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A lenda de José Nick - Miro Marques

Postado por Rilvan Batista de Santana 23/05/2016

A lenda de José Nick - Miro Marques

Na cidade de Itabuna dos tempos idos, viveu um senhor por nome José Nick, um jovem de cor negra, descendente de tradicional família de pioneiros e desbravadores de Ilhéus. Mas muito se comentava entre os fofoqueiros da cidade que ele era mesmo oriundo de Nazaré das Farinhas e tinha o corpo fechado e muito bem preparado pelas famosas “titias”, autoridades superiores das seitas umbandistas do Recôncavo Baiano. Falava que desde mocinho José Nick, quando bebia umas pitiangas, envolvia-se em brigas com a polícia por praticar depredações em vendas, bares, bodegas, quiosques e casas de prostíbulos do baixo meretrício onde, quase sempre, estava enfiado até o pescoço.

Em 1910, após praticar uma desordem no brega do Cajueiro, Zé Nick foi perseguido por cinco policiais que tinham sido avisados da baderna que ele estava praticando naquele lugar e quando o chefe da equipe da PM lhe deu voz de prisão, o jovem crioulo se deitou e se arrastou pelo chão e em fração de segundos passou a rasteira em toda a milícia, deixando todos machucados e feridos, enquanto ele, Zé Nick, saiu ileso. Depois desta briga, por determinação do comandante da PM, José Nick passou a ser procurado vivo ou morto, sendo obrigado a se retirar da região sul. Nas caladas da noite Zé Nick tomou um transporte fora da zona urbana e caiu fora. Foi visto passando em cima da carroceria de um caminhão lá no antigo povoado da Coréia. Desta vez ele foi morar no Rio de Janeiro onde serviu o Exército, se graduou sargento e participou das Lutas do Contestado, distinguindo-se por “atos de bravura”, o que lhe valeu a graduação de terceiro sargento do Exército Brasileiro.

Em 1919, o sargento José Nick retorna a Ilhéus e se faz fazendeiro por intermédio de uma merecida herança deixada pelos seus pais. Uma vez proprietário de terras, de roças de cacau e portador do distintivo de sargento na farda verde oliva do Exército do Brasil, José Nick vai se fazer mesmo de rogado para aterrorizar o Sul da Bahia. Praticando desordens, arruaças, espancando os mais fracos por motivos fúteis e ainda desrespeitando as autoridades que pretendesse repreendê-lo, na região de Rio do Braço, constituindo-se ai um verdadeiro terror para todos os moradores daquela região. Criou fama de valente e em todas brigas que tinha com a polícia feria sempre, sem entretanto, nunca ter sido ferido. Daí dizerem por todos os cantos da cidade que ele tinha mesmo o corpo fechado contra bala.

Em 1921, o delegado de polícia local, Dr. Armando Freire, teve a petulância de enfrentá-lo, cara a cara, dando-lhe voz de prisão. E sabe se lá porque, Zé Nick obedeceu sem a menor resistência. Todavia, sua permanência na cadeia foi muito curta. Com auxílio dos policiais que faziam a vigília especial à sua cela, que se borravam de medo do negrão, Nick conseguiu escapar para sempre. Entretanto, os seus guardiões argüiram, como justificativa, que José Nick envultou e passou por eles por meio dos seus poderes sobrenaturais.

José Nick, a partir daquele dia, passou a viver foragido da polícia aparecendo, de quando em vez, sempre de noite, em casa de alguns parentes para lavar as roupas e comer uma comidinha caseira quentinha, até que num domingo, dia 13 de março de 1927, ele resolveu ir a casa de um parente de nome José Scher, em Brejo do Almada, quando em completo estado de embriaguez, discutiu com este seu primo e tentou matá-lo, ferindo-o gravemente na coxa de uma das pernas.

Naquele momento, dois dos empregados do Sr. José Scher, indo ao socorro do patrão e encontrando Zé Nick caído ao lado, bêbado em demasia, tentando recarregar o seu enferrujado clavinote, os dois empregados usando machado e foice deram um golpe em seu pescoço e chacoalharam a cabeça com o olho do machado. Contam que mesmo com a cabeça espedaçada e o cérebro fragmentado fora da cuca, Zé Nick, continuava batendo o coração.

Então, um dos seus assassinos arrancou-lhe da própria cinta o punhal e cravou-lhe no lado esquerdo do peito e aí o negro José Nick entregou a alma ao Criador. Foi assim que José Nick partiu para o além, deixando em perfeita paz toda uma região Sul da Bahia…

Esta é mais uma das muitas histórias contadas pelo escritor José Dantas de Andrade em seu circunstancioso livro Documentário Histórico Ilustrado de Itabuna…


* Miro Marques é escritor historiador e radialista


Fonte: http://dimensaojornal.com.br/a-lenda-de-ze-nick/



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