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“BELA, RECATADA E DO LAR” - BARBARA MELO

Postado por Rilvan Batista de Santana 29/04/2016

Fonte: Google
 “BELA, RECATADA E DO LAR” – UM DISCURSO POLÍTICO E ESTÉTICO
PUBLICADO EM SOCIEDADE POR BARBARA MELO

O problema não é você ser “bela, recatada e do lar”, pois cada um é livre para ser como quiser. O problema é passar a ideia de que só esses atributos são corretos. Em pleno século XXI, tanto homens quanto mulheres merecem ser reconhecidos pelo caráter e pelo intelecto, pois estes sim legitimam a subjetividade, o nosso verdadeiro eu.

Um dos assuntos mais comentados dessa semana nas redes sociais foi a matéria da revista Veja sobre Marcela Temer, mulher do vice-presidente Michel Temer.

“Bela, recatada e do lar” é o título do texto da jornalista Juliana Linhares, que traçou um perfil sobre a esposa de Temer. Além dos atributos de Marcela, o destaque foi para a grande diferença de idade entre eles, que é de 43 anos. Ela tem 32, enquanto Temer, 75. A matéria ressalta as qualidades da “quase” primeira-dama, como a própria Veja sugere, e basicamente mostra como é o estilo de vida de Marcela. O texto encerra com a seguinte afirmação: "Michel Temer é um homem de sorte".

O mais surpreendente disso tudo, não é nem a matéria em si – pois a Veja, revista de caráter conservador, pressupõe este tipo de abordagem –, mas sim a repercussão nas redes sociais.

Diversas mulheres se manifestaram aderindo à campanha #belarecatadaedolar, que satirizou a frase e tomou conta nesses últimos dias. Mulheres de todas as idades, belas, feias, gordas, magras, anônimas e até celebridades como a atriz Letícia Sabatella e as apresentadoras de TV Astrid Fontenelle e Monica Iozzi se mostraram contra o machismo da Veja. Além da campanha, inúmeros memes ironizaram a frase.


Quero deixar claro que não vejo problema algum em ser recatada ou “do lar”. Viver de uma forma mais tradicional não está errado, contanto que isso seja uma escolha da mulher.

Como jornalista, desejo apenas deixar registrado que é preciso mobilizar-se diante de uma matéria com um título deste teor, uma vez que os veículos de comunicação contribuem na formação de opinião e na nossa forma de ver o mundo. E, em pleno XXI, a maior revista do Brasil (que tem quase 50 anos), engrandecer um determinado ideal feminino indica que existe alguma coisa errada. Até porque já passou da hora de nos libertarmos desses estereótipos, sejam eles atribuídos aos homens ou às mulheres, principalmente quando estas qualidades não revelam o intelecto do indivíduo.

Além do caráter, o conhecimento é que temos de mais valioso. Tudo que aprendemos na vida, seja nas experiências do cotidiano ou por meio do estudo, é o que nos molda como cidadãos e, ao mesmo tempo, o que legitima a nossa subjetividade. Isso serve para todos, independentemente de gênero. Ao meu ver, o título “Marcela Temer: Bela, recatada e do lar” reforça um determinado padrão ou ideal feminino e exclui a possibilidade de uma caracterização mais próxima do real.

Para quem quiser se aprofundar na questão, recomendo “Filosofia: machismos e feminismos” (organização de Maria de Lourdes Borges e Márcia Tiburi). Trata-se de um livro de ensaios escrito por diversos autores e que apresenta alguns assuntos, tais como: o caráter sexual da mulher e do homem em Kant; o corpo: o lugar contraditório do feminino; o aborto como metáfora, entre outros.

“Bela, recatada e do lar”, “Bela, recatada e do bar” ou até mesmo “Bela, desbocada e do lar”, como muita gente brincou esses dias no facebook e instagram, teve uma imensa repercussão.

Por trás dessa zoeira toda e do título aparentemente simples, vemos um discurso político e estético. Político porque é fortemente persuasivo, fala em nome do bem comum e traz valores sociais, mas que é alicerçado na opinião de um emissor; e estético porque a “construção” da imagem tem o objetivo de fazer com ela seja vista como uma “mulher de bem” e ele, um “homem de família”. Nada mais oportuno, para o momento atual que vive a nossa política brasileira.

Créditos das fotos: Google.

BARBARA MELO

Jornalista, apaixonada pela arte de escrever. Admira e questiona as coisas simples do cotidiano, mas sempre com um olhar sensível e aprofundado. Acredita que não há nada melhor do que compartilhar ideias e falar sobre arte, cinema, filosofia e literatura. .

http://obviousmag.org/escrita_criativa/2016/bela-recatada-e-do-lar-um-discurso-politico-e-estetico

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