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Quilombo de Camburi - BAOBÁ

Postado por Rilvan Batista de Santana 29/01/2016

Quilombo de   Camburi 

Durante a Colônia e o Império, a fuga em massa de escravos dava origem, quase sempre, à constituição de quilombos localizados, via de regra, em áreas de difícil acesso. A Ordem Real de 6 de março de 1741 definia quilombo como qualquer grupo escondido com mais de cinco escravos fugidos.
A região de Ubatuba e Parati concentra diversas comunidades reconhecidamente remanescentes de quilombos, formadas, em sua maioria, por escravos fugidos das fazendas de café de São Paulo e do Rio de Janeiro no século XIX.
Até a década de 1960, assim como a população local indígena e caiçara, essas comunidades viviam de forma autônoma por meio da pesca, da caça, da coleta e da agricultura de subsistência, numa região que permaneceu praticamente abandonada após o declínio da produção cafeeira.
No entanto, a construção da rodovia BR 101, a Rio-Santos, na década de 1970, alterou profundamente a vida da região, que passou a receber um grande fluxo de turistas, mas também de especuladores imobiliários e grileiros, exercendo violenta pressão sobre o direito de posse da terra das comunidades. Ao mesmo tempo, as iniciativas governamentais de proteção da natureza, com a criação do Parque Nacional da Serra da Bocaina (1972) e do Parque Estadual da Serra do Mar e Núcleo Picinguaba (1977), ao estabelecerem restrições ambientais, tolheram o modo de vida tradicional das comunidades e algumas de suas fontes de renda.
No sertãozinho da praia de Camburi, em Ubatuba, fronteira com o município de Parati, resiste uma comunidade quilombola, cuja origem tem duas versões, provavelmente complementares. Segundo depoimento oral de seus moradores, um grupo de escravos, liderados por uma senhora de nome Josefa, habituada a caçar bichos no mato, refugiou-se numa gruta no alto de um morro, hoje conhecida como Toca da Josefa, a qual teria dado origem à formação do quilombo. Outra versão, que consta em manuscritos de época, indica a existência no local da Fazenda Cambory (1798-1855), que contava com um grande número de escravos e produzia cana-de-açúcar e café. Depois da abolição da escravatura e da decadência do café, a fazenda foi abandonada pelos proprietários.
Na década de 1970, boa parte das terras ocupadas pela comunidade quilombola de Camburi passou a fazer parte da área de proteção ambiental, estando sujeita às proibições de corte de madeira e de práticas de agricultura e extrativismo vegetal. Posteriormente, com a construção da rodovia Rio-Santos, acirraram-se os conflitos pelos direitos de posse na região. Fato é que, nessa época, cerca de 80% dos terrenos, incluindo aqueles que davam frente para o mar, encontravam-se nas mãos de dois grandes proprietários; quilombolas, assim como muitos caiçaras, viram-se obrigados a ocupar as áreas recuadas, próximas às encostas das montanhas.
Atualmente, o quilombo de Camburi é constituído por cinquenta famílias, que totalizam cerca de 230 pessoas ligadas entre si por laços de parentesco, as quais ocupam a região há mais de cento e cinquenta anos. A pesca é sua principal fonte de sobrevivência. Alguns moradores ocupam-se da fabricação artesanal de cestos e balaios, mas nem sempre conseguem comercializá-los, enquanto outros optaram por trabalhar na construção civil ou como caseiros em residências de veraneio.
Além de enfrentarem graves problemas de transporte, assistência médica e saneamento básico, os quilombolas de Camburi permanecem, desde a década de 1960, quando iniciaram seu processo de reconhecimento, sem titulação de suas terras e numa situação de indefinição territorial. Para lutar pela demarcação de seu território e por melhores condições de vida para seus moradores, foi fundada em 2001 a Associação dos Remanescentes de Quilombo do Camburi.
Fonte: capítulo “Quilombo de Camburi”, página 154 a 159, do livro O Litoral em Dois Tempos: uma viagem em torno do relatório da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo – de Santos a Ubatuba – 1915 – 2015, da 

Editora Neotropica. Com textos da pesquisadora Glória Kok e do escritor Alberto Martins e fotografias de João Luiz Musa.
                                          

****



O LITORAL EM DOIS TEMPOS:
DE SANTOS A UBATUBA
1915 – 2015



Serra do Mar

(crédito: João Musa)


Em 1911, a Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo (CGGSP) iniciou o projeto de mapear o litoral do estado de São Paulo, em duas etapas: litoral sul e litoral norte, tendo como ponto de partida a cidade portuária de Santos (SP). Deste trabalho, dois relatórios distintos foram produzidos, Exploração do Litoral – 1ª Seção: Cidade de Santos à fronteira do Estado do Rio de Janeiro e Exploração do Litoral – 2ª Seção: Cidade de Santos à fronteira do Estado do Paraná, publicados, respectivamente, em 1915 e 1920.

