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PORQUE VOCÊ NUNCA DEVE PEDIR AUTORIZAÇÃO PARA SER QUEM É

Quem dita os valores que seguimos: nós ou os  outros?  Descubra quais são os seus valores e os  siga sem medo, sem precisar pedir autorização para ser quem é. Você pode ter o cabelo que quiser, usar a roupa que quiser, ter o trabalho que quiser, namorar quem quiser, casar, descasar, ser mãe, não ser mãe, ter carro, não ter, dirigir, não dirigir e não precisa da autorização de ninguém para isso. Não precisa de alguém lhe dizendo que pode nem tampouco de alguém que legitime sua posição.

Outro dia li em algum texto da internet que existe um termo para designar o grupo de mulheres que decidem não ter filho: NoMos (Not Mothers), grupo do qual muitas mulheres famosas já declararam fazer parte. Também li outro texto que discorria longamente sobre as “ditaduras” impostas para o corpo das pessoas, alegando que antes a regra era ser magro a qualquer custo e, hoje, a regra é ser saudável – e magro, também, obviamente.

Esses são apenas dois exemplos dos tantos que existem sobre as tais “ditaduras” que, supostamente, são impostas a todos nós pela sociedade, que ditam nossa vida e nos fazem correr atrás de, ou nos submeter, ou pedir em grupo, de preferência com o suporte de “famosos formadores de opinião”, para que aceitem nossa condição de ser contra a regra geral.

Diante disso, fiquei me perguntando quem, afinal, dita os valores para nossa vida: os outros ou nós mesmos? O psiquiatra, Flávio Gikovate, faz uma distinção bastante interessante sobre a vaidade e a autoestima. A vaidade seria um prazer que sentimos quando percebemos que temos a aprovação dos outros; a autoestima, por sua vez, tem relação com a aprovação por nós mesmos das nossas próprias atitudes. Então, seria mais ou menos como se a vaidade tivesse relação com valores externos a nós e a autoestima, com nossos próprios valores. Quanto mais eu consigo viver e ser de acordo com os meus próprios valores, mais alta minha autoestima.

Vejo que quanto mais alta nossa autoestima, menos nos submetemos às pressões externas, menos ficamos escravos da vaidade. Isso gera uma satisfação muito mais sustentada com a nossa vida, com nós mesmos, porque quando dependemos demais de valores externos a nós, temos pouco ou nenhum controle sobre nossa alegria e bem-estar. Se eu dependo que as pessoas me achem bonita estarei sempre à mercê de fatores que não dependem de mim. Se, ao contrário, quem determinar os valores for eu mesma, passo a ter um controle bem maior sobre o que me alegra e o que me entristece. E passo a ser muito menos influenciada por críticas, tentativas de ofensas e até mesmo por elogios.

Todo mundo já deve ter vivido situações em que recebe um elogio no qual não acredita firmemente, ou seja, as pessoas falam que você tem um valor que você realmente não reconhece em você. Isso demonstra o quanto é frágil, não sustentável e incapaz de gerar uma real satisfação depender apenas da aprovação dos outros. Se você tem um determinado valor e consegue alcançar isso e também recebe um elogio por isso, as coisas passam a fazer sentido e você genuinamente se alegra. Quando, ao contrário, você cede às pressões externas, mas, no fundo, não se alegra com suas ações, os elogios têm uma força muito menor.

Então, mais do que tentar formar grupos ou pedir o suporte de “famosos” para apoiar suas decisões, vale a pena investir em conhecer e formar seus próprios valores e segui-los sem medo, porque é só eles que importam de fato. Vou dar um exemplo bem simples, mas que pode ser extrapolado para valores muito mais sérios.

Fui “escrava da chapinha” durante muitos anos. Meu cabelo é naturalmente cacheado e durante anos eu não punha os pés na rua sem alisar meus cachos. Quando tive meu filho, há 10 anos, passei a ter menos tempo para essa atividade. Quem tem que administrar os papéis de mãe, profissional, mulher, filha, esposa, etc, sabe que é necessário estabelecer prioridades – o que, nada mais é, do que estipular valor às coisas. Diante disso, gastar uma hora por dia esticando meus cachos deixou de ser prioridade quando precisei escolher entre fazer isso ou ficar com meu filho, ler um livro, terminar um trabalho, estudar.


Na lista das muitas coisas que tenho que fazer em um dia, esticar meu cabelo caiu de posição e permaneceu lá embaixo. Assim, passei a usar meu cabelo naturalmente cacheado como ele é, na maioria das vezes lavando e saindo de casa, e a me sentir bem e segura com isso. Quando alguém me sugere um alisamento definitivo ou comenta alguma coisa sobre isso, eu simplesmente explico que não tenho interesse nesse momento em dedicar muito tempo a essa questão capilar.

