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ANÁLISE DISCURSIVA DE MACUNAÍMA - Renan Bini

Postado por Rilvan Batista de Santana 29/03/2016

ANÁLISE DISCURSIVA DE MACUNAÍMA: O MODERNISMO COMO PRECURSOR DO DESENVOLVIMENTO DA IDENTIDADE CULTURAL BRASILEIRA
publicado em literatura por Renan Bini

O movimento modernista brasileiro (1922 – 1975) caracterizou-se pela busca à Identidade Cultural Nacional. Até então, o que se tinha de produção cultural brasileira, embasava-se nas escolas literárias europeias. Dentre as produções literárias, destaca-se o livro Macunaíma de Mário de Andrade. A partir da obra, torna-se perceptível o quanto o movimento representou na busca pela identidade cultural, e a quebra de paradigmas na luta contra o racismo nas gerações atuais. Macunaíma representa a evolução na forma como os índios eram apresentados, antes de forma utópica e romântica com sua cultura preservada, agora de maneira debochada, e costumes afetados pela ideologia dominante na época. Mário de Andrade compôs sua rapsódia utilizando-se do hibridismo cultural entre os povos indígenas, africanos e europeus. Para isso, adaptou folclore, lendas, costumes, culinária, plantas e bichos de todas as regiões do Brasil, misturando todas as manifestações culturais e religiosas, objetivando criar um aspecto de unidade nacional, que diverge ainda hoje de nossa realidade.

O batizado de Macunaíma, Tarsila do Amaral.

Macunaíma é uma obra do escritor brasileiro Mario de Andrade (1893 – 1945), um dos precursores do Modernista no Brasil, sendo também autor de Amar, Verbo Intransitivo e A Escrava que não é Isaura, dentre outros. Publicado originalmente em 1928, o livro faz parte da primeira fase do modernismo.

A obra se destaca pela originalidade da forma como descreve o povo indígena, divergindo de José de Alencar, por exemplo, em Iracema: “A virgem dos lábios de mel” (1865, Romantismo). Apesar de as obras fazerem parte de outro contexto histórico e período literário, Macunaíma representa a evolução na forma como os índios eram apresentados: antes de forma utópica e romântica com sua cultura preservada, agora de maneira debochada, e costumes afetados pela ideologia dominante na época.
Nesse aspecto, considerando o contexto em que a obra se insere, há relevância intrínseca ao definir o olhar ao objeto de análise, o presente artigo buscará por meio da Análise do Discurso de vertente francesa e da teoria dos estudos culturais, compreender a situação empírica, os interdiscursos, as condições de produção e as circunstâncias de enunciação da obra, do movimento que ela representa e suas influências na construção da identidade cultural do povo brasileiro.

De acordo com Orlandi (2013), a partir do estudo da AD, compreende-se, o homem em sua capacidade de significar e significar-se. Por meio da teoria, concebe-se a linguagem como mediação (discurso) necessária entre o homem e a realidade natural e social. Nesse aspecto, os discursos dominantes modelam diretamente o futuro do grupo social ao qual inserem-se (continuidade ou transformação do homem e da realidade em que ele vive).

Assim, considerando a linguagem não apenas como instrumento de mediação entre os seres humanos, mas principalmente como fator determinante à construção subjetiva/cultural e ao futuro de determinado povo, o presente trabalho caracteriza-se como um estudo da maneira em que as ideologias e as convenções sociais, por meio dos interdiscursos, influenciaram na construção da identidade cultural brasileira e como isso evidenciou-se na literatura, especificamente na obra e no protagonismo de Macunaíma.

Nesse aspecto, por meio da análise da convenção social e ideológica real, o estudo analisará parte dos discursos apresentados na rapsódia (considerando a ficção como desdobramento da visão de Mário de Andrade sobre o contexto sócio-histórico-cultural do início do século XX), aplicando-os à AD francesa, considerando as interdiscursividades e o estado de passividade social dos personagens indígenas como desdobramentos do discurso persuasivo da cultura dominante na época.