Do primeiro relatório, sobre o litoral norte, que se ocupa o livro O Litoral em Dois Tempos: uma viagem em torno do relatório da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo – de Santos a Ubatuba – 1915 – 2015, da Editora Neotropica, a ser lançado em São Paulo, no dia 1º de dezembro, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

A missão tinha como objetivo a coleta de dados que incluía, além da elaboração de mapas, tabelas de coordenadas astronômicas e declinações magnéticas, cálculos de distâncias e levantamentos topográficos, a descrição precisa de praias, ilhas, rios, portos, canais, ancoradouros, e um olhar atento para as condições de vida dos caiçaras, suas povoações, meios de subsistência e a rede de transportes de que dispunham.

O Litoral em Dois Tempos traz as imagens produzidas em 1912 pela equipe da CGG, tratadas digitalmente para o projeto, num diálogo com as atuais, produzidas entre 2014 e 2015, pelo fotógrafo paulistano João Luiz Musa. A intenção é destacar as paisagens mais significativas do percurso, além de refazer o caminho do viajante contemporâneo, cruzando a Serra do Mar, descendo à cidade de Santos e seguindo até Ubatuba. A fotografia surge como um alargamento da percepção textual e linguística da palavra, na tentativa de mostrar as relações entre a comunidade e a sociedade, a natureza e a cultura, e em como as relações sociais, além da intervenção das tecnologias, alteram os cenários, construindo novas potencialidades para o imaginário individual e coletivo, durante estes cem anos.

Em dez capítulos, o livro propõe um roteiro de leitura que passa pelas localidades de Santos, Guarujá, Bertioga, Alcatrazes, São Sebastião/Ilhabela, Caraguatatuba, Ubatuba, Ilha Anchieta e Camburi – acrescidos de um pequeno ensaio intitulado “Território caiçara” – compondo um panorama interdisciplinar, no qual texto e imagem dialogam com a história e os costumes de cada região.

Obra publicada com o apoio da Lei Rouanet, O Litoral em Dois Tempos reproduz fotos em P&B, realizadas por João Scarazzato em 1912, a serviço da CGG, tendo como contraponto fotografias coloridas de autoria de João Musa, feitas entre 2014 e 2015. Ao final do volume, o leitor encontra um apêndice com a história da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo e algumas de suas importantes expedições.

SOBRE A COMISSÃO GEOGRÁFICA E GEOLÓGICA DE SÃO PAULO (1886-1931)

Criada em 1886 pelo Governo Imperial do Brasil, a Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo (CGGSP), nasce da necessidade política e econômica em atender às demandas da expansão cafeeira da província de São Paulo, na segunda metade do século XIX. Formada por pesquisadores brasileiros e estrangeiros – o engenheiro civil Theodoro Sampaio, os engenheiros de minas Francisco de Paula Oliveira e Luiz Felipe Camargo de Campos, e o botânico suíço Alberto Löfgren, entre outros –, a CGG contou com o apoio da elite paulistana que buscava, por meio da valorização e difusão do conhecimento científico, incentivar o desenvolvimento econômico, a urbanização e o florescimento da “civilização moderna” em regiões desconhecidas.

Extinta em 1931, a CGGSP foi anexada à Secretaria de Viação e Obras Públicas. Nos seus 45 anos de existência, produziu 33 relatórios, 22 boletins, setenta mapas e, além de valiosa documentação administrativo-científica e centenas de fotografias, cerca de trinta fitas cinematográficas, ainda hoje desaparecidas. A Comissão Geográfica e Geológica deu origem a vários centros de pesquisa científica em São Paulo, tais como o Instituto Geológico, o Instituto Geográfico e Cartográfico, o Instituto de Botânica, o Instituto Florestal, a Fundação para a Conservação e a Produção Florestal do Estado de São Paulo, o Centro Tecnológico de Hidráulica e Recursos Hídricos, o Instituto Astronômico e Geofísico, o Museu Paulista, o Museu de Zoologia e o Museu de Arqueologia e Etnologia.


