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As condições silenciadas sobre a microcefalia - Fernanda Aranda

Postado por Rilvan Batista de Santana 10/03/2016

As condições silenciadas sobre a microcefalia


O assunto Zika vírus fez cair o manto que cobria um problema de saúde grave, que sempre existiu, mas parecia ficar escondido dos olhos da sociedade.

Seu nome é microcefalia, condição que acomete os fetos durante a fase gestacional e impede o pleno desenvolvimento do sistema nervoso central.

Você pode até achar que no mundo da medicina e da saúde não se fala em outra coisa. Mas o que tem me incomodado profundamente é que muitas coisas sobre a microcefalia não são faladas.

Isso, ao meu ver, deixa margens para o agravamento da situação e para a disseminação de boatos perigosos.

Por isso, após a entrevista exclusiva com o neurologista Cícero Coimbra, que apresentou neste vídeo uma saída contundente para o Zika, volto a este assunto na newsletter de hoje.

O que é?

Bom vamos lá.

O que denota a presença desta condição sobre o desenvolvimento cerebral dos bebês, inicialmente, é o chamado perímetro encefálico do feto.

Nos exames de ultrassom feitos no pré-natal, há suspeita do diagnóstico quando a medição da circunferência da cabeça mostra valores menores do que o esperado para o tempo de gestação.

Segundo o que estipula o governo federal, suspeita-se de microcefalia quando os nascidos apresentam índices inferiores a 32 cm (a cabeça é bem pequenina).

Após a medição, são realizados exames específicos que identificam a presença ou não de lesões compatíveis à microcefalia.

Quando as lesões existem, as limitações na fala, na coordenação motora e no desenvolvimento cognitivo são inúmeras.

Portanto, está justificado o pavor nacional e internacional diante da suspeita de que a picada de um inseto seja o ponto de partida do nascimento de crianças microcéfalas.

Sim, o Ministério da Saúde não tem mais dúvida de que os dois eventos – Zika vírus e microcefalia – estão associados, sendo o vetor da infecção o mesmo mosquito que há anos transmite – impunimente - outros problemas brasileiros como a dengue e a febre amarela.

É, meu amigo.

Em pleno ano das Olimpíadas no Rio de Janeiro, o inseto Aedes aegypt ganhou o status de grande vilão da atual epidemia, fato que também contribuiu para a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretar estado de emergência no mundo.

Só ele?

Já escrevi em outra newsletter – que você pode ver aqui – que o primeiro caso de dengue foi registrado há 33 anos no Brasil. O tempo passou sem que nenhum dos governos conseguisse conter os danos das infecções causadas pelo Aedes.

Ao contrário, né?

A população também não aprendeu a fazer a sua parte na eliminação de criadouros. Os vasos de plantas continuam com água parada, as piscinas das mansões permanecem descobertas.

Voltando para gestão pública, o saneamento básico nas regiões mais pobres também continua não sendo um direito tão básico assim (ainda que, vale lembrar, o Aedes goste de água limpa).

Mas isso não é o único erro que ainda cometemos.

Mais uma vez, olhamos para uma nova doença esquecendo completamente das informações preciosas que conseguiríamos se analisássemos também os doentes.

Por que se ainda não conseguimos responder categoricamente a pergunta “Zika vírus causa microcefalia?” (estar associado é diferente de ser o causador) também ainda não sabemos NADA sobre as características pessoais das mulheres que geraram bebês microcéfalos.

Será que, além de infectadas pelo Zika, outras condições das grávidas também não podem ter contribuído para tal condição?

Qual é o meu ponto aqui.

Microcefalia é um fato que precede a atual infestação de Zika vírus.

E não vejo ninguém ou nenhuma autoridade alertando sobre as outras causas que podem resultar em crianças com este tipo de comprometimento no desenvolvimento.

Obviamente, sem a comprovação, fica impossível elaborar alguma estratégia preventiva sobre isso. E ainda que seja necessário esperar os passos certos da ciência, a prevenção mais ampla poderia sim já estar em curso.

Sei que alguns estudos estão em andamento, muitos liderados por brasileiros. Os pesquisadores estão em campo e no laboratório, sequenciando o genoma do vírus, analisando as crianças nascidas com a já chamada síndrome congênita creditada ao Zika.

O trabalho é de extrema importância para decifrar a nova infecção, que tem o potencial de ser transmitida por transfusão de sangue e relações sexuais desprotegidas.

Mas a experiência prévia com a microcefalia e com outras infecções já mostrou quem são os mais vulneráveis aos vírus e às bactérias.

Por isso, além de terem sido infectadas pelo Zika, seria importante termos outras respostas sobre a condição das mulheres que acabaram mães de bebês com microcefalia.

Que causas são essas?

E você pode perguntar, por que isso seria necessário?

Pois bem.

De acordo com Centers for Disease Control and Prevention (CDC) , dos Estados Unidos, a microcefalia é apenas uma entre diversas malformações que podem acontecer durante a gestação.

Ela pode ser uma condição isolada ou aparecer combinada com outras malformações.

O CDC também destaca que, em muitos casos, é difícil falar em causa única, pois ela pode ser resultante de uma série de fatores ambientais, entre eles má nutrição da gestante, falta de determinados nutrientes, interrupção do recebimento de sangue por parte do feto durante a fase de desenvolvimento, entre outros.

