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A trajetória de uma personagem

Postado por Rilvan Batista de Santana 18/01/2016

A trajetória de uma personagem

Companhia das Letras
Foto: Renato Parada
Estamos no mês de janeiro e isso quer dizer várias coisas, inclusive que Maria Clara Drummond está começando agora a escrever o seu terceiro romance.
E eu não sei disso porque ela contou no Facebook, sua rede social favorita (embora ela tenha feito um post sobre isso). O que acontece é que começar um novo livro em janeiro é um hábito que Maria Clara mantém desde que, por acaso, começou a escrever em um dia 1º A festa é minha e eu choro se quiser, seu primeiro livro. Lembra de como ele começa? “Cara, melhor réveillon da minha vida.”
O tal hábito foi respeitado na hora de escrever A realidade devia ser proibida, seu segundo romance, lançado ano passado pela Companhia das Letras e foco dessa entrevista. Nele, pela primeira vez, a jovem escritora assume a voz de uma narradora para contar justamente uma “pequena trajetória de empoderamento” feminino na vida de Eva. Essa novidade foi o ponto de partida do nosso papo.
Em uma entrevista sobre o primeiro livro você conta que escreveu ele na voz masculina porque tinha medo que o livro soasse como um diário. Você perdeu esse receio para fazer A realidade devia ser proibida ou não?
Então, o primeiro livro eu comecei a escrever muito sem querer e acabou que saiu na voz masculina. Eu até pensei em trocar pra voz feminina porque havia lido uma entrevista do Javier Marías sobre o assunto, só que eu falei “não, acho que vou arriscar e fazer a voz masculina mesmo”. Mas eu tive mais dificuldade em escrever na voz feminina justamente pela questão que eu tinha pensando no primeiro livro. A realidade devia ser proibida teve muitas versões, ao contrário do primeiro. O primeiro eu escrevi de um jato, tipo, foi quase que uma escrita automática. Esse eu tive que fazer várias versões. Comecei a escrever na voz feminina e achei que tava muito melodramático, aí mudei para um narrador neutro no meio do livro e achei que não tava funcionando, então mudei de novo para voz feminina, para a narradora Eva. E eu acho que nessa terceira mudança que a coisa começou a caminhar. Porque eu tive muita dificuldade de ajustar a voz. É engraçado, porque teve toda essa polêmica se pode escrever na voz de outro gênero ou não e pra mim foi muito mais difícil escrever na voz feminina.
Por quê? É a questão mesmo de ficar parecendo um relato muito pessoal?
Sim. Eu não escrevo sobre coisas distantes da minha realidade, acho que quase ninguém hoje em dia escreve. Todos os meus personagens são patchwork de coisas que eu penso, coisas que meus amigos me falam. Tem coisas no livro que pessoas que eram minhas amigas na adolescência falaram e eu guardei. Tem uma hora que uma personagem fala: “Não vale a pena ir pra Paris e não comer no L’Avenue'”. Isso uma menina me falou quando eu tinha 13 anos e eu me lembrei. Acho que na voz feminina eu sempre caio muito na tentação de se eu briguei com um amigo, vou lá e escrevo. Depois eu vejo e penso “Por que isso tá aí? Tem que apagar”. Tenho muito a tentação de me colocar demais, por isso o livro teve tantas versões. Eu fui retirando coisas. Eu falava “não, isso aqui é uma coisa que eu quis escrever porque eu tava sentindo aquilo no momento, mas não tem nada a ver com a história”.
O livro se passa no mesmo universo de A festa é minha e eu choro se quiser, certo? O Davi, narrador do seu primeiro livro, por exemplo, reaparece.
É o mesmo. O primeiro livro se passa ao longo de uns três anos, já esse se passa ao longo de um ano. O Davi começa no A festa… com 24, mas ele termina, sei lá, com 27. Neste livro, ele já é bem mais velho que a Eva, como se tivesse passado algum tempo. Eu quis fazer isso porque eu reparei no primeiro livro que, às vezes, eu falava pras minhas amigas que o Davi é meio babaca e elas falavam “ah, não achei”.
Ele virou meio que um anti-herói, pra ficar em uma definição que o Daniel Galera deu quando falou do livro.
É, eu acho que ele fica muito perto. Como ele é o narrador, ele tá muito colado, você tá vendo o tempo inteiro o lado dele, então é mais difícil de você olhar de longe e falar que ele não foi tão legal em determinado momento. Só que nesse outro livro é o contrário, você em nenhum momento chega perto do Davi. O tempo inteiro você vê ele de uma distância, a Eva não conhece bem ele. A Eva pensa horrores nele, ela tem várias conclusões sobre ele, mas eles se falam pouquíssimo ao longo do livro. Só que ela tem todo um Davi na cabeça, que uma hora é um cara incrível e outra hora é um babaca porque é só o julgamento de uma pessoa que não conhece ele direito. Eu quis fazer essa diferença de um personagem visto de muito perto, de forma que você não tem escolha a não ser simpatizar com ele, e de um personagem visto de muito longe, que aí você só tem, tipo, névoas – “ah, ele é um babaca”, “não, ele é um máximo”. Ele não é nem o máximo nem um babaca, provavelmente.
