde criança. Rita, mulher, poeta, budista”. Mas não consegui entender porque estava lá essa tal de Rita, mulher inquieta, poeta e budista, de quem nada lembrava? Antes jogar fora o recorte resolvi ler o que estava destacado por minhas marcas vermelhas, em suas respostas à entrevista:

·        “Tentei várias vezes, mas nunca consegui ler Dante, nem Proust, nem Guimarães Rosa e sei que dizer isso causa espécie. Pois que cause. Dante, pelo menos, pretendo ainda insistir”.
·        “Alguém disse que somos impressionados mais pelo que lemos na juventude, e é verdade. Nossa, como me impressionaram Knut Hamsun, Somerset Maugham, Guy de Maupassant! Enfim, aqueles livros que todos nós jovens líamos”.
·        “Em ‘Maria Morta em Mim’ há poesias de quando eu tinha entre 15 a 18 anos mais ou menos

Aí já apareciam indícios de meu interesse. As leituras de Rita demonstravam que ela era minha contemporânea. Não conseguir ler o Rosa, nos tornava cúmplices e ‘Maria Morta em Mim’, era um nome que me pareceu familiar. Então continuei relendo meus destaques vermelhos:

·        “Claro que amor a gente sempre quer e aceita feliz, em todas as suas variações. Já aplausos são enganadores, de nada servem. Não se dirigem a você. Quem é você? Quem sou eu? Comecei perguntando isso, aos 11 anos, numa poesia que está em ‘Maria Morta em Mim’, e continuo até hoje”.
·        “Hoje me dedico à coordenação dos cuidados com minha mãe, meu gato, meus negócios, minha saúde, minha casa e meus amigos, mas meu principal desejo, acho que desde os vídeos, os textos, tudo, mas que agora se acentuou com a idade, é a vontade de fazer alguma coisa, para ajudar o mundo de alguma forma, mesmo pequenina”.
·        “Acho que muita coisa mudou após meu período de uns seis anos para cá como aprendiz de zen budismo”.

Rita me pareceu, por suas palavras, ser uma pessoa boa e sintonizada comigo. Mas ainda não sabia por que estava guardando aquele recorte. Não sou zen... mas sou teimoso. Então fui buscar seu Blog na Internet. E encontrei.

“Paulistana, ainda muito jovem, nos anos 60, Rita Moreira foi letrista parceira de Paulinho Nogueira e publicou dois livros de poesia.  Depois, foi redatora, tradutora e editora de textos. Em 1972 mudou-se para Nova York, onde se formou em vídeo-documentário e  foi correspondente do Semanário Opinião, continuando escrever artigos para revistas brasileiras. Nessa época deu início à vasta e internacionalmente premiada produção de documentários em vídeo. Além disso, continuou com trabalhos editoriais, para revistas de renome e na Enciclopédia Larousse,  onde foi Editora de Etimologia.  Até que, nos anos 90, a poesia se intrometeu de novo e sua obra mais recente é o livro de poemas ’Perscrutando o Papaia’, uma espécie de volta da poeta a si mesma. Os poemas de Rita são transparentes, fluentes e não manifestos “literateiros”.  Sua maturidade é leve. seu humor uma risada aberta, que abranda a brusquidão e secura das coisas”.

Muito bem, comecei até a me interessar em ler e procurar seus livros. (Até encontrei ‘Maria Morta em Mim’ nos sebos internéticos.) Mas continuava sem atinar porque estava guardando esses recortes sobre Rita. Já estava começando a rasgar para jogar fora os recortes, quando uma pequena folha “desgrudou” e caiu ao chão. Sem me abaixar, vi minha letrinha pequenina preenchendo o papel.

Peguei-o. Era um texto meu preenchendo a folhinha na frente e no verso. Datava de 25 de agosto de 1962, escrita a cinquenta e quatro anos atrás, aos meus dezenove anos:  

“Neste sábado, vi na televisão uma linda menina de 17 anos, autora do livro de poesias “Maria Morta em Mim”. O apresentador declamou seu poema “Pensamentinho”. Confesso que achei interessante aquilo de “homens de aço” e “donos dos sonhos”. Mas talvez porque não estivesse prestando muita atenção, não entendi o contexto do poema. Pensando melhor, acho que prestei mais atenção na beleza da menina do que em sua obra. Por isso também, não consegui ver  a profundidade alardeada pelo apresentador no “pensamentinho”. Fiquei triste e confuso ao ouvir aquela poesia, sem entendê-la e nem encontrar a profundidade anunciada. Comparei-a com as minhas tão fáceis de entender. Será que isso determina minha mediocridade poética?... Nada disso! Fiquei é com inveja da linda menina de dezessete anos que já teve a oportunidade de publicar sua obra, “incentivada pelo bom amigo Paulo Bonfim”. Lamentei não ter nenhum “bom amigo” literato e não ter coragem para publicar minhas poesias. Entretanto Rita é tão bonita e parece ser tão inteligente, que fiquei triste em não conhecê-la”.

Agora sim me lembrei dela! Ainda não a conheço, mas certamente vou comprar um livro seu.

Mateus Cosentino
Sampa - 25/09/2016

P.S. = A propósito: no recém findo mês de setembro deste 2016, Paulo Bonfim, o grande poeta de São Paulo, comemorou seus 90 anos de vida. Parabéns a ele. 


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