Saber-Literário

Diário Literário Online

O PAÍS DOS MENTECAPTOS - João Carlos Figueiredo

Postado por Rilvan Batista de Santana 21/08/2016

O PAÍS DOS MENTECAPTOS
publicado por João Carlos Figueiredo

Chegamos a uma encruzilhada no processo civilizatório brasileiro: ou saímos dessa crise com capacidade de crescimento sustentável, no tripé econômico, social e ambiental, ou sucumbiremos a um mundo extremamente competitivo, no qual nossos produtos industrializados atuais não encontram mercado por falta de qualidade e preço compatíveis com as expectativas de consumidores cada vez mais exigentes, tornando-nos cada vez mais conhecidos como os fracassados e anacrônicos "mercadores de commodities".

Não há espaço para amadorismos no mundo contemporâneo. A tecnologia avança em processo acelerado, sucateando indústrias que oferecem apenas o que os consumidores esperam ou já conhecem. Novidades revolucionárias são lançadas no mercado a cada dia, substituindo produtos que mal tiveram tempo de remunerar os investimentos feitos por seus desenvolvedores, a uma velocidade nunca antes sequer cogitada pelos futurólogos mais criativos. Pela primeira vez na História, o mundo se transforma vertiginosamente a olhos vistos!

O Brasil, no entanto, escolheu o caminho errado, optando por servir aos senhores do mundo através de um processo de colonização ao qual se submete voluntariamente, preferindo vender commodities a se lançar na fantástica aventura do desenvolvimento científico e tecnológico. Atualmente, o único setor que cresce neste país é o Agronegócio que, segundo a Rede Globo, "é POP"! Tentam convencer o povo brasileiro de que somos campeões de produção e venda de grãos, de petróleo, de minérios e de madeira, e que isso é bom, e que isso basta!

Ocorre que vender recursos naturais, com baixo índice de valor agregado, é burrice! Estamos devastando a Natureza que nos presenteou com riquezas incomparáveis, trocando imensas áreas territoriais de florestas por campos de monocultura de soja, milho, cana de açúcar, algodão, eucaliptos e de pasto para o gado. Nesse processo de "terra arrasada", quando o solo já não aguenta mais tamanho desgaste, ele é abandonado em busca de novas "fronteiras agrícolas" e novas devastações de florestas. Para manter a terra "produtiva", toneladas de agrotóxicos são espargidas sobre as plantações, e seus resíduos tóxicos despejados nos rios e lençóis freáticos.

Enquanto isso, imensas usinas siderúrgicas processam o metal extraído do solo, deixando para trás os restos das montanhas arrasadas e terras contaminadas com resíduos tóxicos e desastres ambientais irreversíveis. Em Minas Gerais e no Pará, o resultado desse processo pode ser comprovado pela paisagem devastada pelas mineradoras e pelos seus crimes ambientais, como o do Vale do Rio Doce.
Como compatibilizar desenvolvimento econômico com preservação da Natureza e sustentabilidade ambiental? Esse parece ser o dilema das grandes civilizações. Porém, ao contrário da Europa, Estados Unidos e China, o Brasil ainda possui extensas áreas territoriais preservadas, apesar do intenso desmatamento da Amazônia, da Mata Atlântica (quase extinta) e do Cerrado. Por isso, é possível estancar esse processo e salvar o que resta, desde que novos conceitos de produção agrícola, pecuária e extrativista sejam adotados pelas políticas públicas em nossa Nação.

A origem desse processo de devastação parece estar incrustada na consciência do povo brasileiro pelas políticas de colonização a que fomos submetidos durante cinco séculos. Em primeiro lugar, a visão cretina dos portugueses, que viam no Brasil apenas um entreposto comercial a ser explorado por mão-de-obra escrava, seja de negros trazidos à força de suas "colônias" africanas, seja de indígenas, torturados e assassinados aos milhões em nome da Coroa Imperial. Mesmo depois da abolição da escravatura, já no final do século XIX, os negros continuaram a ser tratados como recursos baratos para a lavoura e para a indústria, sendo depois substituídos por mais trabalhadores imigrados de diferentes partes do mundo para "ajudar" na agricultura, principalmente japoneses, chineses, italianos e espanhóis.