Considerando a análise de gêneros literários, segundo Mikhail Bakhtin (1998), o gênero romance não deve ser visto somente como um encontro de linguagens, de tempos históricos distantes e de civilizações, pois, desta maneira, não teriam oportunidade de se relacionarem. A partir deste ponto de vista, a literatura representa uma tentativa de representar a vida, embora a liberdade do romancista, na representação da vida, seja diferente daquela que o historiador exerce, portanto, literatura e história se complementam.

A análise de Discurso de vertente francesa considera a linguagem como mediação necessária entre sujeito e realidade natural e social. O discurso possibilita a permanência e a continuidade ou o deslocamento e a transformação do sujeito e do contexto ao qual está inserido. Transformação essa, que evidencia-se de forma gritante a partir do contato entre os protagonistas indígenas e a cidade de São Paulo.

De acordo com Orlandi (2013), a AD considera o sujeito e sua história, os processos e as condições de produção da linguagem, por meio da análise da relação estabelecida pela língua com os falantes e as situações em que o dizer é produzido. Assim, o analista de discurso relaciona a linguagem à exterioridade (contexto, situação empírica, interdiscurso, condições de produção, circunstâncias de enunciação).

Para a autora, a Análise do Discurso objetiva a compreensão de como os símbolos constituem-se e produzem sentidos, analisando os gestos de interpretação que ela considera como atos no domínio simbólico. A AD trabalha os limites e os mecanismos da interpretação, como parte de seus processos de significação. Considerando sujeito e exterioridades, para a AD, o sujeito linguístico-histórico é constituído pelo esquecimento e pela ideologia. Assim, a análise consistirá não em identificar “verdades ocultas” na rapsódia, mas sim, por meio da análise dos pressupostos e da associação às exterioridades, identificar as influências histórico-contextuais e ideológicas na formação do discurso; no processo ao qual o enunciador absorve-o em sua subjetividade esquecendo a real autoria dos ideais apresentados, bem como nos gestos de interpretação que o constituem.

MODERNISMO E MODERNIDADE

De acordo com Thompson (1998), com o desenvolvimento de uma variedade de instituições de comunicação a partir do século XV, os processos de produção, armazenamento e circulação têm passado por significativas transformações. Em virtude deste desenvolvimento, não apenas produtos, como também ideologias, foram produzidas e reproduzidas em escala sempre em expansão. Ideias tornaram-se mercadorias que podem ser compradas e vendidas, e tornaram-se acessíveis aos indivíduos dispersos no tempo e no espaço. De forma profunda e irreversível, o desenvolvimento tecnológico transformou a natureza da produção e do intercâmbio simbólico no mundo moderno.

Friedrich Nietzsche (2001), no século XIX, anunciou a morte de Deus em A gaia ciência (1882). Ao afirmar que os homens mataram a Deus, o filósofo alemão atentou que um novo homem surgia, superando a si próprio, ou seja, um super-homem. Ao criticar a visão platônica da existência de dois mundos e valorizando o pensamento sofista da busca de explicações científicas e não mitológicas à complexidade humana (pressupondo que o cristianismo ocidental nada mais é do que a interpretação dos ideais propostos por Platão e Sócrates), Nietzsche evidencia a ruptura que a modernidade introduz na história da cultura com o desaparecimento dos valores absolutos, das essências e do fundamento divino.

Assim, analisando a modernidade a partir da visão da AD sobre a propagação das ideologias e dos interdiscursos e a capacidade de como os discursos advindos da cultura dominante persuadem o meio, entende-se que as culturas detentoras dos insumos tecnológicos utilizaram-se destes mecanismos para sobrepor seus aspectos culturais e visão de mundo.
Segundo Guberman (2015), nas duas primeiras décadas do século XX, surge no Brasil o modernismo. Na época, o país atravessava um período de instabilidade econômica, social e política. A proclamação da República, em 1889 não trouxe o desenvolvimento esperado. Por volta de 1904, começa a industrialização no Brasil, entretanto, somente após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), observa-se um considerável crescimento industrial e uma efetiva urbanização no país. As diversas crises resultam na Revolução de 30, que permite a ruptura com a elite formada, em sua maioria, por latifundiários.

