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O TROPEIRO E O BURRO, por Antonio Higino

Postado por Rilvan Batista de Santana 07/12/2015

O TROPEIRO E O BURRO, por Antonio Higino
            
                  Numa roda de viola, entre um trago e outro, contou-me um amigo que, naqueles tempos, no interior do nosso País, onde não havia estradas, a comunicação era feita de forma primitiva, basicamente através de tropas e tropeiros. Consista a tropa em alguns burros treinados que transportavam em seus lombos, normalmente de um centro comercial mais desenvolvido para o interior, gêneros de primeira necessidade, a exemplo de feijão, arroz, banha de porco, carne seca, querosene, sal, fumo de rolo, etc... No retorno, traziam vários produtos das localidades por onde passaram, como farinha, carne de sol, requeijão… Mas não era só isso, levavam e traziam notícias, bilhetes, carta de amor, recados... enfim, faziam uma integração regional. Aqui no sul da Bahia não era diferente. Havia vários tropeiros. Dentre eles o que mais se destacava era Valdomiro. Na linguagem de hoje seria um empreendedor de sucesso, um emergente.

            A sua tropa se destacava das demais. Os animais usam indumentárias padronizadas, exatamente iguais. Todos eles tinham um chocalho dourado pendurado na coleira que, quando em marcha, tilintavam sons embalados pelo vento a anunciar a aproximação da tropa. Era um acontecimento a aparição da tropa de Valdomiro. Certo dia, pela estrada a fora, conduzia Valdomiro a sua tropa. Era perto das quatro horas da tarde, quando o céu de repente se enegreceu anunciando chuva, forte chuva. Estrada deserta. Burros carregados de mercadorias. O que fazer? Pensou Valdomiro! E a chuva caiu em forma de tormenta... Sem alternativa, revolveu pedir rancho numa fazenda próxima, de propriedade de coronel do cacau. Foi um constrangimento para ele pedir ajuda, isto porque era um sujeito cismado, casmurro, perfeccionista. Na Fazenda, dirigiu-se a casa grande e pediu estada ao coronel. Envaidecido com a presença de Valdomiro, não só o autorizou a montar acampamento, como também o convidou para jantar. Afinal, jantar com Valdomiro era sinal de prestígio. Arranchada a tropa, momento depois foi Valdomiro jantar com o coronel.

            Entre uma conserva e outras beberam algumas doses de aguardente, licor de mel de cacau e de jenipapo. Mas Valdomiro sempre atento, desconfiado de tamanha gentileza. O jantar foi ecológico. Servido foi ensopado de paca, de tatú, de teiú, galinha ao molho pardo e moqueca de jiboia. Sobremesa, doce de coco verde e por fim, um digestivo feito de laranja da terra. Entusiasmado, o Coronel virou-se para Valdomiro e disse-lhe: “amigo, hoje você vai passar a noite aqui com Neném”. Valdomiro pensou consigo: “Neném! Quem será? Pensando ser uma armadilha do coronel, declinou do convite e foi ao rancho juntar-se aos seus ajudantes. Eram três. E a chuva continuava. Perto de o dia amanhecer, revolveu ir embora. Levantou acampamento e foi se despedir do anfitrião. Chegando em frente à casa do Coronel, apeou do burro e o amarrou num mourão de jacarandá. Bateu à porta! Ao ser aberta, surge na penumbra uma mulher. Uma morena de olhos claros, cabelos negros e lisos na altura dos ombros, lábios da cor de jambo, dentes alvos, sorriso largo e um perfume de botão de laranjeira espalhava-se pelo ar. Da camisola transparente percebia-se a geografia do seu corpo. Os seios em formato de pera, cujos bicos pareciam querer varar-lhe as vestes.

            Via-se o ventre, o umbigo e a flor do amor. Sorrindo ela lho disse: “Eu sou Neném. Você deve de ser o Valdomiro Tropeiro, não é? “Não, eu sou o burro! Valdomiro está ali amarrado no mourão”, respondeu ele completamente desajeitado.

Antônio Carlos de Souza Higyno, Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Itabuna – Bahia. E-Mail: hyginoantonio@bol.com.br

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