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Goethe e a antiguidade clássica - Evaristo de Moraes Filho

Postado por Rilvan Batista de Santana 04/08/2016

Goethe e a antiguidade clássica
Evaristo de Moraes Filho

Apesar de haver nascido e vivido na Alemanha, principalmente na sua cidade quase pessoal de Weimar, não há dúvida que Goethe sempre foi um meridional. Desde cedo voltado para a natureza, preocupou-se inclusive com as ciências naturais, desde a Física até à Biologia, com a sua célebre teoria das cores (contra Newton) e as suas hipóteses e estudos de vértebras animais, em que se antecipou ao evolucionismo que chegou depois dele. Mais tarde, já com preocupações filosóficas, inclinou-se para o panteísmo espinozista, dando vazão à sua intuição inicial de confundir-se com a própria natureza, no que ela tenha de eterno e de vivo. Em tudo ele via manifestações desta vida que não pára, desta vontade de viver e de permanecer. A criação estava por toda parte, refazendo, aproveitando, recompondo, mas não morrendo nunca.
Este homem de temperamento ardente, agudo, de antenas sempre voltadas para as manifestações das artes e das ciências, sentiu necessidade de descer, de viajar pela Itália, em busca do ambiente, se não da antiguidade clássica autêntica – e para esta só com a máquina do tempo do Dr. Papanatas... –, pelo menos, do Renascimento. Compartia ele das mesmas inclinações do seu conterrâneo e contemporâneo, Winckelmann. O Renascimento para Goethe era o caminho para a antiguidade, era o instrumento mais moderno, mais recente, de o homem da sua época penetrar nos ideais e nas concepções da Grécia clássica.

Em verdade, a antiguidade de Goethe era uma antiguidade superposta à real, com grandes acréscimos do genial escritor, depurada do que pudesse apresentar de feio e de triste. O quadro que ele pintava era claro, límpido, pujante de vida, sem baixeza de espécie alguma. E alguém já disse, com algum espírito, que os gregos não foram tão gregos assim... A sua redescoberta pelos tempos modernos emprestou mais colorido aos tempos antigos, como um foco de luz que ilumina uma cena, onde realmente houve grandes espetáculos... Mas há uma superposição de luz.

Quando de sua viagem pela Itália, mais de uma, inspirou-se Goethe diretamente nos ambientes renascentistas, leu e releu os escritores do quatrocento, como que a querer sorver a sua forma de vida e os seus sentimentos. Não se contentou em escrever dramas com o espírito da época, cujo exemplo típico é o Torquato Tasso, tentou ainda alguns esboços de desenho. Mas foi, sobretudo no Fausto, que ele procurou contrapor o espírito medieval ao espírito moderno, com a súbita mudança de interesse pelas coisas do mundo, pelas coisas da terra, procurando-a penetrar por todos os lados, na busca desesperada e incansável do próprio infinito. Chegar ao infinito, dizia ele, é penetrar o finito por todos os lados.

O drama antigo, a escultura, assim como a pintura e a literatura do Renascimento – para Goethe, reencarnação da antiguidade – eram os tipos mais elevados e puros da criação humana. No seu livro de memórias Dichtung und Wahrheit (Poesia e Realidade), escreve, ao chegar em Roma: “Eis-me aqui, eu o creio pelo menos, tranquilo pelo resto de meus dias. Começa-se a viver quando se vê em conjunto e pelos próprios olhos o que não se conhecia senão em parte ou por ouvir-dizer. Os sonhos de minha juventude se realizam”... “A história do mundo inteiro se prende a esta cidade, e o dia em que cheguei aqui pela primeira vez é para mim um segundo dia de nascimento”... “Procurei as Cartas de Winckelmann, escritas durante sua estada em Roma, e as li com uma profunda emoção. Foi na mesma estação, mas trinta e um anos antes, que ele chegou aqui, com maior inexperiência do que eu e inteiramente decidido a estudar com seriedade a antiguidade e as artes. Trabalhou corajosamente para alcançar o seu objetivo, e sua lembrança me é mais cara ainda desde que, eu também, vi Roma”.

O entusiasmo e a emoção transbordam em cada palavra, sente-se a realização de um ideal há muito concebido, como se a criação de Pigmalião, na própria imagem de Goethe, saltasse para ele e gritasse: Eis-me aqui!, fazendo-o compreender a grande diferença entre o mármore esculpido e o ser vivo.

Mas, apesar dessas exterioridades todas, nada aproximava mais Goethe da antiguidade do que o mesmo sentimento, idêntica compreensão do destino humano, à mercê da inexorável necessidade, da ananke a mais cruel e cega. O drama humano, antigo ou moderno, gira todo dentro deste conceito, assim poeticamente expresso por Goethe, como que dando a imagem da vida: um bater de asas, e atrás de nós a Eternidade – “Ein Flügelschlag – und hinter uns Aonen”.

A Cigarra. Rio de Janeiro, dezembro de 1956

Fonte: ABL


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