Para o lançamento de A realidade devia ser proibida, você escreveu no Blog da Companhia um relato sobre sua depressão. Quando eu li seu texto imaginei que fosse um tema que você abordasse no livro, mas isso não acontece de uma maneira clara. A Eva tem depressão?
Então, o Davi no primeiro livro tem depressão. Ali ele fala bastante disso, de remédios e tal. Como isso é um tema muito presente na minha vida, eu no livro original rascunhava algumas coisas, tipo, tinha alguns indicativos de que a Eva pudesse ter depressão. Só que depois eu tirei por uma questão pragmática. Como eram indicativos muito espaçados, um tema que eu apenas pincelava ao longo do livro, eu achei que ou eu falava de verdade ou não falava. Resolvi tirar por uma questão de trama. Mas, sim, acho que é um livro triste, faz sentido.
Essa é sua avaliação? Sem entregar muito o jogo, ele tem um final otimista…
Sim, ela consegue se empoderar, né? Acho que o que eu quis passar no livro, a trajetória da Eva, foi uma pequena trajetória de empoderamento. Porque no início ela fica muito refém das opiniões da mãe, das amigas, muito dependente da figura masculina. O que eu quis passar é ela ganhando autoconfiança, ganhando uma independência maior. O primeiro livro termina de uma forma um pouco niilista, queria que esse terminasse de uma forma positiva, como se fosse um passo na construção da identidade dela.
Contar essa história de empoderamento é importante no momento atual, certo? Em 2015, o debate sobre feminismo chegou para muita gente, ganhou um alcance novo. Você escreveu pensando nesse momento?
É, tem gente que ainda nem sabe o que significa a palavra. Eu escrevi pensando muito nesse momento. O livro era muito mais bandeiroso do que ele tá hoje, do que saiu. Mas mesmo antes de eu enviar para a Companhia das Letras, nem foi edição deles, foi edição minha. Nas primeiras versões era um panfleto, eram monólogos de panfleto. Eu tirei porque não tava fazendo sentido na história, tirei porque não tava bom literariamente. Mas, com certeza, eu espero escrever livros mais feministas a cada vez. Acho que esse é um tema que eu coloco muito, que eu pensei conscientemente o tempo inteiro. Eu queria ter conseguido fazer ele mais panfletário, talvez esse tenha sido o principal dilema, porque era uma mensagem que eu queria muito passar, mas eu tive um pouco de dificuldade de por isso de forma natural e aí acabou que não ficou tão forte quanto eu gostaria.
Você preferiu atenuar a questão para não perder a história.
É, porque se eu escrevesse um panfleto em um livro literariamente ruim não iam querer nem publicar. Eu diminui por questões de literatura, mas acho que é possível você escrever um livro ultra panfletário e super literário, só que é meu segundo livro, eu tentei. Queria ter falado muito mais do que eu falei.
A gente cresce com um entretenimento na cultura mainstream ainda muito machista em questões sutis. Sabe aquele teste para indicar se um filme é feminista ou não? Tem uma mulher na cena? Sim ou não? Essa mulher contracena com um homem ou com uma mulher? Se essa mulher tá contracenando com outra mulher, elas tão falando sobre homem? Você vê todas as comédias românticas, mesmo as boas, de qualidade, são sempre uma mulher querendo um homem, perseguindo um ideal romântico. Acho que essa é a questão da Eva, ela cresceu acreditando que ela devia perseguir esse ideal romântico, que ela só seria feliz ao lado de um homem, porque é isso que a gente aprende. Eu nunca consumi uma cultura muito trash, mas mesmo a cultura mainstream de qualidade aponta para esse lado, essa dependência emocional feminina em relação ao homem.
A Eva até fala em um momento algo do tipo: “Vou nessa festa porque posso encontrar o homem da minha vida”. Ela sofreu com essa pressão cultural.
Ela tem isso. Ela começa o livro com umas ideias muito automáticas do que deveria ser o corpo dela, o cabelo dela. Ela tem a coisa do príncipe encantado, que é um príncipe encantado um pouco diferente, que não é o cara do mercado financeiro, é o cara bem sucedido no meio cultural, mas é um príncipe encantado. Essa ideia de você se projetar através do homem é engraçada, porque ela não quer ser uma cineasta bem sucedida, ela quer namorar um cineasta bem sucedido. Tipo, você terceiriza o sucesso pro namorado. Eu acho que esse pequenos questionamentos do dia a dia que ela tem são os questionamentos que eu lido no meu próprio dia a dia.

Fonte: Companhia das Letras

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