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Engenheiros ficam sem emprego, mudam de área e vão até para o Uber - FLÁVIA FOREQUE / DE BRASÍLIA

Recém-formada em engenharia civil, Ana Caroline Gomes, 23, decidiu continuar os estudos e fazer uma pós-graduação. O engenheiro mecânico Gutemberg Rios, 33, estuda migrar para o Canadá.
"Aqui não tem muita perspectiva de melhora a curto prazo", afirma ele, demitido da empresa onde atuava no final de outubro.
Rios faz parte da estatística de 496 demissões na carreira registradas no Distrito Federal no ano passado.
Em 2014, já foi possível notar uma redução de vagas: diferentemente de anos anteriores, o saldo entre engenheiros admitidos e desligados naquele ano foi negativo.
De acordo com estudo da Federação Nacional dos Engenheiros, foram, ao todo, pouco mais de 52 mil profissionais contratados e 55,1 mil demitidos.

GIGANTES SOB SUSPEITA
A queda nas atividades da construção civil e a Operação Lava Jato, que investiga suspeitas de corrupção na Petrobras e já prendeu executivos das principais empreiteiras do país, são apontadas como principais fatores para a crise no setor de engenharia.
E a expectativa dos profissionais para este ano não é animadora.
"Para ter obra, precisa haver uma decisão de investimento. Seja do comércio, que vai fazer uma galeria de lojas, seja de alguém que vai reformar a residência. E quem é que está tomando a decisão de investir hoje?", questiona Eduardo Zaidan, vice-presidente do Sinduscon-SP (sindicato da construção civil).
Somente no ano passado, de acordo com dados do Ministério do Trabalho, o setor da construção civil fechou 416,9 mil vagas.
Para Zaidan, o atual cenário gera um novo "desmonte" na carreira, que recentemente enfrentou carência de profissionais qualificados.
A atual crise no setor de engenharia é comparada, por profissionais mais experientes, à chamada década perdida, nos anos 1980.
Naquele período, diante de uma crise profunda na economia, os engenheiros começaram a migrar para funções em outras áreas.
"A economia brasileira parece voo de galinha: uns anos são bons, o resto é ruim. Mas acho que este é o pior momento, porque não tem perspectiva de que vai melhorar", afirma Daniel Galano, 52.
Formado em engenharia mecânica em 1987, ele foi demitido da empresa em que atuava em 2014 e, desde então, não conseguiu outro trabalho na área.
Também graduado na década de 1980, Antônio Seirio, 55, aponta dificuldade em se fixar na carreira vinculada "diretamente à indústria", em que se especializou.
"Se a economia não gira, não se contrata engenheiro", diz ele, com um MBA no currículo, feito a partir de programa do governo federal, o chamado Promimp (programa de incentivo à indústria).
Nos últimos anos, Seirio ocupou funções técnicas em diferentes empresas e, desde novembro, trabalha como motorista do Uber, serviço de transporte particular.
"Já vi situações difíceis, mas não como essa", resume Célia Almeida, 42. Demitida em outubro da empresa em que trabalhava como engenheira ambiental, hoje atua no mesmo local, mas por contrato. O trabalho em tempo integral, de 8,5 salários mínimos, foi reduzido para atividade parcial e 4 mínimos.
Com quatro filhos, todos na universidade, recorreu ao seguro-desemprego.
"Banhos quentes viraram mornos. O pacote de internet acabou, só eu tenho celular pós-pago agora. Estou segurando o dinheiro que ganho", afirma Almeida.

MAIS FORMADOS
Nos últimos anos, no entanto, houve aumento da procura pela profissão.
Entre as cinco áreas com mais demanda por profissionais (como engenharia civil e mecânica), o número de formandos cresceu 60,6% entre 2010 e 2013.
"Precisamos de mais engenheiros", disse em 2013 Aloizio Mercadante, então ministro da Educação (ele voltou ao posto em 2015). Naquele ano, o número de calouros de engenharia superou, pela primeira vez, o de direito.
A questão é que, agora, o cenário se inverteu e a recessão passou a exigir que os engenheiros busquem novas áreas de atuação profissional.

INVESTIMENTO NO LIXO
"Estamos jogando fora um investimento tremendo em recursos humanos. Cada um vai ter que se virar para determinado lado. O problema é que não tem emprego para lado nenhum", diz Zaidan.
Essa foi a mesma conclusão a que chegou um engenheiro eletricista da OAS, onde trabalhou por pouco mais de três anos na construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.
No auge das atividades, o projeto em que atuava chegou a reunir 12 mil operários. Quando foi demitido, em março do ano passado, eram 300. Desde então, não encontrou vaga em cargo semelhante ao que atuava.
"Eu achava que ia conseguir achar, porque tinha um currículo bom, numa grande empresa do país, numa grande obra. Mandei currículos, me inscrevi em sites e não recebi nenhuma resposta de emprego associado à engenharia", diz ele, que prefere não ter o nome divulgado.
Na visão do profissional, a Operação Lava Jato contribuiu para a redução das atividades da empreiteira, a segunda maior do país, que teve cinco executivos condenados pela Justiça Federal do Paraná por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa.
"Criou-se uma situação não só política -porque tinha gente da empresa sendo presa- mas financeira, porque os bancos começaram a parar de emprestar", diz.

Hoje, atuando no setor de hotelaria, ele recebe um quarto do salário que tinha como engenheiro.

Fonte: UOL

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