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MELQUÍADES - Gideon Rosa*

Postado por Rilvan Batista de Santana 08/01/2016


MELQUÍADES
                                                 Gideon Rosa*
            
          Serpenteado e meio escuro, às vezes esverdeado, a imensidão do rio Guamá atrai como um imã. Eliodoro, um caboclo de pele brilhosa, bem perto dos sessenta anos, parecia fazer parte daquela paisagem.  Quase todos os dias da semana, metia-se no seringal e, cuidadosamente, instalava as canequinhas, fazendo os cortes que deixavam verter um leite grosso, cujo cheiro ruim  se impregnava na carne. Mas sempre que podia, Eliodoro pegava a canoa e deslizava nas águas tranqüilas daquele planeta aquoso. Adorava sair aos domingos para fazer uma pescaria desinteressada. Talvez pescasse para esquecer um pouco o cheiro do tal látex. Às vezes, dona Evilásia, a mulher dele, reclamava um pouco, mas logo se aquietava. Eliodoro subia e descia o rio com intimidade,  ia de uma margem a outra sem se cansar e, de quando em vez, resolvia conversar com os bichos, imitando seus sons. Raramente pescava acompanhado, mas hoje, resolveu trazer Eutímio, o filho mais velho. Tucunarés, tambaquis, tudo ia se juntando na cesta, sem pressa, na mesma mansidão das águas.  De volta à casa, o peixe era  assado na folha de bananeira e servido debaixo das mangueiras do quintal. Árvores providenciais. Sem elas seria impossível suportar o calor das tardes. Às três horas chovia sempre. Uma chuva grossa e rápida, que se prestava somente para desabafar o ar.
         Antes de sair, hoje pela manhã, Eliodoro despediu-se de Melquíades, acariciando-lhe os pelos. O bicho arrepiou-se e escondeu-se debaixo do banco da pequena sala da casa. Eliodoro riu com aquela atitude arisca e saiu para chamar Eutímio. O filho havia-lhe herdado os cabelos pretos e encaracolados e os olhos verdes de dona Evilásia. Pegaram a canoa de madeira de jaqueira e enfiaram-se no rio; quando os peixes eram pequenos, Eliodoro mandava soltar. Não achava justo. As fêmeas ele também não queria. Afinal, ele era um homem temente a Deus e aquilo de judiar da criação não devia ser uma coisa correta.
        Enquanto Eutímio tomava conta dos anzóis, Eliodoro resolveu tirar um cochilo rápido. Estirou-se na canoa e deixou que sua mão ficasse escorrendo, mergulhada nas águas turvas. Gostava daquele contato silencioso com a água. Era como se se integrasse ainda mais ao silêncio daquela paisagem sombria. Vez por outra, ouvia-se o grito esganiçado dos sagüis e  o canto de passarinhos. Dava vontade de imitar, mas ficava quieto, com os olhos fechados, talvez pensando no preço da seringa, que estava baixo demais. Eutímio observava o pai dormindo, enquanto esperava a fisgada dos peixes. Pensava na bondade de Eliodoro, um homem simples, que foi capaz de criar dezesseis filhos sem jamais levantar a voz com qualquer um deles. Nem mesmo contra dona Evilásia. Riu para si mesmo quando lembrou-se do dia em que ele o viu namorando a filha de Eleutério, um peixão graúdo, capaz de mandar arrancar os bagos de quem mexesse com as filhas dele. O velho Eliodoro chamou Eutímio a um canto da sala e descreveu-lhe algumas das bramuras cometidas por Eleutério. Convenceu-o a falar o mais depressa possível com o homem, antes que fosse tarde demais. Resolveu ter com a temerosa criatura. Foi um erro. Desde esse dia não ouviu mais falar de Ermelinda, a moça por quem havia se enrabichado.