Mas não foi apenas a escravidão e a imigração que deram ao Brasil o triste apelido de "celeiro do mundo"! Foi, principalmente, uma visão equivocada do desenvolvimento do mundo civilizado que nos conduziu a essa vertente sem retorno: enquanto os Estados Unidos se fortaleceram pela indústria petrolífera e automobilística, investindo seus lucros na construção do mais complexo e competente Sistema Educacional do mundo, com ênfase na Ciência e na Tecnologia, o Brasil tentou imitá-los na primeira metade do século XX, mas sem nenhum investimento na Educação, em qualquer de seus estágios. Consumimos essa riqueza gerada pelos trabalhadores, enriquecendo famílias já abastadas, que se tornariam a argamassa das oligarquias brasileiras.

Pior do que isso foi a assustadora desigualdade regional da sociedade brasileira. Nosso desenvolvimento se deu ao longo das praias, em uma estreita faixa litorânea que perdurou até o final da Segunda Guerra Mundial. Depois disso, sem planejamento e sem controle, o "desenvolvimento" foi direcionado para a Amazônia, para satisfazer à "estratégia militar" da ditadura dos generais ("Integrar para não entregar"), e depois para o Centro-Oeste, para fortalecer as oligarquias dos coronéis do sertão e suas famílias abastadas e enriquecidas pela miséria do povo.

Hoje passamos por uma das mais graves crises de nossa História, seja sob o ponto de vista econômico, político, social ou ambiental. Não se vislumbra qualquer saída digna de uma nação civilizada: por um lado, o preconceito étnico e social isola cada vez mais as maiorias, marginalizadas nos guetos e favelas das megalópoles e nas pequenas vilas do Norte-Nordeste; por outro, a riqueza se concentra aceleradamente em setores minoritários da sociedade, expondo nossas feridas históricas coloniais.

Como solucionar a crise política, se nossos representantes, em todas as esferas do poder, são o reflexo da formação cultural de nosso povo? Como exigir Ética de uma população que mal conhece o significado dessa palavra, sem, por essa razão, aplicá-la em sua vida cotidiana? Como esperar honestidade de políticos que subornam a população em troca de seus votos? Como esperar que pessoas dignas se arrisquem a se candidatar a cargos políticos, comprometendo sua honra e seu passado?

As demais crises são o reflexo dessa falsa democracia: a Economia está fundamentada no Agronegócio, comprometendo qualquer tentativa honesta de salvar o que restou do Meio Ambiente; a sociedade jamais se desfará das algemas que a escravizam em uma classe pobre de oportunidades porque não investe igualitariamente em Educação, reforçando continuamente as desigualdades regionais; as populações indígenas, quilombolas e ribeirinhas sofrem um processo contínuo de marginalização pela sociedade capitalista, que não os reconhece como legítimos formadores da Nação Brasileira apesar de sua inestimável contribuição.

Esse país de mentecaptos está aprisionado pelo seu passado e pela falta de legítimas lideranças que possam conduzi-lo para uma saída honrosa. Apenas assistimos passivamente à nossa tragédia diária, vendo os jovens reclamando por "Justiça", que eles sequer saberiam definir adequadamente, sem que consigamos, ao menos, equacionar uma solução a médio e longo prazo. E nossa geração, perdida nas lutas contra a Ditadura dos anos 1964-1985, já não tem mais lideranças honestas e confiáveis para fazer a imprescindível transição para o futuro.

Qual seria, pois, a solução para esse impasse? Difícil dizer. As amarras que nos vinculam ao passado também nos impedem de caminhar em direção ao futuro. Já não representamos a Esperança de nosso povo, pois nossos líderes se entregaram à lascívia do poder, vendendo-se por bilhões de "trinta moedas" e entregando-se à tarefa fácil de se enriquecer, às custas do empobrecimento da Nação.


JOÃO CARLOS FIGUEIREDO
Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....


Fonte: http://lounge.obviousmag.org/artefacto_artefoto/2016/08/o-pais-dos-mentecaptos.html

0 comentários

Postar um comentário

Recomende este blog!!!

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Perfil

Perfil
Antônio Cabral Filho - Escritor e coadministradores

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

Patrono

Patrono
Machado de Assis

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.
Tecnologia do Blogger.