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Cardozo, o enxugador de gelo - Antônio Carlos Prado

Postado por Rilvan Batista de Santana 14/05/2016

Cardozo, o enxugador de gelo

Mestre em flauta doce, doutor em Chopin e livre-docente em Direito, José Eduardo Martins Cardozo é um dos advogados mais cultos e tecnicamente preparados do País – a comunidade acadêmica é unânime no reconhecimento de sua estatura intelectual e jurídica. Cardozo bem que podia, então, desincorporar o mito de Sísifo e dizer à sua cliente terminal que a causa está irremediavelmente perdida — a defesa do indefensável tem limites impostos pelo próprio Estado de Direito e qualquer rábula sabe isso. Ele se pouparia, assim, de ouvir frases paternalistas e humilhantes como a que chegou-lhe aos ouvidos, saída da boca de Lula, quando a Câmara aprovou a admissibilidade do processo de impeachment de Dilma. Diante de um José Eduardo Cardozo indignado com o resultado da votação, Lula disse: “agora ele está no lugar certo”. Qual era esse lugar, ocupado até o final da votação que tocou o processo para frente, agora no Senado? Era a Advocacia-Geral da União, por meio da qual Cardozo insistiu tanto em litigar por Dilma.

Cardozo demora a perceber que não precisa de Lula para dizer-lhe qual é o seu lugar. Segundo o ex-presidente, errado era o advogado e músico capitanear o Ministério da Justiça porque ele se recusava a interferir no trabalho da Polícia Federal, exigindo que petistas fossem poupados pela Operação Lava Jato. Cardozo saiu atirando, deixou a Pasta da Justiça afirmando que jamais agiria de forma não republicana, jamais feriria o Estado de Direito. Essa é a sua estatura. Cardozo foi então para casa e voltou ao seu prestigiado escritório em São Paulo? Não. Aceitou a Advocacia-Geral da União, e aí não dá mais para entender. O advogado desafinou: como ele pode defender uma presidente e um governo que queriam que ele interferisse na PF, ferindo frontalmente seus princípios? Não basta, para engrandecer a sua biografia, não ter feito isso. Era preciso a coragem de ter rompido com pessoas, governo e partido que o queriam autoritário e não republicano.

Deu no que deu. O mestre, doutor e livre-docente terá para todo o sempre o seu nome confundido com o nome de Waldir Maranhão, caricatura de presidente da Câmara dos Deputados, que promoveu uma das maiores e mais ridículas trapalhadas da história da política brasileira ao firmar um ato que pretendia anular a votação da Câmara sobre o andamento do processo do impeachment de Dilma. E, dizem, que Maranhão seguiu um roteiro que Cardozo ajudou a montar. Cardozo deixa o figurino de enxugador de gelo, ele não lhe cai bem.


Antonio Carlos Prado é editor executivo da revista ISTOÉ




Fonte: IstoÉ

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