       A canoa vai escorrendo mansa por uma das curvas escuras do rio. De repente, um grito rompe o silêncio da mata. Eutímio olha e vê Eliodoro segurando a mão ensagüentada. O sangue escorre grosso. Ao perceber aquilo, sem desespero, Eutímio começa a remar rápido de volta para casa. A escuridão do rio fica manchada por um rastro vermelho. Eliodoro mantém os olhos bem abertos como se assim pudesse controlar a dor. Os gritos dele chamam a atenção da gente ribeirinha. Antes mesmo que a canoa atracasse, a família inteira já estava querendo saber o que tinha acontecido. Ninguém sabia. Eutímio correu desesperado para a cozinha, apanhou uma bacia e encheu com a água quente que ficava permanentemente ao lado do fogão. Lavou a mão ensagüentada de Eliodoro e, finalmente, pôde-se ver que havia uma ferida no peito da mão. Parecia marcas de dentes afiados. Ou teria sido uma maldita de olho pelado? Mas cobra dentro da água é inofensiva, não mexe com ninguém. Dona Evilásia preparou um ungüento com farinha de mandioca e enfaixou a mão de Eliodoro. Meia hora depois, o homem delirava e gemia de um modo horrendo. A vizinhança se ajuntou rápida para saber a razão da algaravia. Várias hipóteses foram levantadas, mas ninguém jamais havia ouvido falar de uma coisa semelhante. Será que tinha sido algum peixe venenoso? Pode ser. Mas a mordida não era de peixe, explicava Eutímio. Enquanto as indagações percorriam meio mundo, o velho Eliodoro empalidecia.
     Assim que Eliodoro acamou-se entre gritos lancinantes, Melquíades prostrou-se ao lado da cama. Parecia uma pessoa acompanhando a infelicidade de um ente querido. Melquíades havia chegado em casa muito jovem. A gata da vizinha, dona Edwirgens, havia parido cinco filhotes, que foram despachados o mais rapidamente possível pelas redondezas. Foi Eliodoro quem primeiro se afeiçoou ao bicho. Os dois pareciam conversar. Um acariciava o outro, cada qual a seu modo. Na maioria das vezes faziam-se carícias até dormir. Dona Evilásia comentava que o velho Eliodoro estava caducando tamanha a atenção que dava ao bicho. Foi indo assim, até que ficaram inseparáveis. Quando Eliodoro saía, Melquíades vinha até a porta como se fosse se despedir. O bichano também tinha o hábito estranho de ficar na soleira da porta sempre que alguém estava para chegar.
        Os gemidos de  Eliodoro aumentavam à medida que a escuridão da noite penetrava ainda mais nas casas. Maldita a coisa que mordeu Eliodoro.  Eliodoro não falava. Gemia de dor. Um gemido que mais parecia um urro. O ungüento de Evilásia não fazia efeito. Elói, o filho mais jovem de Eliodoro resolveu sair para arranjar um médico a qualquer custo.Voltou algumas horas depois com as mãos vazias, pois nem o sujeito que dirigia a ambulância da Prefeitura estava na cidade. O jeito era chamar dona Edna rezadeira. Talvez ela pudesse dar um paliativo a dor de Eliodoro. Antes mesmo que partissem, souberam que a velha tinha morrido fazia dois dias. Então procuraram Eliezer rezador. Mas este não era de muita confiança, costumava andar bêbado, relatando histórias vesgas. Um dia o velho passou contando que pôde sentir a força de seus poderes, quando uma cobra mordeu-lhe o dedão do pé direito. Contou que a cobra, uma jaracuçu, ficou grudada no dedão, enquanto ele andava e olhava para a maldita, dizendo: - "Solta o meu dedo dona cobra. Ah, não quer soltar? Pois então está bem, pode continuar aí". Nesse alarido,  ele e a cobra andaram juntos por quase uma légua até que chegaram na casa do pai dele, o velho Elesbão. Ao tomar conhecimento da situação, o caboclo olhou para a cobra e gritou:
         - Cobra, solta o dedão de meu filho!