É claro que eu respeito todas as pessoas que consideram prioridade cuidar de seus cabelos, que dedicam tempo e dinheiro a essa atividade, porque sei que elas se pautam em valores que são delas – e não os meus. Assim, não me acho no direito de julgar quem quer que seja porque gasta tempo cuidando dos cabelos, assim como sei que os outros também não têm o direito de me julgar por isso. “Ah, mas julgam! E pressionam!”, podem argumentar alguns. Sim, é verdade, mas quando estamos pautados em nossos valores, lidamos com tranquilidade com isso. Por que você não alisa seu cabelo? Porque eu não quero, gosto dele como é. Fim de papo. Porque os valores que eu sigo são os meus.

E eu não preciso de uma “famosa assumindo seus cachos” para dar legitimidade à minha decisão com relação ao meu cabelo. Eu não preciso dizer: olha, eu tenho cabelo cacheado, mas a Fulana famosa também tem, portanto, eu também posso ter. Você pode ter o cabelo que quiser, usar a roupa que quiser, ter o trabalho que quiser, namorar quem quiser, casar, descasar, ser mãe, não ser mãe, ter carro, não ter, dirigir, não dirigir e não precisa da autorização de ninguém para isso. Não precisa de alguém lhe dizendo que pode nem tampouco de alguém que legitime sua posição.

Quando ouço frases como, por exemplo, “nossa, não sei se o tio de Fulano vai ACEITAR que ele é gay”. Como assim, aceitar? Ninguém precisa pedir autorização para ser quem é! O tio – ou quem quer que seja – não tem que aceitar você como você é, porque nem ele, nem o resto da sociedade, precisam lhe autorizar a isso. É claro que nesse caso específico da causa gay, é necessário que haja uma luta e eu sou totalmente a favor dessa luta, porque, nesse caso, as pessoas não se contentam em “não autorizar”, mas partem para violência. As pessoas não só se acham no direito de não aceitar, como querem eliminar os gays do planeta. Nesse caso – e em vários outros – é necessário lutar.

Mas esse não é o caso de muitas das tais “ditaduras”. Ninguém vai me agredir na rua porque tenho cabelo cacheado. No máximo, vão fofocar do meu cabelo e eu penso que, nesse caso, quem fez a fofoca perdeu um precioso tempo de sua vida falando de mim – e isso em nada me atingiu. Mesmo que fosse dito diretamente para mim, minha posição é muito firme, portanto, não me ofende.

O professor Clóvis de Barros Filho fez uma distinção em uma entrevista sobre vaidade e orgulho – que, no fundo, é o que o Gikovate chama de autoestima. O professor tem uma visão mais filosófica da coisa, mas corrobora os argumentos anteriores.

“O orgulho é um afeto altamente positivo na existência, porque no final das contas, o orgulhoso é aquele que consegue identificar em si mesmo causas de alegria. Isso, claro, é patrocinador de uma vida boa. Quando você consegue identificar as causas de alegria em si mesmo, uma consequência imediata, é identificar as próprias fragilidades. O orgulhoso é sempre alguém que tem mais de si em si mesmo. O vaidoso, na verdade, é um orgulhoso equivocado, um orgulhoso que não se conheceu direito, um orgulhoso que não soube flagrar em si mesmo as reais causas de sua alegria”.

“Todo valor, seja um valor adequado a uma competência, como no caso do orgulho, seja um valor transbordado e desalinhado como no caso da vaidade, todo valor é uma construção social, resulta de um processo de socialização, é uma questão cultural. Aí é que está o grande conflito que a filosofia clássica aponta: de um lado, um apreço pela natureza que é a sua, em outras palavras, é o que o Nietzsche chama de ‘amor fati’, é você se reconciliar com o mundo como ele é, aceitar-se como sendo como é, e de outro lado você tem uma sociedade, uma convivência, uma vida social que, de certa maneira, espera de você performances, espera de você a ocupação de postos, espera de você competências que nem sempre estão alinhadas com as suas verdadeiras e naturais inclinações”.

“No final das contas, pode-se imaginar o vaidoso como alguém forte na aparência, mas no fundo é alguém que, ignorante de si mesmo, está disposto a vender-se a si mesmo em nome dos enquadramentos sociais”.

Acho interessante o uso da palavra orgulho pelo professor, porque é justamente a palavra que usamos para descrever as coisas que estão, de fato, alinhadas com nossos valores. Por exemplo, eu gosto muito do meu trabalho e tenho orgulho de contar aos outros o que faço. Assim como sou mãe e tenho muito orgulho das decisões que tomo em nome de exercer da melhor forma possível minha maternidade. É motivo de orgulho para mim dedicar menos tempo ao trabalho ou ao meu cabelo, para dedicar tempo ao meu filho, porque esse é um valor muito sólido para mim.

Como disse Sócrates lá no início da filosofia ocidental, “conhece-te a ti mesmo”, descubra quais são os SEUS valores e nunca mais precisará pedir autorização para ser quem você é.


JULIANA SANTIN
Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.


http://obviousmag.org/algo_pensa_em_mim/2016/porque-voce-nunca-deve-pedir-autorizacao-para-ser-quem-e.html

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