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O que nossa professora de redação diria ao secretário da Educação de SP?
Matheus Pichonelli      

Zé Renato tem deixado em pé os cabelos já esbranquiçados de dona Josélia, nossa professora de redação no ensino fundamental em Araraquara. Tempos atrás, ele disse numa roda de conversa que poderia tirar uma coisa “interessante” dos atos terroristas desencadeados pelo Estado Islâmico. Para Zé Renato, era de se admirar a convicção, o idealismo, a força e a intensidade do sentimento que levam essas pessoas – vulgo assassinos – a enfrentarem o risco de morte para defender uma ideia - enquanto, no Brasil, segundo ele, vive-se um deserto de idealismos, sem que ninguém consiga liderar ou oferecer uma bandeira. “Não dá inveja um povo que prefere morrer por causa de uma ideia quando não temos ideia alguma?”

A professora tentou mostrar a Zé Renato que não, não era possível ter inveja de quem nada mais tinha na vida a não ser…um esboço de ideia. Argumentou que nas grandes tragédias da humanidade, das Cruzadas aos Estados Totalitários (fascistas, nazistas ou comunistas) do Século XX, passando pelo fanatismo de terroristas de todos os matizes, não faltaram convicção, idealismo, força e intensidade do sentimento nem risco de morte (sobretudo para as vítimas dos holocaustos) para defender uma ideia. Faltou humanidade.

Zé Renato deu de ombros. Pouco antes, ele já tinha provocado furor entre os estudantes que brigavam para não serem removidos das escolas e para ninguém tirar a merenda do refeitório ao dizer que juiz tinha direito a auxílio-moradia porque não dava para ir “toda hora a Miami comprar terno novo”. A professora, desconfiada de que Zé Renato tenha alguma relação ou parentesco no Judiciário, teve de intervir.

Disse que tudo bem defender auxílio-moradia, mas que aquela era uma aula de redação e, como tal, era preciso, digamos, sofisticar os argumentos. Sobretudo quando a maioria dos estudantes da sala gastava as solas dos pares únicos de sapato para conseguir chegar à escola. A professora, educadamente, disse ser admirável a intensidade com que Zé Renato defende suas ideias, mas pediu que ele tivesse um pouco mais de sensibilidade em relação aos colegas. Pediu uma redação com o tema “alteridade” e foi para casa.

Dias depois, Zé Renato mostrou um artigo da própria lavra. A professora, de novo, quis deitar em posição fetal e chorar até o dia em que o Estado Islâmico deixasse apenas as baratas sobre a Terra.

Como é paga para analisar a concordância, a coerência e o respeito pela lógica nas redações dos estudantes, ela fez as seguintes observações ao artigo de Zé Renato:

A sociedade órfã


Uma das explicações para a situação de anomia que a sociedade humana enfrenta em nossos dias é o de que ela se tornou órfã. Com efeito. A fragmentação da família, a perda de importância da figura paterna – e também a materna – a irrelevância da Igreja e da Escola em múltiplos ambientes, gera um convívio amorfo. Predomina (PREDOMINAM) o egoísmo, o consumismo, o êxtase momentâneo por sensações baratas, a ilusão do sexo, a volúpia da velocidade, o desencanto e o niilismo. (A sensação de desamparo pela perda dos referenciais simbólicos tem sido objeto de amplos estudos, sobretudo na psicanálise, desde a virada do século – do XIX para o XX. O desencanto que você vê como sinal dos novos tempos não é de hoje. Vem da própria incapacidade dessas autoridades em oferecer respostas para um mundo que se expandiu, ficou mais rápido, e deu aos indivíduos o controle do próprio destino. É assim: essas autoridades, tempos atrás, tinham não apenas o monopólio da autoridade, mas do conhecimento. Autoridade e conhecimento eram sinônimos. Com a internet, os meios digitais e a cultura de massa, sofreram impactos consideráveis, mas não se pode dizer que desapareceram do nada, como o texto dá a entender. Seria interessante, aliás, que você demonstrasse a relação entre “sensações baratas”, “consumismo” e “ilusão do sexo” com o avanço de algumas religiões pelo país. Sensações baratas existem desde o tempo do circo. Ou da guerra do ópio, na China. Sexo e Ilusão me parecem palavras contraditórias num mesmo termo. Como funciona? Você leva a pessoa pra cama, se relaciona com ela e, no dia seguinte, se convence de que foi só um sonho? Ou estamos falando de prazeres mais, digamos, solitários? Depois, discretamente, podemos conversar sobre isso se você quiser falar a respeito. Sobre o consumismo, acho que podemos desenvolver melhor a ideia. Podemos relacionar, inclusive, com a obsessão dos pobres e marginalizados do país em fazer compras em Miami).

Fonte: Yahoo Notícias

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