        Mas a cobra continuou impassível. Conta Eliezer que seu pai era ainda mais poderoso que ele. Então, ele resolveu confrontar-se com o bicho. Apanhou um punhado de sal grosso sempre guardado pra remédio, misturou com um pouco de água benta feita pelo padre Granja, um padre das antigas, aí então sacudiu sobre a cobra. Mas antes mesmo que os pingos caíssem, a cobra soltou o dedo com um piar estranho e desapareceu como se fosse feita de fumaça.
        Enquanto aguardavam a chegada do velho Eliezer rezador, os gritos de Eliodoro aumentaram. A vizinhança , assustada, estava toda na rua, com os candeeiros acesos. Em algumas  casas, o povo rezava, pedindo a Deus que amanhecesse o dia para que se pudesse tomar uma providência rápida, indo até  Belém. Mas a noite, impassível, arrastava consigo as horas sem se preocupar com o desespero que corria naquele pedaço do mundo. Toda a gente da vizinhança, de quando em vez, dava uma espiada nas águas. As histórias rendiam. Já se viu, sair das águas, em noite de lua nova, um trem esquisito, cabeça estranha, nem peixe, nem cobra, com os olhos ensanguentados e alumientos, que sumia rápido quando se sentia observado. Pode ter sido.
       De repente, no meio daquele desespero, Melquíades passou a dar os mesmos gemidos de Eliodoro. Primeiro  olharam o gato, achando que o bicho estava com fome. Deram de comer, mas ele se recusou a tocar no prato. Gemia tanto ou mais do que Eliodoro. Um gemido fundo, como se fosse uma pessoa, sentindo tristeza e dor. Eliodoro era muito apegado ao gato. Mas daí acontecer do bicho passar a gemer como se tivesse voz de gente, isso, certamente era uma coisa estranha. O pelo de Melquíades se arrepiava a cada gemido como se estivesse com a intenção de medir força com algum adversário desavisado do seu poder. Num instante,  a notícia correu, e uma multidão se aproximou da casa para ouvir os gritos desesperados de Melquíades. Ninguém entendia o gato nem conseguia fazê-lo parar.
        De repente, o Melquíades avançou para debaixo da cama. Continuava a gemer. Ninguém conseguia tirá-lo de lá. O povo todo da rua comentava aquela pantomima do satanás. As rezas ficaram mais fortes. Muita gente colocava a cara na janela do quarto onde o velho Eliodoro estava. Mas o que queriam mesmo era ouvir os gemidos do gato imitando seu dono. Alguém tentou aproximar-se de Melquíades, mas o bichano deu um miado fino, como se estivesse sentindo uma dor na espinha dorsal. As pessoas que estava em volta ficaram em silêncio, olhando umas para as outras e, depois decidiram ir embora. Desde esse momento, a doença do velho Eliodoro passou a segundo plano. O que interessava mesmo para aquela gente era o comportamento do gato. Que gromogô dos diabos teria tomado conta do bicho? A noite avançava pela madrugada, e ninguém conseguia dormir. Entre um café e outro, alguém se lembrava de Eliodoro. Então toda história era recontada nos mínimos detalhes até que alguém se lembrasse de caso semelhante acontecido sabe-se lá onde. O que existiria nas profundezas do rio Guamá? Aquela imensidão escura e amarela ao mesmo tempo, arrastando-se silenciosamente pelo meio da mata. Não, ninguém poderia imaginar  o que teria acontecido. Desde que Eliodoro chegara, não havia meio do homem falar. A língua parecia travada. Ouvia-se apenas os gemidos do gato misturados ao do seu dono.
