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Vestígios da Idade da Pedra - Rosiska Darcy de Oliveira

Postado por Rilvan Batista de Santana 24/06/2016

Vestígios da Idade da Pedra

Eu era menina quando, discutindo com um grupo de garotos que punham em dúvida uma história que eu contara, usei o argumento que encerrava as discussões entre eles: dei minha palavra de honra. Fui recebida com uma gargalhada sonora, e um deles, mais agressivo, provocou: “E mulher lá tem honra?” Fiquei sabendo que na cabeça dos meninos e, mais tarde dos homens, a honra é um privilégio masculino.

Às mulheres só se atribuía honra em relação com a virgindade quando se dizia de uma delas que tinha sido desonrada. A honra das mulheres se perdia com o hímen. Anos mais tarde, vi uma mulher ser assassinada e o assassino absolvido em nome da legítima defesa da honra. Explicitava-se assim o direito de matar a mulher que preferira um homem a outro.

Às mulheres cabia respeitar o seu lugar de objetos pertencentes a um senhor. Objetos são coisas, não têm honra a defender, tampouco vontade própria. O fundamento da violência endêmica contra as mulheres, qualquer que seja sua manifestação, assédio, espancamento, estupro ou assassinato, é o não reconhecimento de sua dignidade humana.

Em todos os países sobrevive, em maior ou menor grau, um sentimento ancestral, animalesco, que nega às mulheres o direito à integridade do seu corpo e à liberdade de sua sexualidade. Nas últimas décadas do século passado, nas asas do feminismo, as mulheres afirmavam que “nosso corpo nos pertence” como reivindicação primordial, fundadora da dignidade de cada uma.

Meio século depois, constatam que não só esse direito não está assegurado, mas, ao contrário, aumenta a violência, o risco que correm em casa e nas ruas. Quem as vê nas fábricas, escritórios, universidades, laboratórios de pesquisa, tribunais, custa a acreditar que persista o direito não dito à violência contra elas.

Nossas espantosas estatísticas de estupro e assassinato falam por si. Perguntem, leitores, a qualquer mulher, se alguma vez na vida temeu ou conheceu uma forma de violência sexual. Machismo é uma palavra insuficiente para descrever a gravidade da ameaça que pesa sobre metade da Humanidade.

A violência contra as mulheres é um crime contra a Humanidade a ser reconhecido por cada país e pela comunidade internacional com a mesma indignação que exige a erradicação da tortura. Leis e repressão não acabarão com o ódio contra as mulheres, mas hão de puni-lo e coibi-lo, encarcerando os criminosos dessa guerra suja e sem adversário — as mulheres não estão em guerra contra ninguém — que autoriza a estuprar e matar.

Violentadas, mortas, suas vítimas continuam a ser culpadas. No Brasil, que assistiu horrorizado ao estupro de uma jovem “compartilhado” nas redes sociais, se culpa a cultura machista, que explicaria desde os desrespeitos cotidianos, dentro e fora de casa, até os crimes mais abjetos como o estupro.

Essa leitura, verdadeira, submete à lentidão das mudanças culturais o fim dessas abjeções. Eu era menina, e o estupro coletivo já existia, chamava-se curra. É mais do que tempo de sociedade, polícia e Justiça implantarem tolerância zero face à violência sexual. Quem teria, então, medo de sair à rua não seriam as mulheres, e sim os agressores.

Estancar a violência contra as mulheres é, em qualquer país, e nós somos responsáveis pelo nosso, essencial à democracia. Urgente porque o que está em curso é uma contrarrevolução. É a vingança da barbárie contra a revolução que, no século XX, quebrou o paradigma milenar que sujeitava as mulheres aos homens e deu, assim, um passo adiante no processo civilizatório.

Aumenta a violência porque a crescente liberdade e autonomia das mulheres atinge em cheio o direito de propriedade sobre a sexualidade feminina que era e continua a ser a lei escrita em certos países, não escrita em outros, vigente em todos os continentes como a regra mesma do mundo.

Essa regra, desafiada, deixou de ser senso comum, revelou-se como o que é, um crime. Refugiados sírios fizeram, na noite de 31 de dezembro, em Colônia, na Alemanha, um ataque sexual contra alemãs que celebravam o Ano Novo. Os despossuídos de tudo traziam bem guardado o sentimento de poder sobre as mulheres do país que os acolheu.

Donald Trump opta por achincalhar as mulheres, estimula o conflito de gênero como pilar de sua campanha contra Hillary Clinton. Acredita — e tomara que não tenha razão — que o homem médio americano se identifica com a visão debochada que ele tem do sexo feminino. Pensar que a Presidência dos Estados Unidos possa se definir por reflexos herdados da Idade da Pedra não é só ultrajante. É assustador.

O Globo, 18/06/2016

http://www.academia.org.br/artigos/vestigios-da-idade-da-pedra

Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL, eleita em 11 de abril de 2013, Rosiska Darcy de Oliveira é escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo.

Fonte: Itabuna Centenária (RSIC)

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