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Por que a Academia Brasileira de Letras insiste em nomear não escritores como imortais?
Antonio Carlos Secchin

Em 2017, a Academia Brasileira de Letras irá comemorar 120 anos. Criada por iniciativa de Lúcio de Mendonça, reuniu um grupo de 40 escritores, dentre os quais Machado de Assis, à época um de seus mais idosos fundadores. Autor já consagrado, com inconteste ascendência sobre os mais jovens, presidiu a Casa até morrer, em 1908.

Desde cedo a Academia povoou o imaginário da intelligentsia brasileira, provocando reações extremadas de amor e ódio, estas, muitas vezes, provindas de candidatos que não lograram êxito em tentativas eleitorais. De todo modo, no crepúsculo do século XIX o surgimento de uma confraria literária representou decisivo fator para o reconhecimento e a profissionalização do ofício de escritor.

Muitos equívocos e meias mentiras circulam em torno da instituição. Criticam-na, por exemplo, por abrigar acadêmicos que não são literatos em sentido estrito. Ora, pautada pelo exemplo da Academia Francesa, a nossa optou por também acolher os chamados “notáveis”, expoentes em várias áreas do saber: diplomatas, juristas, cientistas. Machado de Assis e Joaquim Nabuco divergiram na questão, mas o ponto de vista de Nabuco – favorável a um conceito mais amplo de “humanidades”, em que as letras não tivessem exclusividade – acabou prevalecendo. Isso explica a presença do Barão do Rio Branco, de Santos Dumont e de Oswaldo Cruz no quadro acadêmico.

Grandes nomes – como Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade – não concorreram à ABL. Nunca é demais recordar que a candidatura decorre de ato unilateral do pretendente, formalizado mediante carta de inscrição. Pelo Estatuto, datado de 1897, demanda-se que os membros da Academia tenham publicado, em qualquer gênero, “obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário”. O mérito, conquanto parâmetro passível de discussão, avulta como principal critério no momento das votações. Mas, como em qualquer eleição, existem outros crivos que podem – ou não – ser considerados. A genealogia da cadeira, por exemplo: se ela até então foi preponderantemente ocupada por ficcionistas, haverá quem defenda a manutenção da linhagem, e quem dela discorde para impedir a formação de capitanias hereditárias. A sociabilidade também é levada em conta, pois um novo acadêmico é pessoa com quem se conviverá até o inevitável fim dos dias – do eleitor ou do eleito. Se ocorreram alguns equívocos em escolhas e preterições, não nos esqueçamos de que Euclides da Cunha, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, entre outros escritores de primeira grandeza, foram membros da instituição.

A Academia subsiste sem ônus aos cofres públicos. Não sendo subvencionada pelo Estado, dispõe de plena autonomia, o que se reflete na coexistência de divergentes posições políticas e ideológicas de seus membros; assim foi desde a fundação, quando acolheu ao mesmo tempo monarquistas e republicanos. As sessões das quintas-feiras costumam ser palco de debates sobre temas do passado ou da atualidade. Sim, é importante salientar a dimensão da atualidade na ABL, pois, de modo caricatural, muitos a figuram como espaço vedado ao contemporâneo, onde senhores de certa idade, usando fraques e mesóclises, e tratando-se por “Vós”, apegam-se apenas ao cultivo ornamental de formas pretéritas. Um compromisso estatutário determina que a instituição se dedique à “cultura da língua e da literatura nacional”; ambas, língua e literatura, são fenômenos em perpétuo processo. A ABL, decerto, é generoso abrigo de nossa memória literária. Mas, se respeita e repertoria a tradição, a ela não se limita. Um exame, ainda que ligeiro, de suas atividades comprova a afirmativa.

Não seria exagero afirmar que a Academia, hoje, é um dos mais dinâmicos centros de cultura do país, embora nem todos saibam ou queiram saber disso. Os interessados podem inteirar-se da programação completa no site www.academia.org.br . Entre março e dezembro, ciclos de conferências congregam especialistas das mais diversas áreas: literatura, antropologia, filosofia, política, psicanálise, comunicação, história. A cada mês, um seminário convoca estudiosos para discussão de assunto da atualidade brasileira ou internacional. Com a mesma periodicidade, são oferecidos recitais de música clássica e de música popular. Todos os eventos são abertos ao público e transmitidos ao vivo. A Academia também franqueia visitas guiadas para estudantes do ensino médio. Duas bibliotecas – a acadêmica e a geral – recebem diariamente dezenas de consulentes e pesquisadores, com acesso a um moderníssimo Centro de Memória. O aplicativo gratuito VOLP, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, representa outra contribuição acadêmica à comunidade. A linha editorial da ABL investe em títulos relevantes, mas não contemplados pelo mercado, que os considera de escasso retorno comercial. Citem-se, entre outros livros recentes, os cinco volumes da correspondência completa, ativa e passiva, de Machado de Assis, e a reedição, em 2013, das obras de Cláudio Manuel da Costa, cuja publicação anterior datava de 1903.

Ao apoiar e difundir a cultura em sua pluralidade de manifestações, a Academia cumpre a sua mais legítima destinação. Em meio aos percalços e sucessos que lhe marcaram a trajetória mais que centenária, a ABL persiste como uma casa que sempre lutou pela dignificação e independência da intelectualidade brasileira, concedendo simbolicamente a seus membros a fugaz sensação da imortalidade de uma glória “que fica, eleva, honra e consola”.

Fonte:
Estado de São Paulo / ABL


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