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ENSAIO: POR QUE AMAMOS?- Alexandre Ferreira

Postado por Rilvan Batista de Santana 23/10/16

ENSAIO: POR QUE AMAMOS?
publicado em recortes por Alexandre Ferreira

Existem inúmeras razões que nos conduzem a produzir dentro de nós o melhor dos sentimentos por coisas e por pessoas, mas a verdade é que o amor é a própria constatação de que somos seres essencialmente puros e moldados para o bem: somos a metapoesia de Deus.

Certamente, poderemos encontrar inúmeras respostas em diferentes áreas de conhecimento para essa complexa questão, mas segundo a conceituadíssima antropóloga da Universidade Rutgers, EUA, autora do livro Why we love? - the nature and chemistry of romantic love (“Por que amamos? - a natureza e a química do amor romântico”), Helen Fisher, a resposta é tão mais simples quanto razoável, comparativamente a todas as outras explicações: “Somos biologicamente programados para a aventura de amar”. Helen sustenta a tese de que para os humanos, a necessidade de procriar é tão intensa quanto a de se alimentar ou dormir, o que desencadeia no cérebro a energia dramática necessária para abastecer quatro sentimentos muito básicos em nós: paixão, obsessão, alegria e ciúme.

Partindo do pressuposto de que Helen tenha toda a razão, ainda assim, poderíamos, por outro lado, citar inúmeras abordagens sobre o tema, de cada uma das áreas científicas ou não de que se tem notícia. Enfim, todos querem saber o porquê de amarmos e todos encontram explicações muito plausíveis em sua própria área de conhecimento. Entretanto, e se explicações lógicas não pudessem desmistificar algo que é ilógico? Seria essa a conclusão mais sólida a se admitir dentre tantas hipóteses científicas? Sabemos, inegavelmente, que o conhecimento sobre alguma coisa repousa em alicerces anteriores à própria tese que se formula sobre essa coisa, no sentido de que fatos novos a respeito de qualquer área científica são previamente direcionados e estudados sob um ponto de vista racional que já existe, um viés concreto do conhecimento pré-firmado, e só podem vir a comprovar as formulações que quem os estuda tinha no momento da hipótese, se o método é delimitado pela ciência firmada de algo e se, depois de dissecado o postulado, este corresponde às mensurações esperadas. Enfim, o saber sobre algo é limitado ao conhecimento prévio sobre as coisas que o originaram e que o foram moldando ao longo do tempo, até aquele ponto-chave do estudo. Tudo isso é ciência básica, claro, ou como diria Jesse Pinkman:

Ocorre, todavia, que o conhecimento sobre coisas abstratas é impossível de ser comprovado por formulações racionais, na medida em que o conhecimento prévio que se têm sobre essas coisas decorre de hipóteses improváveis no aspecto puramente científico. Evidentemente, quanto ao amor, a despeito das reações químicas que este desencadeia no organismo, pode-se dizer que as mesmas reações ocorrem por outros motivos menos nobres, o que desfideliza sobremaneira seu estudo pelo ponto de vista exclusivamente científico e impõe, de antemão, abordagens mais hipotéticas ou demasiado irracionais.

Assim, fica evidente que o amor pode ser estudado do ponto de vista científico. E sobre ele se chegará a inúmeras teses, todas de algum modo, amparadas, de certo, nenhuma conclusiva. Porque pensar o amor de forma ampla na nossa espécie é muito mais ligado aos estudos antropológicos e ao casamento entre a evolução da inteligência da nossa raça ao longo da história e os fatores ideológico-filosóficos que a cerceiam, entre os quais a arte e a religião.

A grosso modo, o que se quer ponderar com tudo isso é que o amor é, inexplicavelmente, muito mais uma demonstração externalizada de uma abordagem internalizada nossa a respeito do afeto que se deve ter pelas coisas, enquanto seres capazes de discernir, aprimorada ao longo da nossa estadia histórica como espécie, uma exteriorização da nossa capacidade romântica de convivência social com viés poético e antropológico, do que um monte de reações químicas cerebrais que nos imponham mecanismos de ação e reação robóticas sobre o que gostamos.

E a essa altura você, inteligente, já se pergunta: Ora, se a posição aqui defendida é a de que todas as outras conclusões sobre o amor são equivocadas porque ele não é científico, então essa não seria apenas mais uma posição anticientífica que é defendida, não estando necessariamente certa?

Em larga medida, sim. Resta claro que as influências que temos ao longo da vida, os nossos estudos e a nossa cultura geral, nos impõem maneiras de pensar sobre as coisas. Por outro lado, se chegarmos a essa conclusão inexorável de forma incongruente, poderemos imaginar que todas as conclusões científicas são viciadas de parcialidade. Nada poderia ser mais paradoxal quanto à conclusão sobre as coisas, já que nos levaria a concluir que a conclusão sobre as coisas é inconclusa!

Ora, por mais complexo que possa parecer, temos que ter conhecimento vasto sobre o que queremos saber, e dentro da nossa cultura, vamos encontrar a resposta que se adéqua às nossas convicções. Ela será científica ou irracional, será só nossa, mas quando o assunto for o amor, ela sempre será debatida dentro de nós como o enigma da esfinge, aquele que pouquíssimos poderão decifrar. Sobre essa abordagem menos racional, cabe citar a obra de Frei Beto, cujo teor é em alta medida filosófico e com amplo fundo em fatores antropológicos. Trata-se de um trecho do texto “A linguagem do Amor”:

“A festa de São João da Cruz (1542-1591) é comemorada neste dia 14. Considerado patrono dos poetas espanhóis, em suas quatro obras ele comprova que a linguagem do amor extrapola a razão, supera a sintaxe usual, subverte a lógica e tem como pátria a poesia. Discípulo e parceiro de Teresa de Ávila, ele viveu a experiência de Deus com e como intensa paixão.

Aliás, a mística não é outra coisa senão a paixão humana elevada à esfera sobrenatural. O que ocorre entre dois amantes, dá-se igualmente entre a criatura e o Criador, com a diferença de que tanto mais um se apossa do outro quanto mais se entrega sem querer possuir.

Entre dois amantes, o sentir predomina sobre o pensar, a efusão sobre a reflexão, o balbuciar sobre o explicar. Os amantes transitam nos extremos da linguagem, sem se deter no espaço intermediário. Pronunciam expressões aparentemente desconexas, próprias da comunicação infantil, na qual os vocábulos parecem emergir diretamente dos sentimentos. No pólo oposto, dispensam palavras e abraçam o silêncio fecundo, manifestando-se por toque, gesto, olhar, movimento orgiástico do corpo ou, simplesmente, repouso de um junto ao outro.”

Esse é o amor poético, mais próximo da nossa realidade do que o racional e menos lógico do que amplo e cheio de definições.
A definição do amor é o amor.

E a razão de amarmos é tão infinitamente simples que não precisa de nada para se comprovar: amamos porque somos seres especiais, somos a metapoesia de Deus!


ALEXANDRE FERREIRA

Servidor das letras, funcionário das palavras... ama escrever, escreve porque ama, vive porque escreve... aquele que respira a poesia das coisas cotidianas e procura diagramá-las em alfabeto..






Fonte:http://obviousmag.org/o_zumbido_coletivo/2016/ensaio-por-que-amamos.html


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