Além da inovação na forma de caracterizar o povo indígena, Mário de Andrade também inova ao desenvolver seu texto com linguagem totalmente coloquial (oposto dos períodos literários anteriores) e apesar da desvalorização deste, provavelmente a intenção do autor e do movimento (modernismo) é apontar a necessidade da criação de uma identidade cultural brasileira, já que na época ainda valorizava-se muito a Europa (cultura, estilo literário, música, educação, etc.), mesmo o Brasil sendo constituído também por índios e descendentes de africanos, por isso Macunaíma está repleto de personagens folclóricos, palavras africanas e indígenas, e o hibridismo cultural.

Para Hall (2006), o próprio conceito com o qual estamos lidando, “identidade”, demasiadamente complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido na ciência social contemporânea para ser definitivamente posto à prova. Como ocorre com muitos outros fenômenos sociais, é impossível oferecer afirmações conclusivas ou fazer julgamentos seguros sobre as alegações e proposições teóricas que estão sendo apresentadas.

A partir do hibridismo, Mário de Andrade mesclou real e fantasioso (ora apenas na imaginação de Macunaíma, ora como se fosse realidade). Assim, o escritor compôs sua rapsódia adaptando o folclore, lendas, costumes, a culinária, plantas e bichos de todas as regiões do Brasil, misturando todas as manifestações culturais e religiosas, objetivando criar um aspecto de unidade nacional, que diverge ainda hoje de nossa realidade.

MACUNAÍMA

De acordo com Guberman (2015), no início do século XX os escritores latino-americanos deixaram de tratar o índio de uma forma documental, para penetrar na raiz mítica, por meio da linguagem do
próprio índio, salvando-o, assim, do anonimato imposto pela história oficial.
Macunaíma, “o herói sem nenhum caráter” incorpora os interdiscursos do típico brasileiro a partir da descrição sarcástica do autor. Na sociedade é comum encontrarmos segmentos que valorizam esta “ausência” de índole, por isso é herói, mas sem nenhum caráter. Além de feio, preguiçoso e medroso (p 13-14) ele também é mentiroso, exemplo disso é quando engana o curupira (p 20) e é vingativo (jura vingança por terem-lhe oferecido apenas as tripas para comer da caça que ele encontrou – p 15).
O menino quando criança era chato e mimado, se não fizessem suas vontades chorava. Para confirmar destaca-se o seguinte trecho: “E pediu para a mãe que largasse da mandioca ralando na cevadeira e levasse ele passear no mato. A mãe não quis porque não podia [...] choramingou o dia inteiro” (p 14).

A saída de Macunaíma para São Paulo é o início da transformação pessoal do individuo e indicio da perca de identidade cultural indígena, em que há a valorização do capital: “Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro” (p 28). Sua saída e a busca pela “Muiraquitã” também são exemplos do êxodo rural e a industrialização da época (após a Primeira Guerra Mundial o País diminuiu consideravelmente sua exportação de café e houve a necessidade de investir na indústria primária, nesta época ocorreu um rápido crescimento urbano). De acordo com Guberman (2015), O choque entre os povos indígenas e os denominados “civilizados” deveu-se às diferenças ideológicas, religiosas, culturais e históricas. Os índios e seus descendentes diretos (como os caboclos, os ribeirinhos, os homens do interior), ainda hoje, convivem harmoniosamente com a natureza e parecem confundir-se com ela (GUBERMAN, 2015, p. 87).

Na época em que Macunaíma foi publicado, a sociedade estava em um período de constantes mudanças e revolução: Além do aumento de indústrias e comércios no Brasil, também houve o desenvolvimento dos meios de comunicação e de transporte, fatos esses, que influenciaram o fim da política “café com leite” (alternância na presidência entre São Paulo e Minas Gerais), o aumento de pensamentos que conflitavam as classes dominantes na imprensa e o próprio modernismo.

