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O poder da língua portuguesa - Arnaldo Niskier

Postado por Rilvan Batista de Santana 27/01/2016

O poder da língua portuguesa
É preocupante a falta de conhecimento de diversos profissionais de diferentes áreas em relação à língua portuguesa. Alegam essas pessoas que a simples troca de um z por um s não muda o valor de uma petição advocatícia, a receita de um médico ou, ainda, o relatório de um administrador. Puro engano: um texto mal escrito abala a imagem do profissional que o escreveu e, sem dúvida, desqualifica o trabalho. Infelizmente, o descaso com o nosso idioma é notório.
 
Devemos ter cuidado com o que se fala e com o que se escreve, pois a nossa imagem está sempre sendo avaliada. A proliferação de "houveram", "menas", o uso da 2a pessoa para o pronome YSa. e as constantes derrapadas na concordância verbal podem parecer festival de mau gosto.
 
Nossos alunos revelam, nos exames nacionais e internacionais, falhas incríveis em leitura e matemática. Somos o 53° país na classificação do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Partindo desse princípio, o MEC lidera movimento a fim de estabelecer os fundamentos da Base Nacional Comum Curricular. Quer ouvir todos os agentes envolvidos no processo, mobilizando especialistas federais, estaduais e municipais. Louvável medida, mas como torná-la prática diante desse quadro confuso de desentendimento?
 
Começa que, por tradição (europeia?), nossos currículos são estanques. As 13 matérias do ensino médio, por exemplo, não conversam entre si, ao contrário do que acontece em países mais desenvolvidos em educação, como podemos citar a Finlândia, a Coreia do Sul e a Suécia, cujas experiências conhecemos pessoalmente.
 
Qualquer que seja o curso a ser seguido por nossos alunos (ou mesmo na efetivação de concursos públicos), o conhecimento da língua portuguesa é essencial, com a mescla dos conteúdos de morfologia e sintaxe. Conhecer os valores semânticos é indispensável para o correto exercício profissional e também para a comunicação e expressão do nosso idioma.
 
Sabe-se que há dificuldades no cumprimento das obrigações de interpretação de textos, como se exige nas provas, e isso é consequência dos nossos crônicos deficits de leitura. Por isso mesmo, qualquer que seja o caminho adotado para a valorização da educação brasileira, o conhecimento da língua portuguesa é vital. Não há currículo
em nossas escolas que deixe de priorizar os estudos de português, que é a matéria mais bem servida de horas/aula.
 
Conhecer mais profundamente a língua portuguesa não deixa de ser, igualmente, um exercício patriótico. Como compreender os textos de Machado de Assis, por exemplo, sem o adequado domínio da nossa língua? Devemos conhecer as suas origens, os seus caminhos e os riscos que pairam sobre o seu futuro, com o excesso de oferta eletrônica descontrolada.
 
O Brasil vive período de grande enriquecimento do que chamamos de avaliação. Demorou muito tempo para que adquiríssemos o real significado do que isso expressa, em termos de busca da qualidade. Se não conhecemos as nossas deficiências, como melhorar de conduta? No caso dos cuidados com a língua pátria, sempre existe palavra de incentivo para que ela se aperfeiçoe. Vamos reparar que, nos currículos propostos, o espaço da língua portuguesa é praticamente sagrado, não devendo se reduzir em proveito de qualquer outra disciplina. Não existe nada mais importante.
 
Deve-se considerar, como fator rigorosamente prioritário, o preparo dos professores para ministrar a importante disciplina. Nas pesquisas feitas, registra-se sempre que o português é a primeira colocada, com uma tendência levemente crescente. Está à frente da grade curricular, o que é um sintoma altamente positivo, embora ainda insuficiente. É preciso melhorar sempre mais e aí insistimos no papel da leitura para que isso ocorra. Não nos anima o fato de termos poucas bibliotecas públicas, com um deficit nacional de 15 milhões de alunos sem a possibilidade de frequentar uma delas. Isso precisa ser corrigido em tempo hábil.
 
Sabe-se que a língua é um fator fundamental da unidade nacional, base da cultura de um povo. Pode-se argumentar com o festival de línguas em certos países europeus, onde essa unidade fica prejudicada, embora cada povo lute pela preservação da sua língua como fator de independência e identidade popular. Temos a sorte e o destino de possuir uma só e poderosa língua de cultura. Há que se cuidar dela com todo carinho, valorizando os seus professores, escritores e todos os que sobre ela se debruçam. É uma forma de fortalecer a nossa cultura.
Correio Braziliense
Fonte: ABL


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