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CONTEMPLAÇÃO DOS DIAS - Florisvaldo Mattos

Postado por Rilvan Batista de Santana 27/02/2016

CONTEMPLAÇÃO DOS DIAS

(À poeta Myriam Fraga, in memoriam)
Florisvaldo Mattos

Quando a luz da inocência nos sequestra
e o vento beija a face das jaqueiras,
é quando de alma saio porta afora,
para deslumbre inaugural dos olhos

voltados para a terra, enfeitiçados.
Paro e começo a vislumbrar meu mundo.
Convido-os a ir comigo pela aurora
e por clareiras de fecundos vales;

por colinas, encostas e ladeiras,
de onde escorre um lençol de suavidade,
que cinge, cobre e invade corpos e almas,
faiscando em cores quando o sol se põe.

Vou por caminhos vastos de mim mesmo.
Entre flores silvestres e tabuas,
vivo, como se o sol tivesse mãos
e o dia respirasse nos meus passos.

Caminho pela tarde e já descubro
um concerto de deuses em simpósio:
Diana à frente a caçar perdizes; Ceres
nua, junto à água, na arte de semear.

A inocência possui muitos idiomas,
que fraseiam manhãs, tardes e noites
e a cada um dos sentidos condecoram
com medalhas de amor da natureza.

Adornando belíssimo silêncio,
logo nos prende a música dos ramos:
um papagaio remete da forquilha
urgentes telegramas pela brisa;

a voz de guriatãs por entre folhas;
a do sabiá (que digam os que o ouviram)
e a dos curiós no arame das pastagens,
ou ameaças de carcarás bravios.

Convido-os mais, a ver da serra, ao longe,
alta e azul, o recorte melancólico,
com que, serena, rege as urdiduras
do despencar da chuva sobre os campos.

E, acima, o céu de azuis e claridades,
ou de repente céu de negras nuvens,
onde se tece o cipoal de crenças,
que faz o homem dormir mais sossegado.

Uma extensão de flores, um jardim,
me faz lembrar o poeta dos aromas,
o de ardências sensuais e de crepúsculos,
que um dia me levou ao belo e ao mar.

Ah, venham conhecer o mar de verdes
e este céu de ternura que nos cobre.
Tudo nos favorece gentilmente
o correio das brisas delatoras.

Louros e sapucaias, calmos cedros,
maçarandubas e jequitibás,
quantas vezes beijei suas raízes,
ao calor de manhãs, sempre insensíveis

ao arbítrio das tardes e das noites.
Recolhem seu mutismo venerável
e o guardam no candor da consistência,
ante a inviolada paz que lhes dá vida.

Vibro. Quero sentir na plenitude
essa glória de ver e contemplar
o luxo de existir que um poeta viu
em clareira de deuses e anjos farta.

Daqui percebo o sol se despedindo
das montanhas, das águas e das pedras
e, entre nuvens de cores, vindo a noite,
para nutrir de sonhos quem trabalha.

Atentem. Agora não mais verão
o desfraldar dos ecos e das flores;
um galope de luzes nos visita
e se abre em cortinado o firmamento.

E nele, em cima, o terno olhar da lua,
igualmente os de estrelas piscadores,
que, longe, o homem há milênios ignoram,
sem dele nunca serem ignorados.

Amo esta terra, doce, única e funda,
que enche as amadas horas de meus dias
com as instantâneas formas debuxadas
no claro céu, nos campos e nos montes;

vivas, na música que os rios cantam,
até mesmo no sopro útil e rude
forjado em búzio, em cobre ou alumínio,
que assalta as tardes, alertando as gentes.

(SSA/BA,15/02/2016)

Fonte: ALITA

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