A partir daí, a obra mostra como as ideologias dos grandes centros se sobrepuseram aos ideais indígenas. Nas sociedades capitalistas, como o Brasil, os interesses particulares dominantes são os das classes dominantes. O Estado legisla para a manutenção da exploração do trabalho e na “moldagem” das individualidades, como observa-se em Macunaíma – indivíduo que faz do egoísmo e do individualismo sua opção de vida − que beneficiem o regime político. Pêcheux (1997) pontua que Só por sua existência, todo discurso marca a possibilidade de uma desestruturação-reestruturação dessas redes e trajetos: todo discurso é o índice potencial de uma agitação nas filiações sócio-históricas de identificação, na medida em que ele constitui ao mesmo tempo um efeito dessas filiações e um trabalho (mais ou menos consciente, deliberado, construído ou não, mas de todo modo atravessado pelas determinações inconscientes) de deslocamento no seu espaço (PÊCHEUX, 1997, p. 56).

Nesse sentido, considerando as desigualdades econômicas consequentes das disparidades culturais regionais e advindas dos divergentes papéis sociais que compõem o sistema, é que surgem interdiscursos que desvalorizam os ideais do “bom sujeito” nas práxis humanas, e por meio das contradições, valorizam a instalação da resistência e da rebeldia, evidenciadas na obra, na figura de Macunaíma. Por isso, a ideologia dominante precisa, o tempo todo, forjar novas formas de discurso, na tentativa de busca do consenso generalizado do papel do Estado como “democrático” e “neutro”, diante da natureza humana egoísta.

Ainda considerando os interdiscursos vigentes na época, a obra exemplifica o contexto racista e a “superioridade” estética dos traços europeus, quando Macunaíma e seus irmãos tomam banho em águas encantadas. O autor demonstra que os próprios índios tinham preconceito sobre eles mesmos, através de adjetivos preconceituosos ditos pelo próprio Macunaíma. Andrade (2004) mostra que os irmãos consideraram a água “santa”: “Aquele buraco na lapa era a marca do Sumé, do tempo em que andava pregando o evangelho de Jesus pra indiada brasileira” (o trecho da página 40 mostra como a cultura e o folclore indígena foram afetados pela ideologia europeia, e como os nativos conseguiram adaptá-la incorporando novos conceitos a sua cultura).

[...] Quando o herói saiu do banho estava branco louro e dos olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas. Nem bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão de Sumé. Porém a água já estava muito suja da negrura do herói e por mais que Jiguê esfregasse feito maluco esfregando água pra todos os lados só conseguiu ficar da cor do bronze novo. Macunaíma teve dó e consolou: _ Olhe, mano Jiguê, branco você ficou não, porém pretume foi-se e antes fanhoso que sem nariz. Maanape então é que foi se lavar, mas Jiguê esborrifara toda a água encantada para fora da cova. Tinha só um bocado lá no fundo e Maanape conseguiu molhar só as palmas dos pés e das mãos. Por isso ficou negro bem filho da tribo dos Tapanhumas. Só que as palmas das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na água santa (ANDRADE, 2004, p. 40).

A citação acima é exemplo da ideologia predominante na época: o racismo, não só dos brancos em relação aos negros e indígenas, mas também dos próprios que consideravam-se inferiores, inclusive definindo sua cor como “sujeira”. Além dessa passagem, a obra apresenta várias frases de Macunaíma, que evidenciam a perda da identidade cultural indígena e a valorização da cultura europeia, até mesmo na religião, como por exemplo: “Valei-me Nossa Senhora, Santo Antonio de Nazaré!” (p. 54).

É nesse aspecto que, de acordo com Orlandi (2013), entendemos o conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determinam os dizeres. Na obra, Macunaíma e seus irmãos não são os autores dos ideais que defendem e nem poderiam ser. Os interdiscursos da superioridade da cultura “branca” prevalecem-se diante dos indígenas, e estes passam a incorporar esses dizeres à cultura e à visão de mundo de forma natural. E isto é efeito do interdiscurso: “é preciso que o que foi dito por um sujeito específico, em um momento particular se apague na memória para que, passando para o ‘anonimato’, possa fazer sentido em ‘minhas’ palavras” (ORLANDI, 2013, p. 33).

