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CUMÉ QUI É?- Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 05/09/2016

CUMÉ QUI É?

Há algum tempo recebi o texto abaixo, através de e-mail, sem indicação de autoria:

(Abre aspas) Diz uma lenda que Rui Barbosa, ao chegar certo dia em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Foi averiguar e constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus patos, disse-lhe:

- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica, bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência daquilo que o vulgo denomina; nada.

E o ladrão, confuso, diz:

- Dotô, cumé qui é?... eu levo ou dêxo o pato...?(Fecha aspas)

É evidente que isso nunca aconteceu. Claro que é uma parábola, feita por alguém desconhecido, para ser engraçada. E é, porém, também ilustra muito bem e de forma interessante os níveis que se pode chegar no uso da língua portuguesa. Neste caso, demonstra os extremos níveis da linguagem: O erudito (mais que culto) e o inculto (menos que analfabeto).

Quem, acaso, já leu o quase contemporâneo de Ruy, o Machado de Assis, sabe que nenhum dos dois, ou mesmo qualquer outra pessoa culta da época, jamais falaria daquela maneira. Mesmo porque o culto pode e deve adequar o nível de sua fala, até o baixo calão, se necessário, enquanto ao inculto é impossível subir o nível verbal sem ser caricato.

Mas não podemos esquecer que algumas palavras escritas no tempo em que ambos viveram, já caíram em desuso. A língua é dinâmica e, portanto, está sempre mudando, abandonado algumas palavras e criando outras.

Aqui e agora, quero apenas deixar constando que as citações dos nossos contemporâneos de criaturas mitológicas como Machado e Ruy são geralmente imagens distorcidas. Acredito que isso seja perfeitamente aceitável, pois a causa disso foi o fato de que a maioria de nós, enquanto ainda crianças,  éramos obrigados, nas escolas, a ler diversas obras dos chamados “Clássicos”, como eles.

Entretanto, naquela época, tínhamos um vocabulário quase tão escasso como o inculto ladrão da historinha acima. E apesar das louvações de nossos professores aos “mestres” e às “águias”, não conseguíamos criar nenhum interesse pelo estilo maravilhoso e pela genialidade daquelas leituras obrigatórias que mal entendíamos.

Por isso, muitos de nós, ainda hoje, continuamos sem saber se é para “levar ou deixar o pato”, diante de alguns de nossos Clássicos. E, aqui entre nós, confesso que quando leio o “moderno” Guimarães Rosa, surpreendo-me constantemente dizendo: Cumé qui é?

Mas aí é uma outra história...





Mateus Cosentino – Sampa 01/09/2016

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