A Nivia de Souza, editora da Jolivi, me lembrou da pesquisa da University College London, publicada 2011.

A UCL publicou um estudo sobre os defeitos congênitos causados pelo cigarro. Ausência de um dos membros, pés tortos, distúrbios faciais e problemas gastrointestinais são os mais comuns.

A microcefalia está entre eles, com risco maior de incidência entre as fumantes de 33%.

Conversei com Dr. Marcos Boulos, médico infectologista e Coordenador do Centro de Controle de Doenças do Estado de São Paulo , e ele confirmou que “convivemos há tempos com a microcefalia antes mesmo do Zika vírus ser notícia”.

Segundo ele, o uso de álcool, de drogas e de outras substâncias psicoativas (remédios inclusos nisso – grifo meu, ok?) durante a gravidez estão associados a um maior número de nascimentos de bebês com esta condição neurológica tão grave.

Outras infecções virais, como rubéola (não confundir aqui com a vacina) e toxoplasmose também estão entre as causas de malformações.

Sem contar que, há anos, a suplementação por ácido fólico por partes das grávidas é apontada como caminho efetivo para reduzir em até 80% os casos de formação inadequada do tubo neural dos bebês, reduzindo os riscos de microcefalia (dados presentes na campanha feita pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia).

Mais recentemente, a vitamina D também despontou como hormônio fundamental do pré-natal por promover ainda mais a proteção do desenvolvimento neurológico dos fetos, conforme explicamos aqui e como o Dr. Cícero também endossou aqui.

Isso significa que a suplementação de vitamina D das mães pode ser uma proteção contra malformações congênitas nos bebês.

Um mundo além do repelente

Recapitulando.

Só hoje, falamos aqui como causas associadas da microcefalia:

1) Má nutrição;
2) Deficiência de nutrientes específicos;
3) Cigarro;
4) Álcool;
5) Substâncias psicoativas;
6) Rubéola;
7) Toxoplasmose;
8) Infecções virais;
9) E agora o Zika vírus.

E qual é a recomendação que permanece mais recorrente no discurso das autoridades nacionais para evitar o nascimento de bebês com comprometimento neurológico?

O uso de repelentes para evitar o Zika – além de evitar gravidez.

E qual é a promessa dada como prevenção para este cenário que tem causado tanto temor na população?

A busca de uma vacina ou remédio para proteger contra o Zika.

Ora, claro que ações importantes e urgentes, mas só elas?

Já que o Zika entra para uma lista (extensa) de causas associadas à microcefalia, não seria no mínimo prudente aproveitar o ensejo e falar das estratégias preventivas que evitam os outros fatores?

Será que isso não contribuiria para nos fortalecer e até evitar o número de casos e seus agravamentos?

Afinal, não é de se suspeitar que talvez, só talvez, sejam essas outras causas que que determinam o fato de algumas mulheres com Zika gerarem bebês microcéfalos e outras não?

Notificação suspeita

Eu sei leitor.

Parece que eu trouxe hoje mais interrogações do que respostas. O Zika ainda está cheio de incógnitas e é natural essa oscilação de informações.

Mas não acho efetivo que, diante de uma nova questão de saúde, seja decretada uma busca desenfreada sobre soluções medicamentosas para a doença, esquecendo completamente do que é o princípio da prevenção e da redução significativa de danos.

A própria capacidade do Brasil de registar suas epidemias também traz dúvidas sobre que caminhos seguir.

Hoje, segundo o último relatório do Ministério divulgado no dia 01/03, estão em investigação 4,2 mil casos de microcefalia associados ao Zika, sendo que 641 foram confirmados para microcefalia.

Desde que os trabalhos do Ministério começaram a investigar o Zika, 1.046 casos de microcefalia foram descartados por não apresentarem causas infecciosas.

Porém, se nestes casos a causa não foi associada à picada do Aedes, então essas mulheres foram alvo de outros problemas que também terminaram em microcefalia, certo?

Não vamos preveni-los?

Sem contar que tantos registros foram acumulados após a determinação oficial de que as notificações de bebês microcéfalos passassem a ser obrigatórias. Antes não eram.

Velhos erros

Quando as autoridades se propõem a olhar as doenças por meio das informações dos doentes, alguns caminhos preciosos aparecem.

Com a dengue, por exemplo, deveria ter sido assim. O próprio Ministério da Saúde divulgou um estudo em 2011 afirmando que 54% das pessoas que morreram por causa da infecção eram diabéticos e hipertensos.

Você ouviu bem.

Tudo indica que um corpo diabético é muuuuuuuito mais vulnerável aos efeitos da picada do Aedes.

Ou seja: se, simultaneamente às forças tarefas que foram lançadas para enfraquecer o mosquito, a gente tivesse aprendido a fortalecer o corpo contra problemas estritamente ligados aos hábitos alimentares, muitas mortes por dengue poderiam ter sido evitadas.

E para o Zika e para as mulheres grávidas? Vamos continuar só indicando repelente até quando?

Já neste material respondemos algumas dúvidas de leitores sobre o Zika ( leia).

Até a próxima.


Cuide-se.

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