Saber-Literário

Diário Literário Online

O falso governo do interino Temer - Roberto Amaral

Postado por Rilvan Batista de Santana 19/05/2016

O falso governo do interino Temer

Sem legitimidade, sem voto e sem popularidade, o vice enfrentará, logo, o descontentamento profundo

por Roberto Amaral — publicado em Carta Capital

O golpe de Estado, que se consolida a cada dia, realiza-se mediante a usurpação do mandato de uma presidente legitimamente eleita, que ninguém crê haver praticado crime.

Aparentemente fechando um ciclo, o do desenvolvimentismo nacional-popular, esse golpe parlamentar-midiático-judicial operado no Congresso Nacional abre espaço para uma nova fase de conservadorismo, anti-popular, anti-trabalhista, mediante a instalação de um governo conservador, comprometido com o que há de mais atrasado na política brasileira.

Uma vez mais, e talvez ainda não pela última vez, a direita interrompe, a frio, uma experiência tímida de integrar socialmente os pobres por meio de um projeto de conciliação de classe, ilusão que dominou o segundo e bom governo Vargas e presidiu o lulismo (um conjunto voluntarioso de ações ainda carente de teorização); ilusão que esbarrou na renitente resistência oligárquica a qualquer proposta de mudança, reacionarismo que aflora com maior virulência nos períodos de crise econômica.

O alienado apelo à conciliação – no caso dos governos do lulismo, uma reiteração dos erros que levaram à composição com os militares no ocaso da ditadura – serviu apenas para deixar mais confuso e errático o projeto de origem na centro-esquerda.

De um lado o programa do PT, de outro a ‘Carta aos Brasileiros’. De um lado Henrique Meirelles e Antonio Palocci, de outro a tentativa de promover a emergência das massas mediante o combate às desigualdades sociais. Ou, Joaquim Levy recessivista comandando a economia de um governo ideologicamente comprometido com a inclusão e o desenvolvimentismo. Daí sua errância pendular.

O que será esse novo ciclo, qual será sua duração, é impossível desde já prever. É justo supor, porém, que a crise brasileira – das esquerdas e dos governos de centro-esquerda – não é um fato isolado, pois dialoga com o avanço da direita em todo o mundo, e mais particularmente na América do Sul: Argentina, Peru (a presidência está sendo disputada por dois candidatos conservadores) e Venezuela (em crise sob todos os aspectos).

No que nos diz respeito não devem passar sem consideração nosso papel político regional e nossa presença no cenário internacional como a 7ª economia no mundo.

A existência de uma articulação político-militar norte-americana, envolvendo recursos políticos, materiais e logísticos nas conspirações contra os governos Vargas (1954) e Jango (1964), está hoje fora de questionamento.

Não afirmo que a História se repete, mas é preciso registrar as dificuldades dos EUA de conviverem com uma política externa brasileira “ativa e altiva”, para usarmos uma feliz expressão de Celso Amorim.

Essas dificuldades ocorrem desde Jânio Quadros (1961), à exceção de Castelo Branco (1964-1967) no mandarinato militar, de Fernando Collor (1989-1992) e de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

A política externa conheceu seguidos momentos de atrito com a política do Departamento de Estado, seja no palco multilateral, seja no âmbito regional. O primeiro deles foi o esvaziamento, pelo Brasil, do projeto da Alca, contraposto pelo fortalecimento do Mercosul; pela criação da Unasul; do Conselho de Defesa da América do Sul; da Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe-Celca (primeira tentativa de articular apenas nações dessas regiões); e pela recusa em transformar nossas Forças Armadas em milícia contra o narcotráfico.

Especial destaque cobra a constituição dos BRICS, a abertura para o comércio com o hemisfério Sul e de particular com a África, e a aliança comercial com a China, que se transformou em nosso principal parceiro econômico.

Em síntese, ao restabelecer a política externa independente, fazendo cessar a dependência levada ao extremo nos governos Collor e FHC, a chamada “era Lula” adotou um protagonismo jamais bem assimilado.

No plano estratégico-militar, na sequência da Estratégia Nacional de Defesa, optou pela parceria com os suecos – que ainda estão fora da OTAN – para a fabricação de nossos caças supersônicos e associou-se aos franceses para a renovação de nossa frota de submarinos convencionais e para a construção de nossos futuros submarinos de propulsão nuclear.

Como as reações a essa política contribuíram para desestabilizar o governo Dilma Rousseff é tema por estudar, certamente apenas quando, como ocorreu relativamente aos eventos que conduziram ao golpe de 1964 e sustentaram a ditadura, os arquivos dos EUA forem abertos ao público.

Não deve ser irrelevante o fato de em todos os países tomados pela direita, um dos primeiros enunciados seja o abandono de políticas externas independentes, com a consequente e imediata restauração da dependência aos interesses da geopolítica dos EUA.