Este “esquecimento” produz em nós a impressão da realidade do pensamento. Essa impressão, que é denominada ilusão referencial, nos faz acreditar que há uma relação direta entre o pensamento, a linguagem e o mundo, de tal modo que pensamos que o que dizemos só pode ser dito com aquelas palavras e não outras, que só pode ser assim. Ela estabelece uma relação “natural” entre palavra e coisa. Mas este é um esquecimento parcial, semi-consciente e muitas vezes voltamos sobre ele, recorremos a esta margem de famílias parafrásticas, para melhor especificar o que dizemos. É chamado esquecimento enunciativo e que atesta que a sintaxe significa: o modo de dizer não é indiferente aos sentidos (ORLANDI, 2013, p. 35).

O capítulo V Piaimã (p. 39-48) apresenta uma das passagens mais interessantes do livro, quando ao chegar em São Paulo, Macunaíma e seus irmãos se deparam com a “civilização”, e num primeiro contato eles interpretam a cidade a partir de sua própria cultura: “Que mundo de bichos! Que despropósito de papões roncando, mauaris juruparis sacis e boitatás” (p. 42), a frase dita pelo protagonista mostra como as “máquinas” e a quantidade de pessoas (na época São Paulo possuía 1 milhão de habitantes) “assustaram” Macunaíma, e este associou todo aquele “mundo estranho” a seu folclore: “De manhãzinha ensinaram que todos aqueles piados berros cuquiadas sopros roncos esturros não eram nada disso não, eram cláxons campainhas apitos buzinas e tudo era maquina” (p. 43).

Também no primeiro contato do “herói” com São Paulo, Andrade demonstra como a religião indígena foi desvalorizada e afetada no choque cultural com a grande cidade: “Três cunhãs deram muitas risadas e falaram que isso de deuses era gorda mentira antiga, que não tinha deus não” (p. 42). Sobre o choque cultural entre indígenas e os grandes centros, Guberman (2015) argumenta:

O contraste entre a educação abstrata ocidental e a educação material dos povos primitivos possibilita uma percepção mágica da realidade, quando o autor convive com o mundo da magia de seus ancestrais. O índio pensa em imagens; não vê como as coisas se processam, mas as leva sempre para outras dimensões, nas quais vemos desaparecer o real e surgir o sonho, onde os sonhos se transformam em realidade tangível e visível (GUBERMAN, 2015, p. 89).

Outra parte interessante da obra encontra-se no capítulo IX: Carta pras Icamiabas (p 71-81). Aqui, após várias aventuras o herói retorna a São Paulo e resolve escrever para as “Icamiabas” (mulheres de sua aldeia). Na carta, além de contar sua busca pela “Muiraquitã ” e suas aventuras, Macunaíma descreve de forma sátira como é a vida na cidade (muitas pessoas, meios de transporte, cinema, lojas, etc.), e as “máquinas”. Também critica a sociedade (desigualdades, saúde, política) e o exagerado capitalismo paulista, tudo isso como se fosse “imperador”, e as amazonas, suas “súditas”.

Ainda nessa parte do livro, Macunaíma escreve a carta com uma linguagem diferente da que costuma falar, apesar de alguns erros, o coloquialismo da lugar à forma culta, e Andrade por meio de seu personagem, critica a discrepância entre a oralidade e a escrita: “Falam numa língua e escrevem em outra” (p 80). Em “a Pacuera de Oibê” (p 131-140), o herói e seus irmãos resolvem voltar “pra querência deles”, mas voltam transformados, o índio que assustou-se em seu primeiro contato com a cidade grande, agora volta para Amazonas triste: “Enxugou a lágrima, consertou o beicinho tremendo”, e leva consigo o que mais o entusiasmou na sociedade paulista: “O revólver Smith-Wesson, o relógio Patek e o casal de galinha Legorne” (p 131).

