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A Morte de Salim Miguel (1924-2016)

Postado por Rilvan Batista de Santana 28/04/2016

A Morte de Salim Miguel (1924-2016)

Salim Miguel marcou a ficção brasileira do século XX Salim Miguel, figura chave da ficção brasileira, morreu hoje, 22 de abril de 2016, aos 92 anos de idade, em Brasília - DF, onde atualmente residia.

"Comecei a escrever antes de aprender a escrever. Naquela época, fim dos anos 20, começo dos 30, depois das estripulias diárias, a criançada se reunia ora na frente da casa de um, ora na frente da casa de outro, e cada um relatava como é que tinha sido o seu dia. As correrias, as brigas. Hoje, nós brigávamos; amanhã, éramos grandes amigos. Então, eu cortava uma folha de papel-embrulho da loja de meu pai, recortava palavras ou letras, juntava alguns rascunhos meus. Linhas na horizontal, na vertical, em círculos. E lia aquilo pra eles. Lia não, porque eu não sabia ler. Inventava que estava lendo. Ali estava surgindo, ao mesmo tempo, o jornalista e o escritor. Então meu pai, me vendo grudado em tudo que era papel impresso, vendo aqueles signos mágicos me fascinarem, me perguntou: “O que pretendes fazer na vida?”. Sem titubear, respondi: “Ler e escrever”. Minha mãe, que era uma mulher sensível, disse: “Não vai ser fácil”. E meu pai: “Fácil não vai ser, mas se ele persistir, conseguirá”. Então, uma palavra que me acompanha toda a vida é “persistir”."


 Escritor Salim Miguel morre em Brasília Charles Guerra/Agencia RBS


"Para falar a verdade, se eu tivesse uma formação acadêmica, gostaria de ter sido crítico e ensaísta. João Cabral dizia a mesma coisa. Mas acho que tive o bom senso de sempre escrever muito e rasgar mais do que publiquei. Rasguei muito mais do que publiquei. Tanto que, para os nossos padrões, pelo menos para os da minha juventude, comecei muito tarde. Passei a infância e a adolescência em Biguaçu — tanto que costumo dizer que sou um líbano-biguaçuense — e só comecei a publicar em Florianópolis. Nos anos 40, a capital catarinense tinha quatro jornais. Hoje, só tem um. (…) Ao mesmo tempo em que eu publicava algumas crônicas nos jornais, já começava a escrever o que chamo de “anotações sobre leituras”. De repente, me disse assim: “Já que estou fazendo crônicas — e a crônica é meio caminho para o conto —, por que não chego ao conto?”. Daí, comecei a publicar contos. Meu primeiro livro é de 1951. Chama-se Velhice e outros contos, pois sempre me preocupou o tema da velhice, da morte, do tempo e da memória. Devo esse livro ao IBGE. Não ganhei dinheiro trabalhando para o senso demográfico de 1950, mas cinco dos oito contos desse livro, inclusive os três Velhice — Velhice 1, Velhice 2 e Velhice 3 —, resultaram de conversas com pessoas que fui recensear."


Bibliografia de Salim Miguel:


 - Velhice e outros contos, Ed. Sul, Florianópolis, 1951
- Alguma gente, histórias, Ed.Sul, Florianópolis, 1953
- Rede, romance, ed. Sul, Florianópolis, 1955
- O primeiro gosto, contos, Ed. Movimento, Porto Alegre, 1973
- A morte do tenente e outras mortes, contos, Ed. Antares, RJ, 1979
- A voz submersa, romance, Ed. Global, SP, 1984
- Dez contos escolhidos, Ed. Horizonte, Brasília, 1985
- O castelo de Frankenstein, anotações sobre autores e livros, Ed. Lunardelli/ UFSC, Florianópolis, 1986
- A vida breve de Sezefredo das Neves, poeta, romance, Ed. Tchê, Porto Alegre, 1987
- As areias do tempo, contos, Ed. Global, SP, 1988
- O castelo de Frankenstein, volume II, Ed. Lunardelli/ UFSC, Florianópolis, 1990
- As várias faces, novela, Ed. Movimento, Porto Alegre, 1994
- Primeiro de abril, narrativas da cadeia, Ed. José Olympio, Rio de Janeiro, 1994
- As desquitadas de Florianópolis, contos, Ed. Rio Fundo, Rio de Janeiro, 1995
- Onze de Biguaçu mais um, contos, Ed. Insular, Florianópolis, 1997
- Variações sobre o livro, ensaios, EdUFSCar, São Carlos, 1997
- As confissões prematuras, novela, Ed. Letras Contemporâneas, Florianópolis, 1998
- Nur na escuridão, romance, Ed. Topbooks, Rio de Janeiro, 1999
- Apontamentos sobre meu escrever, Ed. Museu/ Arquivo da Poesia Manuscrita, Florianópolis, 2000
- Eu e as Corruíras, crônicas. Ed. Insular, Florianópolis, 2001
- Aproximações: leituras e anotações, anotações sobre livros, Ed. Letras Contemporâneas, Florianópolis, 2002
- Memória de Editor, com Eglê Malheiros, Ed. Memória do Livro, Florianópolis, 2002
- Estrangeiros: releituras, Ed. Letras Contemporâneas, Florianópolis, 2003
- Gente da Terra: perfis, Ed. Lunardelli, Florianópolis, 2004
- Mare Nostrum, romance desmontável, Ed. Record, Rio de Janeiro, 2004
- Cartas D'África e Alguma Poesia, organização, introdução e notas, Ed. ABL/ Topbooks, Rio de Janeiro, 2005
- O sabor da fome, contos. Ed. Record, 2007
- Minhas memórias de escritores. Ed. Unisul Tubarão SC, 2008
- Jornada com Rupert, romance. Ed. Record Rio de Janeiro, 2008
- Os Melhores Contos de Salim Miguel. Global Editora, São Paulo, 2009

