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Marx, Hegel e o ocaso da inteligência

Postado por Rilvan Batista de Santana 13/03/2016

Marx, Hegel e o ocaso da inteligência


Parece um detalhe, mas há algo mais grave em curso quando promotores responsáveis pelo pedido de prisão da maior liderança política de seu tempo (para o bem e para o mal, hoje mais para o mal que para o bem) confundem, num ato falho exposto entre a galhofa e a carteirada vazia da erudição, os nomes de Friedrich Hegel e Friedrich Engels.

A confusão de nomes é a prova confessa da confusão de conceitos e ideias incorporadas em uma mesma frase sobre operários que chegam à Presidência e o marxismo. A sentença (semântica, não judicial) é uma mensagem corriqueira de que não é preciso entender a filosofia ou o marxismo para desprezá-los. Por algum motivo esse desprezo daquilo que só sabemos o nome – no caso dos promotores que pedem a prisão de Lula, nem isso – virou moda em tempos recentes, quando lunáticos começaram a desenvolver uma certa paranoia sobre o avanço do regime comunista no Brasil. Era piada, virou coisa séria.

Na infância, aprendemos a associar imagens a palavras antes de articular qualquer reflexão sobre elas. É o que explica, por exemplo, o sucesso entre de programas como o Teletubbies, aqueles bichinhos coloridos da TV que repetiam o nome das cores para crianças em processo de alfabetização.

Em algum momento da vida adulta pulamos a etapa em que podemos citar os 50 tons de uma mesma cor e desconstruir conceitos com outros conceitos. Tese, antítese, síntese. Filosofia, enfim. Também conhecida como aquele exercício démodé de pensar sobre o que se diz.

O descarte desta etapa da vida, coincidente com a vestibularização do ensino, provoca sequelas em qualquer atividade intelectual honesta. E condena o cidadão a passar a vida repetindo frases como numa velha associação de cores. Ou a observar perigos comunistas nas argolas da Olimpíada ou no vermelho do McDonald’s.

De uns tempos pra cá, a falência de um modelo de governo dito popular destravou o constrangimento de quem, em tempos das vacas gordas, associava a paranoia com um sentimento de inadequação com o mundo: o sujeito sentia uma certa vertigem por ver um mundo de referências sólidas se desmanchar com as mudanças inevitáveis da História. Só não conseguia nomear o mal-estar. Esse sujeito cresceu num mundo em que aquilo que deveria fornecer respostas já não cumpre seu papel e a velocidade das transformações é proporcional à ampliação de demandas represadas por barreiras de contenção hegemônicas.

Neste processo, vozes antes abafadas começaram a ganhar visibilidade e a desafiar as hierarquias até então consagradas dos círculos familiares, religiosos e políticos.

A ampliação dos espaços de representação, que resultou num debate a fórceps sobre, por exemplo, ações afirmativas e visibilidade, deu cabo a um processo político inadiável. Este processo sensibilizou o sistema de representação política tradicional a duras penas – não com a radicalidade que o movimento requer, mas como uma contínua e lenta abertura.

Provocou, de outro lado, uma reação organizada de velhos grupos, os órgãos dos velhos comandos. Essa reação começou a se manifestar, aos poucos, nas caixas de comentários de textos na internet. Ali surgiam as primeiras confusões de conceitos de quem dos assuntos debatidos tinha mais medo do que conhecimento. Surgiam, assim, associações desastrosas entre feminismo e nazismo, luta política com ditadura gay, movimento anti-racismo com racismo reverso, etc.

Era um festival de bobagens tamanha que ao interlocutor caberia apenas rir. “São os velhos amedrontados de sempre com a chegada de um novo tempo”, pensávamos.

Eles já estavam ali para denunciar os absurdos da revolução sexual dos anos 60, a degradação moral dos 1970, a anarquia violenta dos 1980, a punição da nossa libertinagem pelo HIV dos 1990, a perdição dos jovens (des)conectados dos anos 2000 e, agora, essa conversa de mundo compartilhado em que “puta, preto e viado” (grifo deles, por favor) têm direito a fala.



Marx, Hegel e o ocaso da inteligência

Fonte: Yahoo Notícias

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