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SEM TÍTULO - Carlos Henrique dos Santos

Postado por Rilvan Batista de Santana 31/07/2016

SEM TÍTULO
Carlos Henrique dos Santos

o conto abaixo foi escrito há dois anos e eu não lembrava mais dele. não sei sei por achar fraco ou porque a escrita foi apenas uma tentativa de exercício que, no final, me pareceu repetitivo e sem muita força literária. na verdade é mais uma personagem perdido de si à procura de um sentido para a vida, como muitas pessoas não só hoje mas (acredito) ao longa da história.

Se viver o dobro do que já vivi chego aos 66, penso enquanto mijo e lembro do meu pai, que morreu com 59. Se isso acontecer terei vivido mais que meu pai. Seria estranho, no mínimo, viver mais que ele: ser mais velho, em algum momento, do que aquele que me criou, que me deu a vida, me parece algo inusitado e curioso e que nem sei ao certo se me interessa, já que viver ainda todos esses anos, muitas vezes, é algo que me parece extremamente cansativo, essa ideia de futuro feliz, como esses de propaganda de aposentadoria, em que o amanhã é sempre mais bonito que o hoje e o ontem. Pelo menos hoje, agora, após mijar em mais um banheiro sujo de boteco o meu hoje não me projeta nada muito agradável para mais 33 anos de existência.

O vento forte da rua me bagunça ainda mais os cabelos e atrapalha a acender o cigarro. Fumo tentando não pensar em nada mas o próprio ato de tentar não pensar já se caracteriza como um pensamento de negação. Fico puto comigo mesmo por essas bobeiras de ficar me indagando demais e criando complicações. Jogo o cigarro fora pela metade e entro no banco. Minha conta me assusta mas me assusta mais a falta de perspectiva de que ela melhore. Saco a primeira parte da segunda metade do crédito especial e sorrio pra câmera do caixa eletrônico antes de mostrar, ainda sorrindo, o dedo médio. Outro cigarro aceso, agora o fumarei inteiro, até porque não posso gastar demais, como me disse a tela do banco, e também porque não ligo para viver mais 33 anos, ou seja, o câncer de pulmão seria meu aliado numa luta com a vida, assim como é o xadrez um aliado do personagem de “O Sétimo Selo”, do Bergman mas para ele contra a morte.

Ainda no campo das citações cinematográficas lembro do conto de um amigo em que ele dialoga, na cena final do texto, com a cena, também final, de “O Terceiro Homem”, do Carol Reed, em que a bela personagem principal interpretada por Alida Valli caminha em nossa direção por entre árvores ressecadas, o que vem ressaltado pela belíssima fotografia em preto e branco do filme, ela vem de longe, do fundo do quadro, e o personagem de Joseph Cotten está parado à esquerda da tela, ele fuma, ela anda, nós olhamos e esperamos. Ela vem, ele espera, nós também. Ela vem, não para, passa direto, ele fica parado, meio que atônito. E assim permanece, como nós, que nada mais podemos fazer a não ser lembrar da cena e do filme, assim como fez meu amigo ao escrever seu conto, que fala sobre um casal que discute sua relação, ela pergunta se é amada e não obtém resposta. 

Os leitores somos levados pelos pensamentos do personagem narrador: o que dizer?, como responder a tal indagação?, como dizer que o amor é pouco perto do que ele sente por ela e que não se nomeia? Assim somos guiados durante a leitura por essas indagações desse personagem meio que perdido em si mesmo, (como eu agora?). A gente, pelo menos eu, fica se perguntando por que vive mas talvez a pergunta não seja essa mas sim por que morremos. Viver me parece até fácil – não quero dizer bom – mas morrer sim é o que deve ser difícil.

Viver dói, a gente sabe, a gente sente. Mas e morrer? Não sabemos, não temos como saber. Talvez morrer seja até mais fácil que viver. O que também não quer dizer que seja bom. Tá confuso, sei mas vivo num dilema entre viver e morrer e não sei ao certo qual ou o que achar melhor e muito menos o porquê disso. Tô cansado, a verdade é essa. Mas não sei cansado de quê. Apenas um peso recai sobre mim e me cansa, me pesa, me dói, me sufoca, me oprime, me machuca. Outro bar, outra cerveja, outro cigarro mas sempre o mesmo eu, o mesmo tempo arrastado, lento, pesado, doloroso.

Que merda! Levanto para mijar e esbarro numa mulher, ela me olha com cara de quem não gostou e eu apenas abaixo a cabeça – fazer o quê? – mijo, choro e volto ao meu lugar: a mesma cerveja, o mesmo cigarro, o mesmo bar, o mesmo eu. A mulher em quem esbarrei para ao meu lado e pede algo que não ouço. Ela me olha e sorri. Eu apenas pisco incomodado com um cisco no olho. Ela se vira e anda, dá apenas dois passos e volta: eu não te conheço?, me indaga. Meu cigarro cai no chão, me abaixo para pegar e sinto que to ficando bêbado. Digo não sei, de onde?, ela já está sentada a meu lado e diz também não sei, eu não digo nada, ela não diz nada e a gente bebe. Enquanto entro nela tento não pensar em nada. Quero apenas sentir meu pau duro entrar e sair mas não consigo: solidão, tristeza, contas a pagar, saudades, tudo vem junto e me incomoda. Tenho medo de broxar e meto com mais força, ela goza e eu sorrio, ela diz foi bom e eu não digo nada.

Acendemos um cigarro e sinto vontade de chorar. Tá tudo errado, eu penso enquanto fumo e a ouço falar da infância. Ela aperta um baseado e me oferece, recuso e vou ao banheiro. O espelho me oferece a mim mesmo e penso em recusar-me mas é impossível. Tudo que sou e faço está ali, no espelho me olhando. Me sinto tão só, tão vazio, alguma coisa me falta mas não sei o que é e não consigo entender o porquê desse vazio que está o tempo todo em mim, comigo. Desde criança que carrego essa falta comigo: o céu me parecia tão grande e distante, eu olhava pra cima e pensava: o que há lá? O que me mantém aqui? Por que tudo fica tão vazio? Eu queria, eu quero, eu.



Fonte:  http://obviousmag.org/longe_do_esteril_turbilhao_da_rua/2016/sem-titulo.html

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