        Por volta das duas da manhã, quando a maioria já estava meio bêbada de tantos cafezinhos e pingas, chega o rezador Eliezer. Quando relataram a ele o acontecido, os olhos do velho brilharam com a lembrança de uma história envolvendo uma cobra sucurujuba. Ele adorava estórias de cobras. Fazendo gestos e dando uma descrição muito precisa da paisagem, contou que um pescador dormia à beira de um rio, quando uma sucurujuba aproximou-se para engolí-lo. Mais tarde, já dentro da barriga da monstruosidade, o pescador acordou e se viu às escuras. No começo pensou que estivesse cego, mas logo viu que algo estranho havia acontecido. Estava dentro de alguma coisa molhada, escura e fétida, que se mexia de quando em vez. O odor estranho dava para embrulhar o estômago. Desesperado, o homem levou a mão no bolso e retirou uma peixeira, colocando-a em riste para cima. A faca saiu rasgando a barriga do monstro, que se estribuchava. Deveria ter uns vinte e cinco metros. Nunca tinha ouvido falar de coisa igual. Mesmo com a barriga amarela rasgada, a cobra ainda fazia medo. O homem compreendeu o acontecido e, no desespero de salvar a vida, segurou firme a faca e continuou fazendo um rasgo na barriga da sucuri até que pôde ver a luz do dia. Assim que  sentiu a terra firme, saiu em desabalada carreira, prometendo a si mesmo jamais dormir na beira de um rio novamente.
         As pessoas olharam para a cara do velho Eliezer e ficaram em silêncio. Não era o momento de polemizar  com ele. Fizeram de conta que acreditaram. Somente depois de se certificar que não havia contestadores, o velho iniciou sua reza. Pediu que todos saíssem, enquanto ele mesmo avançava para o quintal à procura de uma folhas de fedegoso e pinhão roxo. De volta, encontrou no caminho algumas folhas de alfavaca de galinha e trouxe para o quarto. Sozinho, sem que ninguém olhasse seu rosto, o velho começou sua reza. De fora, ouvia-se o ronronar  de sua voz, os gemidos do gato e do velho Eliodoro. Tudo aquilo misturado dava aquela casa minúscula um ar de pesadelo. Os parentes de Eliodoro estavam pesarosos pelos cantos. Dona Evilásia, grávida de oito meses, fingia que não chorava, mas de quando em vez, sumia-se para o oitão da casa. Voltava com o nariz vermelho. 
         De repente, os gemidos do gato ficaram tão altos que abafavam todos as outras vozes. Não eram  miados, eram gemidos de dor e sentimento profundo. Quando o dia amanheceu, as pessoas cansadas de tanto alarido, foram apanhadas pelo sono nos cantos da casa. Primeiro, o velho Eliezer saiu do quarto com o ar esgotado. Depois, veio Eliodoro. Tinha um aspecto meio abatido e mantinha os olhos presos no chão. Trazia nos braços o gato Melquíades. Morto. Quando chegou perto de dona Evilásia, Eliodoro estava em prantos. Entendeu que, enquanto gemia, o gato tomava o destino que seria dele. Alisou o quanto pôde aquele corpo felpudo e amarelo com listras escuras como se fosse um tigre em miniatura. As pessoas que se acotovelavam na sala, olharam para Eliodoro com desconfiança. Afinal, era apenas um gato. Mas só Eliodoro sabia que, sem Melquíades, não haveria ninguém para se encontrar com ele no caminho de volta do seringal.
       Eliodoro resolveu tratar Melquíades como a um membro da família. Fez uma cova nos fundos, mediu sete palmos, enterrou o bichano, plantou umas flores e fincou uma cruz sobre aquele montículo de terra. Depois, chamou dona Evilásia e disse-lhe em tom grave: "Este menino que você tem aí na barriga vai se chamar Melquíades". A mulher não discutiu. Foi cuidar de preparar o almoço antes que o sol passasse por cima da casa, deixando a todos amofinados.

* Gideon Rosa é escritor, jornalista, teatrólogo e membro da ALITA. 

Fonte: ALITA

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