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Desejo de matar R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 16/08/2016

Desejo de matar
R. Santana

Ano 2016, mês de Maio, Sexta-feira 13, o “Hyundai HB 20” de Dimitri Petrovich Petrov, deslizava sem pressa na Avenida Santos Dumont na cidade “X”. Ele não tinha pressa, quase não respondia às perguntas do seu sobrinho emprestado Marcos.  Marcos cuidava dos interesses comerciais de sua tia Natasha e de Dimitri. Naquele dia, ele dirigia o automóvel, enquanto seu tio ia sorumbático no banco de detrás. Para animá-lo, Marcos enchia-lhe de perguntas:
            - Tio, as câmeras do hotel irão nos flagrar?
            - Tomei todas as precauções!
            - Como assim?...
            - Segredo!
            - Segredo!? Não estamos juntos!? Se o senhor não confia em mim, que Saulo Fontes fique impune, aliás, a justiça não lhe incriminou!
            - Sua família contratou bons advogados...
            - Então!?
        

   - Seus advogados construíram álibis, nós os descontruiremos. Quando ele estiver sob a mira da minha “Glock 18”, irá se borrar de medo e frouxar... – Dimitri além de médico, dono de clínica, tinha feito CPOR/NPOR, portanto, oficial do Exército da reserva não remunerada e praticava tiro esportivo.

            - Concordo. Tio, eu estou com o senhor pra o que der e vier, mas tem que haver cumplicidade, não pode haver segredo entre mim e o senhor!
            - Já leu a história da onça e do gato?
            - Não!
            - Não? A fábula encerra que o gato escondeu da onça o pulo que lhe salvou a vida!
            - Não vejo a relação!
            - O pulo do gato nos manterá vivo, rapaz!
            - O senhor está misterioso... – Dimitri contemporiza:
            - Eu lhe trouxe porque confio em sua lealdade, além disto, você e Leyna foram criados juntos, frequentaram a mesma escola... – acrescentou:
            - E, temos em comum a morte de Saulo, não é?
            - Sim!...
            Às 23,30 h, tio e sobrinho estacionam o carro no hotel “Hollywood”. O hotel estaria em silencio se um casal jovem não o adentrasse de modo espalhafatoso, simultaneamente. Dimitri foi recebido com deferência pelo recepcionista:
            - Doutor, o seu quarto é de número 308. Boa noite... – acrescentou:
            - Ah, gostei da fábula que me recomendou: “A onça e o gato”, a onça já está aí, qualquer dificuldade, lembre-se do “pulo do gato”...
            Dimitri preferiu subir pelas escadas, dispensou o elevador (justificou claustrofobia), enquanto Marcos usou o elevador até o 3º. Andar e o aguardou deitado na poltrona da sala. Dimitri demorou mais do que o previsto e deixou Marcos irritado:
            - Porra tio, quanto tempo!? – Dimitri não lhe respondeu, puxou-o pelo braço, abriu a porta do quarto e o empurrou pra dentro:
            - As câmaras foram desligadas antes de chegarmos, não existe nenhuma imagem registrada, daqui a pouco, este andar terá um blackout de 5 minutos, tempo suficiente pra entrarmos no quarto 309 de Saulo e matá-lo!
            - O tempo é suficiente?
            - Sim!  
            - E... depois de entrarmos?
            - A luz volta ao normal e teremos mais 1 hora pra fazer o serviço e sairmos sem ser vistos... – o corredor ficou escuro, Dimitri apressou o sobrinho:
            - Rápido!
            Não foi difícil o tio e o sobrinho entrarem no quarto 309, sem luz, usaram a tocha do celular de Marcos. Saulo dormia a sono solto, assustou-se quando o blackout terminou e Dimitri apontava-lhe uma arma:
            - Leyna chora vingança...vou lhe matar, canalha! – Saulo desmaiou.

***
           
25 anos antes:
           
Leyna gostava da mãe, no entanto, era mais apegada ao pai: um amor freudiano, uma admiração e confiança extremas. Natasha tinha ciúmes de sua filha caçula e compensava esse amor não correspondido com o amor dos filhos mais velhos: Yuri e Ivan. A afeição que faltava na filha sobrava nos filhos mais velhos. Os meninos eram carinhosos e prestimosos com a mãe, se lhe doesse a unha do dedo mindinho, eles ficavam solícitos e preocupados.
Leyna era o xodó de Dimitri, seu desejo era uma ordem. Seu pai, nos finais de semana, levava-a para todos os eventos infantis da cidade, casas plays, não perdia um aniversário. Nas reuniões dos pais e professores de sua escola, sua mãe quase não comparecia, mas chovesse ou fizesse sol, seu pai estava lá.
Quem censurasse o amor preferencial de Dimitri por Leyna em detrimento de Yuri e Ivan, ele apressava-se justificar: “ela é nossa caçulinha, os irmãos entendem isso, o amor é o mesmo, todos são meus benjamins”, e, era verdade, não havia preferência ostensiva, talvez, os cuidados fossem diferentes pela fragilidade do gênero feminino.
Quando Leyna completou 15 anos de idade, exigiu do pai um passeio no Disneylândia - Los Angeles - Califórnia, Estados Unidos -, o pai lhe sugeriu uma grande festa de debutante, mas ela não arredou o pé, nenhum argumento a demoveu da ideia:
- Paizinho, eu não quero festa!
- E, Yuri e Ivan?
- Virão com a gente...
- Eles estão estudando pra o ENEM!
- Então, eu, você e mãezinha, tá? – a solução foi embarcar para os Estados Unidos, um mês depois.
Leyna foi criada como princesa plebeia e os parentes seus súditos, quando atingiu a maioridade, os cuidados da família eram os mesmos de menos 18 anos de idade: afora a faculdade de medicina, todos os passos que dava, os irmãos, o pai e a mãe vinham atrás.
Começou namorar firme com Saulo Fontes quando os cuidados demais dos pais e irmãos, tornaram-se desnecessários e constrangedores... Porém, o costume do cachimbo põe a boca torta, de quando em vez, eles apareciam onde ela estava de surpresa.

