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IMAGEM DA SEMANA - CARLOS SANTAL

Postado por Rilvan Batista de Santana 17/04/2016

Papa-Jaca
Carlos  Santal
Fonte: Facebook




Entrevista

   Carlos Santal, artista plástico

“Lá fora a gente percebe o quanto tem e não valoriza” Santal afirma o artista plástico Carlos Santal, um itabunense que vive há 10 anos em Portugal. Ele foi vencedor “trocentas” vezes do Troféu Jupará pela sua arte e está de volta à terra grapiúna para ver os amigos e fazer uma exposição com a fase atual, de cenas do cotidiano português.
      No programa Mesa Pra 2 (quartas, 15h) da Morena FM, ele conversou com Marcel Leal sobre suas “andanças”, aventuras e o trabalho realizado nas terras lusitanas. Santal disse que a primeira coisa, quando chegou em Ilhéus, foi matar a saúde da água de coco. Confira o papo.

Marcel - Do que mais você sentia falta em Portugal?
       Santal - Da comida, do acarajé, do caldo de cana, um manjar dos deuses. Algumas coisas a gente acha, mas tem coisas que só a Bahia tem, como a jabá e rapadura.

Quando chegou lá, o que mais causou impacto até você se adaptar?
       O frio foi demais. Meu filho pediu que eu comprasse ceroulas e calças de veludo. O frio para dormir dá um trabalho danado. A língua também, não entendi logo porque eles falam muito rápido.
      Quando fui, levei comigo um grupo de músicos e fizemos duas apresentações musicais. A primeira foi bacana, mas a segunda, foi um horror. O som foi horrível. A música não deu certo.

Como foi o trabalho no início?
       Eu também passei um sufoco grande. Meu filho trabalhava em uma transportadora e naquela época se ganhava muito dinheiro. Eu disse que queria trabalhar e ele se surpreendeu.
      Mas eu precisava, pois o dinheiro já estava acabando. Eu trabalhei com os meninos, transportando mudanças e foi assim que conheci Lisboa. Também passei horas de fome, por causa do trabalho, que era muito.

E a escola de pintura?
       Quando eu chegava numa casa de luxo que tinha telas, eu observava e os meninos contavam que eu era artista. Um belo dia fiz a mudança de uma mulher que morou na África e disseram que eu era pintor.
      No dia seguinte voltamos à casa e eu, malandro, apresentei uns trabalhos que tinha levado. Ela começou a chorar, disse que se lembrava do lugar onde morou.
      No terceiro dia tornamos a voltar para terminar de montar um móvel e de repente chega o marido dela, que perguntou se eu tinha alguma trabalho. Mostrei uma tela e, resumindo, vendi por 200 euros.

E quando você montou a escola?
       Já tinha alguma coisa que tinha levado, comprei mais material e fiz telas. Um vizinho me disse que eu poderia ensinar e anotou meu número na “montra” (vitrine). Dois dias depois me ligou já com dois alunos. Eu cobrei 45 euros.
      Em poucos dias apareceram duas advogadas e adoraram. Um mês depois, me perguntaram se eu não queria um espaço maior, porque tinham uma amiga com uma galeria.
      Lá, encontrei uma pessoa muito legal e esperta, que pesquisou na internet sobre meu trabalho e já estava com alguns trabalhos meus. Num dia só entraram 5 alunos a 50 euros. Com um mês já tinha 15 alunos.

Quando surgiu a ideia de pintar paisagens de Portugal?
       Tem uns três anos. Inclusive trouxe minha primeira tela, uma colheita de azeitonas, que está na exposição aberta quarta-feira na Ficc. Esse eu nem quis vender. Eu comecei a trabalhar por incentivo dos meus alunos portugueses. Eles me mostraram cada lugar belíssimo! Fiz também pelo respeito a eles.

Você percorreu os lugares e se inspirou neles?
       Sim, num desses, na praça do Comércio, vi um homem vendendo castanhas assadas, que lembram batata doce. A partir dai surgiram outros lugares e cenas. Tem muita coisa bacana pra ver. Eu procurei retratar as coisas bonitas, o cotidiano das pessoas. A exposição Lusitana fala sobre isso, os costumes e tradições.

O que mais te chamou atenção em Portugal?
       A tranquilidade, o ambiente, você poder sentar num bar ou num café sem músicas altas. Lá as pessoas tocam ao vivo. Também o respeito e a segurança. Perdi minha carteira duas vezes, uma no mercado e quando voltei lá, encontrei. E estava com o dinheiro dentro.

E de ruim, o que você pode contar?
       O racismo, porque é escancarado e eles são muito desconfiados. Mas quando se passa a conhecer eles gostam e a questão da pele desaparece. Eles nos chamam de “seu doutore”, é muito interessante.

Quando você não está pintando, faz o que?
       Faço meu trabalho musical, dou meus passeios, malho muito para tirar a barriga. Eu tenho um amigo que tem um estúdio em casa e a gente cria, canta. Eu moro numa casa muito boa, tudo baratinho. Uma coisa bacana é você encontrar um imóvel já com todos os móveis dentro.

