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COMO MELHOR, LOGO SOU MELHOR - Guilherme Lima

Postado por Rilvan Batista de Santana 12/04/2016

COMO MELHOR, LOGO SOU MELHOR - publicado em sociedade por Guilherme Lima

Os hábitos alimentares ditando a desigualdade pelo estômago.

A alimentação é uma das grandes preocupações humanas. Alimentar-se, ao longo do tempo, passou por diversas transformações. Como de praxe, a caça e a agricultura foram fatores chave para que a alimentação conseguisse suprir as necessidades no momento em que o ser humano acabou se sedentarizando, estabelecendo um local fixo para viver. Alimentar-se é uma das grandes necessidades básicas que buscamos suprir, afinal de contas, saco vazio não para em pé nem se sustenta.

Hábitos alimentares então foram tomando diversos rumos de acordo com que cada sociedade acabava tendo disponível para conseguir suprir sua alimentação. Fatores como clima, solo, vegetação, flora e fauna foram fundamentais na configuração das culturas alimentares ao redor do globo, assim como os métodos usados na agricultura e pecuária. Sementes, plantas e raízes mais resistentes a pragas, como batata, milho e trigo são largamente utilizadas em nossa alimentação básica, assim como o manejo e pastoreio de espécimes domesticados para nossa alimentação (porcos, galinhas, vacas), bases do consumo alimentício nas mais variadas partes do globo desde os primórdios.

Desta feita, a comida, assim como outros fatores essenciais a vida, é alçada a ferramenta extremamente eficaz nas disputas de poder, influenciando na ascensão e queda de muitas sociedades. Más colheitas, escassez, extinção de certas espécies animais ou vegetais, adoecimento dos rebanhos e o exaurimento de recursos naturais influenciaram nos ânimos e foram causas para o declínio de muitas sociedades enquanto o processo inverso ajudou outras a ascenderem. Quem detinha e detém os controles dos meios de produção alimentar consegue enorme influencia nas decisões politicas e nos rumos da sociedade, basta ver que muitos lideres de poderosas sociedades possuíam inúmeras plantações ou rebanhos de ovelhas, gados, etc... Assim sendo, a alimentação também serve para aparato de dominação.

Atualmente isto segue de certa forma como via de regra na sociedade contemporânea. A força que o agronegócio e a indústria alimentícia têm sobre o mercado e os governos determinam os rumos para a configuração de leis, além da influencia sobre as tomadas de decisões dos políticos com seu poderoso lobby, basta ver como atua a bancada ruralista e do agronegócio dentro do congresso nacional brasileiro, tendo inúmeros parlamentares agindo em sua zona de influencia de acordo com seus interesses. Já no mundo dos negócios, As grandes empresas alimentícias agem de forma praticamente predatória, forçando a falência das concorrentes menores ou as comprando, formando grandes oligopólios e monopolizando o mercado.

Outro fator a se levar em conta pela questão da alimentação é como ela acaba sendo utilizada como forma de diferenciação e status social. Desde os tempos mais remotos foi se conjecturando um abismo entre os hábitos alimentares da classe dominante e dos mais pobres. Dentro da mesma sociedade, estabelecem-se grandes diferenças nos alimentos consumidos pelas diferentes camadas sociais, sendo ela mais um método de afirmação de um grupo sobre o outro, como no império romano no caso patrícios x plebeus; Entre nobres e camponeses na idade média; no Brasil até o século XIX, com o que se comia na casa grande do senhor completamente diverso do “rango” dos escravos na senzala.

Foi posta assim a oposição entre a alta gastronomia “chic” e a popular. A superioridade também se justifica pelo que se come, transformando aquilo com que o outro se alimenta em algo exótico, excêntrico, isso quando não se usa outros termos depreciativos como intragável. Porém uma onda de “gourmetização” veio com muita força atualmente, acompanhada de um forte fetichismo comercial em torno do popular, na apropriação de certa forma indevida buscando lucro em cima da alimentação da “ralé” ou comida dita de baixo calão. Exemplo disto é a nova febre do momento, os food-trucks, vendendo cachorro-quente e até mesmo sacolé a preços exorbitantes, se utilizando indevidamente da ideia do popular e acessível a todos.

Essa fetichização e elitismo mascarado se apropriaram até mesmo das dietas alimentares que acabem por visar um melhor bem-estar e engajadas em alguma causa. Mesmo sendo louvável a ideia que embasa o vegetarianismo e o veganismo, sobretudo em prol dos direitos dos animais (vitimas de processos cruéis em locais como abatedouros e frigoríficos), muitos embarcaram na onda por ser algo “hype” e tendência na atualidade, para se diferenciar do restante e tiver mais um motivo para jogar na cara daqueles sem os meios para manter este tipo de alimentação o quanto é melhor, tanto economicamente quanto moralmente, massageando seu ego em dose dupla. Sob o pretexto de igualdade e liberdade animal, reprime e oprime o semelhante, já que a maior parte da população não tem condições financeiras de fazer as mudanças alimentares necessárias em seu cardápio. Na cegueira de um ativismo quase esquizofrênico, o fechar de olhos para a realidade socioeconômica acaba até mesmo prejudicando a causa, por não perceber a profundidade do problema alimentar, que vai muito além da mudança de hábitos e consumo.

Comer determinado alimento ou manter uma dieta assim ou assado, não irá te fazer simplesmente um ser superior ou um super-humano, muito menos ser o redentor da humanidade. Pelo contrário, sob certos aspectos só está reforçando mecanismos de perpetuação de estereótipos e preconceitos. A questão alimentar vai muito além da individualidade, ela representa um todo e são tantas as minucias e poréns referentes à cultura da alimentação que censurar alguém por comer certo tipo de alimento é atitude reprovável em N aspectos, pois na maioria das vezes comer determinado produto alimentício é um privilégio de poucos e luxo para muitos. Em síntese, Comer também é poder em todos os sentidos.

 
guilhermelima
GUILHERME LIMA
manias acompanhadas de TOC.


http://lounge.obviousmag.org/escritos_da_ansiedade/2016/04/como-melhor-logo-sou-melhor.html

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