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Rua Prado Júnior, 16 - Ferreira Gullar

Postado por Rilvan Batista de Santana 18/05/2016

Rua Prado Júnior, 16
Ferreira Gullar


Moro em Copacabana, na rua Duvivier. Para quem vem de Botafogo pelo Túnel Novo, duas ruas antes é a Prado Júnior. Embora eu more ali perto, raramente caminho até lá, como fazia antigamente.

Melhor dizendo, muito antigamente, já que se passaram mais de 60 anos do tempo em que com frequência andava por ali. Vinha do Catete, onde morava numa vaga da pensão de Dona Hortência, na rua Buarque de Macedo.

Ainda não havia o Aterro do Flamengo, embora já houvesse o Túnel Novo. Saindo do túnel, os ônibus tomavam, em seguida, a rua Barata Ribeiro, entrada de Copacabana, onde eu descia e seguia pela Prado Júnior. E sabem por quê? Porque nela morava, num prédio de esquina com a avenida Atlântica, minha amiga Lygia Clark.

Isso foi no começo da década de 1950, quando se iniciou no Brasil o movimento da arte concreta. O foco, porém, daquela nova tendência estética era o apartamento de Mário Pedrosa, que ficava na rua Visconde Pirajá, em Ipanema. Lá conheci Lygia Clark, Franz Weissmann, Amilcar de Castro, Aluísio Carvão, Lygia Pape e Hélio Oiticica, então um garoto, que iniciaram o movimento concretista.

Mas era no apartamento de Lygia Clark –onde ela morava com seus três filhos– que também nos reuníamos para ver seus trabalhos e trocarmos ideias.

Foi lá que, de certo modo, nasceu a arte neoconcreta, em começos de 1959. De fato, o movimento concretista, além do grupo do Rio, tinha também seus adeptos paulistas, liderados por Waldemar Cordeiro. A esse grupo de pintores se juntariam os três poetas paulistas que comigo, no Rio, inventaram a poesia concreta.

Sucede que, no grupo paulista, tanto Cordeiro quanto os poetas eram mais teóricos que os concretistas cariocas, voltados prioritariamente para a intuição e a inventividade.

Essa diferença provocou a ruptura entre os dois grupos, especialmente entre os poetas. Tal divergência já era sintoma da evolução particular do grupo carioca, que se tornava cada vez mais distante da herança europeia, maxbiliana.

Foi então que, certa noite, durante um jantar em seu apartamento, Lygia sugeriu que o grupo do Rio fizesse uma exposição de seus últimos trabalhos, reunindo tanto os artistas plásticos como os poetas. E eu escreveria a apresentação da mostra.

A ideia foi aceita, e então tive que ver as obras de cada um para escrever o texto de apresentação.

Depois de vê-las, pedi uma nova reunião do grupo e, lá, no apartamento da Lygia, afirmei que, na verdade, o que estávamos fazendo já não era a arte concreta, era outra coisa. Por isso, propus que, em vez de escrever uma apresentação, escreveria um manifesto, definindo o que inventávamos como arte neoconcreta.

O grupo concordou, e assim teve início o movimento, cujo lançamento se deu em março de 1959, no Museu de Arte Moderna do Rio, com a exposição de nossos trabalhos e o manifesto que então redigi. Mário Pedrosa, que estava de viagem ao Japão, quando voltou, deparou-se com essa novidade: a arte concreta, que ele introduzira no Brasil, virara outra coisa.

Nessa época, Lygia passou a namorar Jean Boghici, que se tornaria mais tarde marchand de tableaux. Com maior constância, passei a frequentar a casa de Lygia que, além do mais, era uma pessoa afetuosa e engraçada.

Lembro-me de um dia em que um de seus filhos, ouvindo nossa conversa, perguntou: "Mamãe, o que é 'psicanagem'?". E ela respondeu: "Meu filho, é a mesma coisa que sacanagem". Sim, mas ela própria se tratava com um psicanalista.

Pois bem, se escrevo agora essas coisas é porque nesta semana saí caminhando pela avenida Atlântica e, quando dei por mim, estava na esquina da rua Prado Júnior, em frente ao edifício número 16, em que Lygia morara. Ergui a vista e me fixei no oitavo andar, onde ficava o apartamento dela.

Uma estranha sensação tomou conta de mim ao pensar que agora, naquele apartamento, moram outras pessoas, que possivelmente nada sabem dessas coisas de que falo aqui.

Nem Lygia, nem Mário, nem Weissmann, nem Amilcar, nem Oiticica existem mais. E, naquelas salas e quartos, onde outrora conversávamos e ríamos, não resta qualquer traço de nós nem daquele tempo.



Fonte:

Folha de São Paulo, 15/05/2016 e ABL

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