SOBRE A EDITORA NEOTROPICA

A Editora Neotropica se vale de múltiplos meios para produzir conteúdo nas áreas de meio ambiente e história do Brasil. Livros, documentários, eventos e ebooks são os seus suportes. Ciência e cultura são os seus objetos de trabalho. A Editora Neotropica foi fundada em 2004 com o objetivo de desenvolver projetos destinados à difusão do conhecimento sobre os ecossistemas, a fauna e a flora do Brasil. Em 2008, ampliou sua área de atuação, tanto no que se refere aos temas publicados quanto às plataformas utilizadas. Foi criada a Neotropica Multimedia, divisão que em 2010 lançou o documentário interativo O Porto de Santos Navegando pela História. Hoje, a Neotropica acrescenta a publicação de ebooks à sua área de atuação e desenvolve, a partir deles, a produção de livros customizados.


SOBRE OS AUTORES

João Musa é fotógrafo e professor do Departamento de Artes Visuais da Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo). Expôs ensaios de autor em vários museus, entre eles o MIS, MAM e MASP. É autor entre outros, de A Interpretação da Luz (1994), Estação Júlio Prestes (1997), São Paulo anos 20 (2001) e Alberto Santos Dumont – Eu naveguei pelo ar (2000).

Glória Kok é pesquisadora e autora, entre outros livros, de Os vivos e os mortos na América portuguesa: da antropofagia à água do batismo (2001), O sertão itinerante: expedições da Capitania de São Paulo no século XVIII (2004), São Paulo: de vila a metrópole (2004), Uma fazenda inglesa no universo caiçara (2012) e, juntamente com Alberto Martins, da coleção Roteiros Visuais no Brasil

Alberto Martins trabalha como editor e é autor, entre outros, dos livros Cais (2002), A história dos ossos (2005), Em trânsito (2010), Lívia e o cemitério africano (2013, Prêmio APCA de Melhor Romance do ano) e, com Glória Kok, da coleção Roteiros Visuais no Brasil.


FICHA TÉCNICA

Título: “O Litoral em Dois Tempos: Uma Viagem em Torno do Relatório da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo – de Santos a Ubatuba – 1915-2015”
Editora: Neotropica
Número de páginas: 192
Tiragem: 3.000 exemplares
Formato: 23cm x 31cm
ISBN: 978-85-99049-15-0
Valor: R$ 80

EQUIPE

Publisher: Sérgio Pompéia
Coordenação Editorial: Ana Xavier e Gabriel Mayor
Fotografias e Produção Gráfica: João Luiz Musa
Textos: Alberto Martins e Glória Kok
Pesquisa Histórica e Iconográfica: Glória Kok
Projeto Gráfico: Helena Musa
Apoio: CPEA – Consultoria, planejamento e estudos ambientais e Nosek & Gonçalves Advogados
Patrocínio: ENGEBASA
Realização: Lei de Incentivo à Cultura - Ministério da Cultura do Governo Federal



Olá Rilvan, boa tarde.

Segue sugestão de artigo do livro O Litoral em Dois Tempos: de Santos a Ubatuba (Editora Neotropica). Uma curiosidade da recém-lançada publicação é o capítulo “Quilombo de Camburi”, que remete a um olhar atento para as condições de vida dos caiçaras descendentes de escravos, fugidos das fazendas de café de São Paulo e do Rio de Janeiro no século XIX.                
A obra – baseada na publicação da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo (CGGSP), em 1915, com fotografias em preto e branco realizadas por João Scarazzato, – refaz o caminho do viajante contemporâneo, cruzando a Serra do Mar, descendo à cidade de Santos e seguindo até Ubatuba. Na parte contemporânea, apresenta textos da pesquisadora Glória Kok e do escritor Alberto Martins, e tem como contraponto as fotografias coloridas de autoria de João Luiz Musa, registradas entre 2013 e 2015.
Link de fotos sobre o Quilombo de Camburi (de João Scarazzato e João Luiz Musa): https://drive.google.com/folderview?id=0B1R22Wflw-4JSjdnT2trQWJCLW8&usp=sharing

Para mais informações, entrevistas, favor solicitar. Em anexo, o release completo do livro.

Abraços,

Letícia Liñeira | leticia@baobacomunicacao.com.br
Baobá Comunicação, Cultura e Conteúdo
Rua Porangaba, nº 149, Bosque da Saúde
04136-020 – São Paulo – SP +55 11 3482-2510 | +55 11 3482-6908








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