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Poeta castrado não! Ary dos Santos (1937-1984)

Postado por Rilvan Batista de Santana 14/12/2015

Poeta castrado não!
Ary dos Santos (1937-1984)

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Ary dos Santos (1937-1984)

Fonte: Do Tempo da Outra Senhora

“ Fazer versos é, para mim, uma função tão natural ou necessária como dormir, comer ou fazer amor”. (Ary dos Santos)
Cheguei a Ary dos Santos por uma amiga, por acaso. Estou conhecendo ainda, mas já estou adorando sua pegada simples na escrita, própria de canções, cheia de influências da poesia popular portuguesa. Dentro de toda essa simplicidade por vezes brota umas imagens lindas e complexas… Abaixo, umas palavrinhas sobre ele e depois poemas, videos dele declamando e um poema cantado por Zeca Afonso.
José Carlos Ary dos Santos foi um poeta e declamador de poesia português. Conhecido por Ary dos Santos, fugiu de casa ainda jovem (era de uma familia da alta burguesia) e passou a viver de mascates. Viveu a morte de sua mãe ainda jovem fato que o marcou toda sua vida (todos o reconheciam como cheio de ternuras e carente por esse fato). Não se adaptou a madrasta e fugiu. Desde os 16 anos suas habilidades poéticas já eram reconhecidas, mas só em 1963 publicou seu primeiro livro “Liturgia do Sangue”. Em 1969 entra para o Partido Comunista Português (PCP), participando ativamente nas sessões de poesia do então intitulado “canto livre perseguido”, tornando-se agitador cultural da esquerda portuguesa.
Concorre, com pseudónimo, ao Festival RTP da Canção com os poemas Desfolhada Portuguesa (1969), Menina do Alto da Serra (1971) e Tourada (1973), obtendo os primeiros prémios. É aliás através deste campo – o da música – que o poeta se torna conhecido entre o grande público (fez mais de 600 poemas para canções e fados). O povo português sabia muitos de seus poemas de cor; passou para a história como “poeta do povo”, “poeta da revolução [dos cravos]”.


“ Com bandarilhas de esperança, afugentamos a fera/ Estamos na praça da Primavera/ Nós vamos pegar o mundo pelos cornos da desgraça/ e fazer da tristeza graça”. (Ary dos Santos)


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