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CACAU E MEIO AMBIENTE: HÁ COMPATIBILIDADE POSSÍVEL? - *Cláudio Zumaeta

Postado por Rilvan Batista de Santana 26/06/2016

CACAU E MEIO AMBIENTE: HÁ COMPATIBILIDADE POSSÍVEL?

O cacau é preservacionista. Eis uma questão que os produtores defendem com intensidade. E mais: o que resta da Mata Atlântica foi preservado graças à cultura do cacau, afirmam os cacauicultores. Será? É isso mesmo?
Alguns produtores apontam que a preservação das matas sempre foi aliada do cacau, uma vez que a planta é, por natureza, umbrófila (adaptada aos lugares sombreados). A umidade, portanto, nunca foi um problema grave para a lavoura. Outros produtores, no entanto, argumentam que a excessiva umidade, resultou no avanço, por exemplo, da podridão parda e mesmo da vassoura-de-bruxa. Porém, a questão em foco aqui é: os impactos ambientais para o combate às doenças/pragas do cacau foram/são considerados? Veremos isso mais adiante.

Segundo um dileto amigo cacauicultor, “a Ciência, deitada em berço esplêndido” não acordou a tempo de se preparar para outras enfermidades fúngicas (a vassoura-de-bruxa, por exemplo), assim aquela praga avançou sobre os cacauais, aproveitando-se do fato de que a Ciência estava a quilômetros de distância dela para se instalar, de maneira catastrófica, sobre toda a região cacaueira. Para piorar a situação, a umidade, antes aliada, passou a ser considerada “inimiga” da lavoura.

O que fez meu prezado amigo ponderar o seguinte: “A umidade está expulsando o cacau da mata? Alguns argumentam que a periferia da região cacaueira, mais ao norte, e ao sul em zonas que não eram tradicionais, todas elas sem a cobertura da mata, irrigadas, e muitas vezes a pleno sol, são pouco sombreadas e têm recebido a cultura do cacau com sucesso. O modelo de exploração embaixo da mata, portanto, estaria se esgotando?”. Mais enfático ainda, meu amigo, me disse: “A cabruca precisa ser reconhecida como um sistema de produção (é tida como mata) para poder ter a sombra manejada e ter algum resultado econômico e assim continuar preservando o que sobrou. Esse discurso de cabruca é muito bonito, sustentável, correto, mas, sem um mínimo de pragmatismo, e enquanto não se ajustarem esses fatores, a situação ficará cada vez mais complicada”. Eis, portanto, a questão central deste arrazoado: é possível um manejo sustentável que proteja a mata e ao mesmo tempo resulte em ganhos econômicos para os cacauicultores?

Recentemente li um artigo, “Desenvolvimento, democracia e meio ambiente: degradação e fábula ambiental no sul da Bahia” de Paulo Rodrigues dos Santos, professor da UESC no Departamento de Ciências Agrárias e Ambientais, que discute o fator ambiental e a cacauicultura. Foi então que selecionei alguns trechos daquele precioso artigo para nossa discussão. E assim, segundo Paulo Rodrigues dos Santos: (...) “registra-se localmente a construção de uma fábula ambientalista em que a lavoura cacaueira emerge como atividade de proteção à Mata Atlântica, fato que desconsidera ou mascara que a constituição das roças de cacau exigiu um tipo de “manejo” da floresta que não pode ser assimilado com preservação, pois implicou derrubar a mata para plantar o cacau e manteve algumas árvores para atender à necessidade de sombreamento demandado por essa lavoura”. Em outro trecho, Paulo Rodrigues, salientou: “A comparação entre a mata nativa e a cabruca apontam diferenças nas seguintes proporções: 2.450 indivíduos e 450 espécies arbóreas por hectare na mata nativa e 138 indivíduos e 41 espécies arbóreas (apenas 24 destas nativas das florestas originais) por 2,6 hectares” E mais, segundo o mesmo autor: “Por deixar trechos entrecortados da floresta em pé, criou-se a versão preservacionista a partir de um “tudo poderia ter sido muito pior”, sem exames do manejo cacauicultor sobre a floresta, sem avaliações da atuação ambiental da Ceplac e, principalmente, sem exercer alguma ação regulatória sobre os trabalhos desta agência”.

Ainda para Paulo Rodrigues, citando outros dois autores, May e Rocha (“O sistema agrossilvicultural do cacau-cabruca”), a Ceplac teve uma enorme responsabilidade no desequilíbrio ambiental: “No caso do cacau, a Ceplac, criada em 1957, tomou como missão fundamental a substituição dos cacauais antigos, de baixa produtividade por área, com um sistema intensivo, cujo pacote tecnológico foi vinculado à disponibilidade de créditos, levando a substituição da mata nativa por combinações de cacau com árvores leguminosas. Neste sistema, que chegou a ser denominado “derruba total”, o agricultor derrubava toda a mata, destocava e plantava cacau em filas uniformes, garantindo com isso maior densidade de plantio. O pacote tecnológico associado ao sistema de “derruba total” incluía ainda um uso elevado e regular de fertilizantes e agrotóxicos, superior às práticas tradicionais”.

Meu caro amigo essa discussão precisa voltar a ser amplamente debatida. É certo que o cacau é um produto extraordinário em quase todos os seus aspectos, mas, será que de fato demos a devida importância aos efeitos ambientais causados pela implantação da lavoura cacaueira, ou apenas seguimos o “desenvolvimento a qualquer custo”? Será que há tempo para compatibilizarmos a retomada do crescimento da cacauicultura, concomitante, ao equilíbrio ecológico? Conforme você mesmo disse, amigo, “comer um chocolate proveniente da cabruca, deixa em êxtase americanos e europeus” (acima de tudo porque eles estão preocupados com a origem ecologicamente correta do que comem). Se oferecermos um produto de origem certificada e garantida, como equivalência alcançaremos uma melhor diferenciação de preço. E mais: preservaremos aquele que atualmente é o nosso maior patrimônio – a Mata Atlântica.

Não podemos esperar pelos governos (estadual e federal). Temos que reacender esse debate imediatamente. Temos que nos inserir ao novo modelo (já nem tão novo assim) econômico do mundo: o fator ambiental como parte indissociável para o desenvolvimento sustentável. Espero que outros colaboradores possam trazer novas contribuições e esclarecimentos ao debate...



*Cláudio Zumaeta - Historiador graduado pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC, Ilhéus –BA) Administrador de Empresas graduado pela Universidade Católica de Salvador (UCSAL, Salvador – BA). Especialista em História do Brasil (UESC, Ilhéus – BA). Membro da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL).      

2 comentários

  1. Anônimo Says:
  2. Gostei do artigo que trata da relação do cacau e do meio ambiente. Parabéns prof. Cláudio Zumaeta.

     
  3. Anônimo Says:
  4. Zumaeta entende de cacau senhores fazendeiros...

     

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