Após 25 anos:

            - Filha, quem é esse rapaz?
            - Somos colegas do curso de residência médica!
            - Marcos me disse que é um “galinha”!...
            - Marcos é um despeitado, ainda não percebeu paizinho?
            - Ele lhe tem como irmã!
            - Seu ciúme me incomoda... dessa boa intenção o inferno está cheio!...

***

            - Acorda vagabundo! – Saulo acordou aturdido com as bofetadas de Marcos. Dimitri o admoesta:
            - Calma Marcos, não se humilha um homem que vai morrer!
            - Isso não é homem! É um verme, e verme se pisa, se destrói... – Saulo soergue-se (a pistola de Dimitri, continua lhe cutucando), e surpreende-os:
            - Eu não sou verme! Você que é mau-caráter, calhorda, dissimulado e baixo. Seu tio sabe que andava perturbando e chantageando Leyna? – Marcos deu-lhe outra bofetada, mas foi contido pelo tio:
            - Endoideceu Marcos!? Você não vê que ele está mentindo pra se safar!? Não acredito numa palavra deste criminoso de mulher! – Saulo o desafia:
            - Prove que fui eu que a matei? – Dimitri perde a calma:
            - Rapaz, não queira zombar de nossa inteligência, todas as evidências concorrem pra lhe culpar: foi a última pessoa que esteve com Leyna, seu RG foi encontrado em cima do corpo, suas digitais estavam presentes – baixou a cabeça envergonhado -, seu esperma também foi encontrado... além de assassino, cínico!?
            - Quem ama não mata! Eu amava sua filha... As provas que o senhor citou não provam nada, não se esqueça que estávamos num motel, a justiça não me incriminou... – Marcos intervém:
            - Aperte esse gatilho, tio! Vamos ficar aqui nesse lero-lero, quer que o mate? – puxou a pistola.
            - Calma Marcos, quer ser preso!? Guarde essa arma!
            - Deixe-me dar cabo desse miserável. A polícia não terá elementos para nos incriminar!
            - Calma Marcos, há um provérbio na terra dos meus pais que diz: ” "Quando o ódio e a vergonha se casam, a filha deles é a crueldade." Quero lhe torturar mentalmente até a morte... – Saulo o interrompe:
            - Quer me matar? Mate-me logo, não me torture! Mas, o senhor irá se arrepender pela morte de um inocente. A polícia já tem material do verdadeiro assassino, aliás – pega o celular na cama – tenho aqui algumas provas...  - liga o gravador do celular e a voz de Leyna enche o quarto:
            “Amor, Marcos vai me matar se não terminarmos o noivado...”
            “Amor tenha cuidado, novamente me ameaça, agora, usa você...”
            “Tenho medo que faça alguma maldade com paizinho, eles andam pra fazenda a sós..”
            Dimitri era todo ouvido, um sentimento de dúvida tomou-lhe a mente: “...será que irei matar um inocente?”, “...Judas Iscariotes, junto de mim!?”, sem frouxar a arma nas costas de Saulo, grita para Marcos:
            - Assassino!!! – Marcos com a arma em punho, quase chorando:
            - Eu a amava mais do que esse palerma... ela não me deu ouvido... naquela noite.. quando eles saíram do motel... antes dela entrar em casa, eu a chamei pra conversar... ela resistiu, tive que lhe pegar a pulso... – Dimitri empurrou Saulo e frente a frente com Marcos:
            - Vai morrer bandido!!! – Marcos puxa o gatilho primeiro, mas a arma... tac..tac...tac...tac... – Dimitri sem se mexer:
            - A pistola está descarregada... entende, agora, “o pulo do gato”!? Leve pra o inferno essa lição!!! – e, dispara no sobrinho uma saraivada de tiros fatais.



Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença? Creative Commons

1 Responses to Desejo de matar R. Santana

  1. GENIAL, PROFESSOR E ESCRITOR RILVAN BATISTA DE SANTANA.
    TEM TODO RECURSO E SABEDORIA PARA SER AUTOR DE NOVELAS...GLOBAIS.
    UM BANCO DE SABEDORIA.
    JOÃO DE PAULA.:

     

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