Entre nós não está sendo diferente. Esse servilismo anti-nacional já foi anunciado e para executá-lo, jogando ao lixo todo e qualquer resquício de política externa digna, ou simplesmente ‘altiva’, ninguém melhor do que o senador José Serra (PSDB), saudosista da política de adesão automática aos EUA, adversário de nossa ação continental, adversário de nosso protagonismo, adversário do Mercosul, expectante de alguma coisa que lembre a Alca.

José Serra: o servilismo está de volta. Ninguém melhor do que ele para negociar a internacionalização, a preço de banana – aproveitando-se contra nós da queda do preço do barril do petróleo – de nossas reservas do pré-sal.

O governo provisório do vice interino é a decorrência lógica das alianças políticas, institucionais e econômicas que garantiram o golpe. Nacionais e internacionais, logísticas e financeiras, políticas e judiciais, envolvendo um STF partidarizado, que oscila entre a judicialização da política e a politização da Justiça, essas alianças são, sobretudo, de interesses. E cobram seu preço.

Tanto o Congresso (afinal a deposição de Dilma Rousseff resultou de um golpe parlamentar) quanto o STF sabem quanto foram decisivos e estão cobrando o preço devido. O Congresso reivindica ministérios e o STF negocia aumento de salários e protagonismo, digno de um Poder Moderador, arcaísmo monárquico se infiltrando em nossa República, sereníssima.

Daí o aspecto frankensteiniano do novo ministério liliputiano, só de homens, só brancos, só ricos: contempla os interesses das bancadas da bala, do boi, dos bancos e da bíblia, o que há de mais primitivo e conservador nas seitas evangélicas fundamentalistas, um aglomerado de interesses unificados pela decisão de chegar ao poder a qualquer preço, para nele locupletar-se; ecoa os interesses dos representantes da velha politica, os filhos e os netos da velha oligarquia patriarcal e patrimonialista, em plena sintonia com o atraso, e sempre serviçais do grande capital, da grande propriedade, latifundiários, grileiros e desmatadores, no geral velhos beneficiários da privatização do Estado.

À baixa credibilidade do vice presidente interino, cujo sucesso revela as possibilidades da mediocridade na política, soma-se a péssima qualidade do ministério com o qual afronta as esperanças nacionais.

Com jeito e pretensões de quem veio para ficar, Michel Temer já disse o que pretende: seu projeto, seu ânimo, sua vontade, seu prazer é servir sem constrangimento ao retrocesso político-social. A apenas isso se reduz seu programa, seu projeto, seu discurso.

Será, enquanto durar (praza aos céus que seja breve), um governo binário, do não aos interesses nacionais e populares, do sim aos interesses do capital rentista e da burguesia subsidiada da Avenida Paulista.

Governará para a dívida e não para a produção; levará a ferro e fogo o ajuste fiscal anti-povo que sua base de hoje negou à presidente Dilma Rousseff, e criará novos impostos; para financiar os lucros do capital, já anunciou, reduzirá os gastos com saúde, educação e inclusão social, a saber, aquelas despesas que mais de perto dizem respeito às camadas mais pobres da população.

Governará contra os pobres e uma de suas primeiras medidas será a alteração da lei da previdência, aumentando a idade mínima para a aposentadoria, o que só prejudica os pobres, pois só pobres dependem da previdência e só os pobres ingressam cedo no mercado de trabalho.

Sem legitimidade, filho e fruto da traição e da truculência institucional, sem voto e sem popularidade, o vice governante, pretendendo perpetuar-se no poder, enfrentará, logo, o descontentamento profundo, e mais cedo do que se poderia esperar será o alvo da reação popular, aquela mesma que ajudou a mobilizar contra a presidente Dilma.

O governo Temer, marcado pela usurpação e pelo perjúrio, é um governo despudoradamente na contramão da opinião pública e do pronunciamento eleitoral de 2014. Nesse sentido é uma fraude.

Ilegítimo de origem, nasce sob a contestação popular. Filho de um golpe parlamentar, dirigido de fora pela mídia monopolizada, seu ministério é o pagamento de uma promissória: afinal, o golpe foi perpetrado a partir da Câmara dos Deputados, um meio pantanoso que reflete a miséria moral de seu comandante (que mesmo afastado ainda a comanda!), o inefável Eduardo Cunha.

Temer paga os votos do impeachment e, ao mesmo tempo, buscando uma larga maioria, tenta se vacinar contra os riscos de um governo sem base parlamentar, como o de Dilma Rousseff, sem base parlamentar confiável exatamente porque se entregou ao PMDB, essa empresa de interesses dirigida pelo hoje presidente interino. Fruto da crise que cevou, o governo provisório que busca a permanência será o governo da crise permanente.

Trata-se de um governo exumado do passado.

Leia mais em www.ramaral.org

Fonte: Carta Capital e Yahoo Notícias

0 comentários

Postar um comentário

Recomende este blog!!!

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

Patrono

Patrono
Machado de Assis

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.
Tecnologia do Blogger.