Além desses, Salim Miguel organizou numerosas antologias e participou de outras tantas.
- Reinvenção da Infância, contos. Ed. Novo Século, São Paulo, 2011
- Fantasia e (é) realidade ou treze textos surreais, contos. Ilustração de Tércio da Gama. Ed. Unisul, Tubarão, 2012
- Nós, romance policial. EdUFSC, Florianópolis, 2015

Para o cinema, fez:
- Argumento e roteiro do filme O preço da ilusão, com Eglê Malheiros, Florianópolis, 1957-1958
- Adaptação e roteiro de A Cartomante ( conto de Machado de Assis), com Eglê Malheiros e Marcos Farias, Rio de Janeiro, 1973
- Adaptação e roteiro de Fogo Morto (romance de José Lins do Rêgo), com Eglê Malheiros e Marcos Farias, Rio de Janeiro, 1976


 Distinções na carreira de Salim Miguel:

 - Diploma de Personalidade Cultural, da União Brasileira dos Escritores, em 1990
- Prêmio da União Brasileira de Escritores, por seu livro 1º de Abril- Narrativas da cadeia, em 1994
- Prêmio Prensa da Associação Catarinense de Imprensa, em 1996
- Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) de melhor romance do ano, pelo livro Nur na escuridão, em 1999
- Prêmio Zaffari & Bourbon de melhor romance brasileiro publicado entre 1999 e 2001, por Nur na Escuridão, em 2001
- Homenagem da Fundação Catarinense de Cultura, com o livro Salim na Claridade - 24 depoimentos, obra organizada pelo jornalista e escritor Flávio José Cardoso, em 2001
- Prêmio Juca Pato 2002, promovido pela União Brasileira de Escritores e pela Folha de São Paulo
-  Título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Santa Catarina, em 2002
-  Prêmio Machado de Assis, que a Academia Brasileira de Letras concede a escritores cuja obra é considerada expoente da literatura nacional, em 2010
- Lançamento de um concurso que leva o seu nome, premiando um catarinense com a publicação de um romance, inédito, numa promoção da Editora da UFSC, em 2010.


 Preferências literárias de Salim Miguel:

 Livro inesquecível: São dois: Dom Quixote, de Cervantes, e As mil e uma noites.



Trecho inesquecível: " Como é que isso vive em tua memória? O que vês mais, no escuro do passado e no abismo do tempo? Se consegues lembrar-te de algo acontecido antes, também podes lembrar-te de como para cá vieste", de Shakespeare.



Livro mais perturbador: Ulisses, de James Joyce, lido quando eu tinha 24 anos de idade.

 

Livro que gostaria de ter escritoPedro Páramo, de Juan Rulfo, ou A consciência de Zeno, de Ítalo Svevo.


 Personagem que gostaria de ter criado: Hans Castorp, de A montanha mágica, de Thomas Mann.

 
 Maior livro da literatura brasileira: Dom Casmurro, de Machado de Assis.


 Maior escritor da literatura brasileiraMachado de Assis, seguido de Lima Barreto e Graciliano Ramos.

 

Livro que você mais relêEntre outros, os desses autores citados acima.



Livro mais superestimado que você conheceOrlando, de Virginia Woolf. 



Livro mais subestimado que você conheceOs sete mistérios da casa queimada, do nosso Guido Wilmar Sassi.

 

Livro que merece ser adaptado para o cinema: Difícil de responder, um mau livro pode dar um excelente filme, e um excelente livro, um péssimo filme; são dois diferentes meios de expressão.

 

Livro que foi adaptado para o cinema e o resultado foi frustrante: Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. 


Salim Miguel e a esposa, a  escritora Eglê Malheiros.

Livro que você daria de presenteDepende da pessoa. Para Eglê, os poemas de Florbela Espanca. 



Livro que você gostaria de ganharArriscaria um inédito de Fernando Pessoa, aí incluídos seus heterônimos.



Livro que você procura e nunca encontrouUm policial de agora, com a categoria de um Hammet ou Chandler.

 

Maior mérito de um escritor: Compromisso com a vida e olhos atentos para seu tempo, tão complexo e tão injusto. 


 Um grande livro de um grande escritor:
É maldade perguntar isso, cito e logo me questiono, por que não outro? O vermelho e o negro, de Sthendal; Crime e castigo, de Dostoievski; e onde ficam os contos de Tchekov e Os ratos, de Dyonélio Machado? Por que não Cruz e Sousa, Carlos Drummond de Andrade ou Federico Garcia Lorca? Ah, sim, quais retirar para incluir O castelo, de Franz Kafka, e Sobre heróis e tumbas, de Ernesto Sábato?


 Um grande livro de um autor pouco conhecido:
Berlin-Alexanderplatz, de Alfred Döblin.



Livro do qual você esperava gostar e que o decepcionou: Um homem sem qualidades, de Robert Musil. 



Livro do qual você não esperava nada e o surpreendeu: Coração, solitário caçador, de Carson McCullers.


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Depoimentos de Salim Miguel

Minuta de Diego Mendes Sousa


Fonte: ProParnaíba.com

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