Você tem muita história interessante para pintar e contar. O que me diz da diferença de língua?
       Tem muita história e eu já paguei muito mico. Um dia estava numa missa e o padre falando palavrão. Achei que eu estava ficando maluco ou surdo. Cheguei em casa e contei ao meu filho sobre que palavrão do padre.
      Não era nada de palavrão, era a linguagem dos portugueses (risos). Eu cheguei numa loja e pedi um durex, meu filho me cutucou dizendo que é “fita cola”. Durex lá é preservativo (risos).

Quem mora com você em Portugal e quem mora aqui?
       Aqui tem meus filhos Marcelo, Junior, Alessandro, Rogério, Cláudio, Carla e tem Alessandra, Luciano e Gilsan que moram comigo e minha esposa em Lisboa. Lá eu ganhei um netinho lindo. E aqui tinha 10 netos que eu não conhecia.

Você hoje prefere morar em Portugal ou aqui?
       Por enquanto quero ficar lá, inclusive quero levar um neto que gosta de futebol. Eu estive na casa de meu amigo Welton, jogador do Benfica. O cara é um artista, tem um estúdio muito bacana em casa.
      Alexandre Pires esteve na casa dele, outro cara muito humilde. A esposa de Welton e os filhos são maravilhosos. Eles me deram carona de volta num carro muito chique.

E nossa cultura em Portugal, é muito disseminada?
       A arte sim e a música brasileira invadiu, eles adoram. O fado é bacana, mas alguma coisa tropeça. Tem uma rádio brasileira, a Tropical, que comanda tudo. O teatro, a dança e a pintura dominam.

Eles se adaptam bem a seu sistema? Porque você ensinava até uma pedra a pintar...
       Graças a Deus eu consegui levar meu estilo de trabalho para eles. E vou fazer um workshop aqui. Quem estiver interessado só não pode ligar no meu “telemóvel”, mas pode ligar para a parceira Morena FM (3613-1011) e deixar o nome.

Você tem quantos alunos em Portugal?
       Tenho uns 100 e me surpreendeu. Além do trabalho de ensinar, faço exposição. Tenho amigos também, entre eles alguns vereadores e um em especial que me deu muita força, inclusive na música. Fiz muitos amigos. E estão ouvindo a Morena FM pela internet por lá. Ouvem sempre.

Você se sente morando em casa lá?
       Sim, me sinto bem até pela amizade que conquistei. Quando falei que vinha para o Brasil, meus amigos pediram que eu voltasse. Tem um que me liga todos os dias. Nem meu filho, que mora perto, faz o que o amigo portuga faz.

Você teve alguma dificuldade para circular pela cidade?
       O meu trabalho inicial transportando mudanças me ajudou muito. Foi uma coisa boa, mesmo sob o protesto de meu filho, porque eu pegava pesado. Sou sincero ao dizer que amei muito a praça do Chiado.
      É um bairro central de Lisboa, onde fica o Café à Brasileira. Hoje é um ponto turístico, onde o artista expõe seus trabalhos. Ao lado tem uma livraria, o lugar tem um clima muito gostoso.

Como é a questão do patrocínio em Portugal?
       É a mesma dificuldade do Brasil. Mas tem emissoras de rádio, inclusive a rádio brasileira, que faz cobertura. No ano passado houve um projeto brasileiro, a Fundação do Brasil e a Casa América, que dão apoio ao artista.

Até quando você fica aqui?
       Um mês e meio e a minha exposição até o final do mês. O material está à venda com preço em real, está muito bom. Foi um gasto muito grande para trazer as telas. Confesso que estava com medo de perdê-las no caminho.
      Eu espero meus amigos em Lisboa, não foi à toa que retratei muita coisa de lá para trazer. Eu pintei muitas coisas, entre elas duas telas na cidade de Óbidos, dentro de um castelo.

E sobre à exposição na Ficc?
       Estou muito feliz em mostrar o trabalho de lá para meus amigos daqui. A entrada é gratuita, ficará aberta diariamente em horário comercial. Quem chegar lá será recebido pela equipe da Ficc, por minha esposa e meu filho.
      E vamos pensar, no futuro, em fazer um intercambio cultural. O pessoal de lá traz o fado, o rock e vem conhecer o que temos de bom aqui em Itabuna.

Você também toca em Portugal?
       Sim, toco tudo, sem esquecer o forró e MPB, que eles curtem muito. Fiz alguma coisa de pop e tem um fado para gravar. O trabalho ficou lindo.
      Olha, quando a gente chega lá fora, percebe o quanto a gente tem muito aqui e nem valoriza. Mesmo que as pessoas não lhe deem valor, continue indo em frente, mostrar o nosso trabalho e nosso potencial. Foi o que fiz.

Você deve ter encontrado muita gente daqui em Portugal...
       Sim, tem muito gente. Encontrei Geraldo, Alice, Aline Rosa num show dela, quando ainda estava na Cheiro de Amor. A galera brasileira e portuguesa curtiu muito. Matei a saudade assistindo o espetáculo dela, depois fui ao camarim e foi um encontro de papa jaca muito bom (risos). E aqui já matei a saudade comendo jaca.



Fonte: A REGIÃO

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