Outra inovação de Andrade é perceptível no epílogo (161-162), neste o leitor fica sabendo que a história foi contada ao autor pelo papagaio de Macunaíma, assim Mário de Andrade seria um narrador personagem, mas ausente, já que ele só aparece no final do livro, a obra então aparente ter seu foco narrativo em terceira pessoa, mas considerando o epílogo, esta teria seu foco narrativo em primeira pessoa:

Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toques rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói da nossa gente”. Tem mais não (ANDRADE, 2004, p. 162).
A partir desta breve análise do livro Macunaíma, considerando além da rapsódia, o contexto histórico da época e o próprio movimento modernista, é possível entender que a principal preocupação de Mário de Andrade era a de buscar uma identidade cultural brasileira, que na época era afetada pela “importação” de um modelo cultural europeu, e subentende-se que este não era cabível à realidade oposta do país.

Trazendo as ideias do livro para o contexto atual (não fazendo uma releitura da rapsódia, já que para isso a obra e o atual contexto histórico necessitariam de uma análise bem mais detalhada), é perceptível que a problemática modernista da época ocorre novamente hoje: a globalização anula a “identidade nacional” e unifica as nações, havendo atualmente a perda dessa singularidade não só no Brasil, mas na maioria dos países, ocorrendo isso devido à evolução dos meios de comunicação, a indústria cultural e a alienação empregada na mídia a favor das ideologias dominantes.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio do objeto linguístico, simbólico e discursivo – a obra Macunaíma –, incidiu-se análise de alguns enunciados relacionando as formações discursivas às ideológicas que regem as relações responsáveis pelos efeitos de sentidos produzidos no material. Diante do contexto histórico em que se insere a obra literária, coube aos analistas, a partir da AD francesa, a determinação dos efeitos de sentido decorrente dos ditos e não-ditos da linguagem, relacionando-os às condições de produção dos enunciados eleitos para análise a partir da teoria dos Estudos Culturais. No caso, a época de transição paradigmática considerando o advento da modernidade, o início da propagação ideológica e sobreposição cultural em massa por meio de insumos tecnológicos, o movimento modernista latino-americano, a antropofagia e a busca de uma identidade cultural nacional.

De acordo com Orlandi (2013), metáforas, metonímias, polissemias e interdiscursos configuram sentido e perpassam o sujeito-autor. O processo de produção de sentidos se sujeita a deslizes (à deriva do efeito metafórico), havendo sempre um “outro” (sentido) possível. Essa duplicidade (considerando o dito e o não-dito à análise objetiva estruturalista, e, a partir daí à análise das possíveis interpretações semânticas em relação às exterioridades), faz referir um discurso a outro, para que ele faça sentido. Na Psicanálise, isso envolve o inconsciente, e na AD Francesa, envolve também a ideologia, pensando a relação material do discurso à língua e a relação da ideologia ao inconsciente.

Nesse aspecto, admite-se que os integrantes inseridos em determinado contexto, relacionam-se e organizam-se por meio da linguagem, mediando homem e a realidade natural e social. A partir disso, determina-se a continuidade ou transformação do contexto em que vivem. Considerando os sujeitos nela inseridos e seu léxico, – estruturado não apenas na linguística, mas principalmente nas exterioridades e nas ideologias –, a AD francesa desponta-se como importante ferramenta para entender a historicidade social por meio da análise do objeto simbólico Macunaíma: sendo as ideologias dominantes do início do século XX absorvidas pela sociedade, moldando-a por meio do esquecimento (dos interdiscursos), pressupõem-se, que, a análise discursiva de um objeto determinado, permite a compreensão global do mesmo a partir da associação do que é perlocutado à história, à cultura e às ideologias.


Fonte:

http://obviousmag.org/egregora_e_alteridade/2016/analise-discursiva-de-macunaima-o-modernismo-como-precursor-do-desenvolvimento-da-identidade-cultura.html

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