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O papa também se apaixona - IVAN MARTINS

Postado por Rilvan Batista de Santana 09/04/2016

O papa também se apaixona -  IVAN MARTINS (*)

Involuntariamente, João Paulo II nos deixou uma mensagem póstuma sobre o amor que nada tem a ver com as coisas que ele pregava - mas é linda. IVAN MARTINS

Ninguém escapa do amor. Mesmo as pessoas que a gente imagina estarem acima das paixões terrenas na verdade não estão. Vistas de perto, olhadas em sua intimidade, elas se mostram tão sentimentais quanto qualquer um de nós. O amor parece ser biologicamente inevitável.

Esta semana, um programa da TV inglesa BBC mostrou as cartas escritas pelo cardeal da cidade de Cracóvia a uma professora de filosofia que vivia nos Estados Unidos, polonesa como ele, chamada Anna-Teresa Tymieniecka. O conteúdo das cartas não deixa dúvida: por mais de 30 anos, os dois mantiveram uma relação delicadamente apaixonada, que, por tudo que se sabe, nunca se transformou em sexo.

Em 1978, o cardeal de Cracóvia tornou-se o papa João Paulo II, e a relação platônica entre ele e Anna-Teresa, que durou até a morte dele, tem vocação para se transformar em filme.

Ele escrevia a ela coisas assim:

“Uma vez – eu me lembro exatamente quando e onde – eu ouvi as palavras ‘eu pertenço a você’, e, para mim, havia um presente nelas. Eu tive medo desse presente, mas soube desde o começo, e sei ainda melhor agora, que tenho de aceitá-las como um presente do Céu”.

Quando eles se conheceram, Anna-Tereza estava com 50 anos, casada, e tinha dois filhos. Uma mulher linda, de grande inteligência. Ele tinha 53 anos, era alto, atlético e carismático. Os dois se aproximaram por causa de um livro e nunca mais se afastaram. Esquiavam juntos, acampavam juntos, conversavam à sós e passaram férias na casa de campo da família dela, nos Estados Unidos.

Em maio de 1981, quando João Paulo levou dois tiros num atentado na praça de São Pedro, no Vaticano, ela voou imediatamente para estar com ele entre a vida e a morte, por vários dias. Foi uma das poucas pessoas admitidas no quarto da emergência em que o papa se recuperava depois de cinco horas de cirurgia. Cena de filme, claramente.

Na velhice dele, entristecida pelo Parkinson, os dois se encontravam e se escreviam regularmente. As cartas dele desse período final são cheias de nostalgia pelos momentos felizes que passaram juntos.

O programa da BBC mostra apenas as cartas cuidadosas escritas pelo papa, não as de Anna-Teresa. Mas os jornalistas ingleses que escreveram sobre o programa de TV dizem com muita convicção que as cartas dele respondem a declarações de amor inequívocas da parte dela. É provável que eles tenham tido acesso a cartas dela ou a informações sobre elas que não podem nos revelar.

De qualquer forma, o que se percebe nas cartas do futuro papa é um homem lutando para colocar os sentimentos amorosos num plano coerente com seus princípios e com seus valores católicos.

Ao falar de um escapulário que recebera de seu pai e dera de presente a Anna-Teresa, o cardeal diz, textualmente, “ele me permite aceitar e sentir você em toda parte e em todo tipo de situações, quer você esteja perto ou não”.

Lembrem que o escapulário é uma espécie de colar com dois pedaços de pano, que se leva sob a roupa, junto à pele, nas costas e no peito. Esse símbolo extremamente físico de religiosidade aparece repetidas vezes nas cartas dele. É fácil entender por que.

Se isso parece carnal demais para uma autoridade eclesiástica presa ao voto do celibato, em outros momentos ele enfatiza os aspectos cristãos do seu sentimento: “Se eu não tivesse a certeza moral da Graça, e de atuar em obediência a ela, eu não me atreveria a agir desta forma”. Agir como? Talvez nunca venhamos a saber.

Mais do que qualquer debate em torno do celibato do papa, o que me emociona nessa história é o seu aspecto lindamente mundano.

“Eu peguei suas cartas, as trouxe comigo para Roma e as estou lendo de novo. Elas são tão significativas e tão profundamente pessoais, apesar de estarem escritas em ‘código’ filosófico. Há nelas, finalmente, questões sobre as quais eu tenho muita dificuldade em escrever”.

Um cardeal descobre, aos 53 anos, que uma mulher apaixonada é capaz de provocar nele sentimentos perturbadores – e, ao invés de fugir da situação, ele a enfrenta e convive com ela, dentro dos limites das suas convicções. Para mim, isso humaniza João Paulo II imensamente, e ajuda a perceber algo sobre nós todos.

A expectativa do amor é inseparável da nossa essência. Não existe crença ou racionalização que possa combatê-la. Mesmo o mais poderoso e isolado dos homens deseja amar e ser amado. E de alguma forma o fará, ainda que seja escondido do mundo e dele mesmo.

Fico feliz em saber que João Paulo II não passou pela vida sem sentir o sabor agridoce da saudade, a sensação de esperar por alguém a quem ansiamos ver, o prazer de ouvir e de olhar nos olhos dessa pessoa antecipada.

Se o papa e Anna-Teresa fizeram sexo, é indiferente. Irrelevante, na verdade. Há muito sexo sem amor e existe muito amor sem sexo. O importante é ter havido a conexão. Não apenas a amizade. Não o amor impessoal, cristão, voltado a qualquer ser humano. Mas a alegria visceral, completa, inteira, ao mesmo tempo física e espiritual, que a gente sente ao estar de alguma forma apaixonado.

Que um grande conservador como João Paulo II, cuja igreja foi tão rigorosa em julgar o amor dos outros, tenha caído nessa doce armadilha do destino depois dos 50 anos, me enche de esperança sobre a vida.

Se o sentimento do amor chegou a ele e Anna-Teresa numa situação tão improvável, por caminhos tão tortuosos, talvez esteja mais facilmente ao alcance do resto de nós, que levamos vidas muito mais simples.


Involuntariamente, mesmo a contragosto, João Paulo II nos deixou uma mensagem póstuma sobre o amor que nada tem a ver com as coisas que ele pregava - mas é linda.


(*)  Ivan Martins















Fonte: 


http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/ivan-martins/noticia/2016/02...

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