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FLIP 2016: Quem foi Ana Cristina César?- Luísa Gadelha

Postado por Rilvan Batista de Santana 03/07/2016


A 14ª edição da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, que ocorrerá de 29 de junho a 03 de julho, homenageia em 2016 a poeta Ana Cristina César (1952-1983). Antes dela, apenas uma mulher havia sido homenageada no evento, a escritora Clarice Lispector, em 2005.

Ana Cristina Cesar, ou simplesmente Ana C., viveu pouco, apenas 31 anos, mas tem uma obra relativamente vasta, que a Companhia das Letras relança agora, sob o nome de Poética, incluindo os seus livros Cenas de abril, Correspondência completa, Luvas de pelica, A teus pés, Inéditos e dispersos, Antigos e soltos: livros fora de catálogo há décadas, além de poemas inéditos.

Ana C. começou a vida literária antes mesmo de aprender a escrever: aos 6 anos, ditou um poema para que uma professora da escola escrevesse. A partir de então, escrevia e desenhava a capa de seus próprios livros. No final da adolescência, fez um intercâmbio na Inglaterra, o que contribuiu para que se tornasse, também, tradutora de escritoras como Emily Dickinson e Sylvia Plath.

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Ana C. foi expoente da Poesia Marginal da década de 1970, movimento que uniu artistas independentes em torno do que ficou conhecido como Geração Mimeógrafo, cuja produção cultural se dava por meios alternativos de circulação, devido à censura durante a ditadura militar. Os poetas marginais, cujos mais conhecidos são Paulo Leminski e Torquato Neto, não pertencem a nenhuma escola ou tradição literária. Seus poemas têm traços coloquiais e do cotidiano, gírias, erotismo e pequenos textos. A obra de Ana C. é permeada de textos autobiográficos e ficcionais, cartas e diários.

Durante a FLIP, será lançada Inconfissões, fotobiografia de Ana C. organizada pelo poeta Eucanaã Ferraz, com ordem cronológica invertida: o livro começa com as últimas fotos da poeta, voltando no tempo até a sua infância. “Ninguém morre no fim”, afirmou o organizador.

Ana Cristina Cesar se jogou do apartamento de seus pais em 1983, deixando uma horda de leitoras “viúvas”, como declarou a poeta Angélica Freitas em poema inédito.

Abaixo, alguns poemas e textos de Ana C.

Noite de Natal.

Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera


 Cabeceira

Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
“da sombra daquele beijo
que farei?”
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão



Cartilha da cura

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.


Final de uma ode

Acontece assim: tiro as pernas do balcão de onde via um sol de inverno se pondo no Tejo e saio de fininho dolorosamente dobradas as costas e segurando o queixo e a boca com uma das mãos. Sacudo a cabeça e o tronco incontrolavelmente, mas de maneira curta, curta, entendem? Eu estava dando gargalhadinhas e agora estou sofrendo nosso próximo falecimento, minhas gargalhadinhas evoluíram para um sofrimento meio nojento, meio ocasional, sinto uma dó extrema do rato que se fere no porão, ai que outra dor súbita, ai que estranheza e que lusitano torpor me atira de braços abertos sobre as ripas do cais ou do palco ou do quartinho. Quisera dividir o corpo em heterônimos – medito aqui no chão, imóvel tóxico do tempo.

Acordei com coceira no hímen. No bidê com espelhinho examinei o local. Não surpreendi indícios de moléstia. Meus olhos leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem significado a mais. Passei pomada branca até que a pele (rugosa e murcha) ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente meus projetos de ir de bicicleta à ponta do Arpoador. O selim poderia reavivar a irritação. Em vez decidi me dedicar à leitura.

Luísa Gadelha
Sobre o Autor

Luísa é graduada e mestra em Letras, graduanda em Filosofia, ama literatura desde sempre e quadrinhos há alguns anos, tem preferência por romances (longos), sejam clássicos ou contemporâneos e se esforça - ou nem tanto - para ler mais poesia. Isso quando não está vendo séries.

Fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/quem-foi-ana-cristina-cesar-poeta-homenageada-da-flip-2016-por-luisa-gadelha/


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