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O retrato - R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 21/12/2015

O retrato
R. Santana



            Entre um gole de whisky e outro, à beira da piscina, Narvil não se cansava de fazer considerações sobre aquela velha foto de 20 x25. Embora a foto não lhe tocasse o coração, Nadva ajudava o marido tecer conjeturas sobre o passado distante. Ela compreendia a angústia de Narvil, aquele pedaço de papel representava um corte no tempo, um tempo finito em um tempo infinito. Embora a foto tivesse parado o tempo, o tempo continuou e os personagens não eram mais os mesmos, até o papel estava pardo pela ação do tempo, jamais aquelas circunstâncias se repetiriam... Nem os objetos que davam forma ao cenário não eram mais os mesmos, o tempo teria se incumbido de transformá-los, ou, pouco e pouco desgastá-los.
Nadva quis saber do marido quanto tempo tem a foto? 50 anos? 60 anos? Mas o que representa 50, 60 ou 70 anos num tempo infinito? Nada de nada. Não teria sido melhor se o homem não tivesse inventado o relógio? Não! O tempo é abstrato, mas a ação do tempo é palpável e não é retroativa. O tempo caminha sem pressa, o homem é que tem pressa, mas o tempo continua e o homem fica.
  Nadva não quer esmiuçar as sutilezas do tempo, tampouco, o significado  daquela velha fotografia, aliás, se Narvil não fosse um dos personagens da foto o destino dela seria o lixo, não iria se debruçar em um pedaço de papel em branco e preto para descobrir o que ali se encerrava. Naquela manhã de sol, Nadva não desejava outra coisa, senão, curtir o banho de piscina, ler um bom livro e que o sol fosse o sol de Diógenes e Narvil não fizesse sombra como fez Alexandre, o Grande, mas de tanto ele lhe perguntar, limitou-se responder suas perguntas, de quando em vez, metia o bedelho:
- Este aqui (apontando com o olhar), atrás de Rasec, não quis aparecer, não foi!?
-Não, querida, deve ter sido falha do fotógrafo, ou a posição que ele se encontrava, ou ele não era da família, observa-se que o fotógrafo preocupou-se em captar à família!
- Olhe, eu não quero lhe agradar, mas o meu queridinho (fez carinho na cabeça de Narvil) aqui, tem uma postura de príncipe!
- Príncipe! Eu? Não exagere querida!
- Não estou exagerando... Você sentou-se em ângulo reto, segura o copo de bebida, delicadamente, nas pontas dos dedos, bem penteado e bem vestido, como se tivesse se preparado para o momento, além de uma imagem bonita – prosseguiu com o comentário:
- Rasec está despenteado, nem aí para câmera, com cara de pouca amizade para seu pai e seu irmão mais velho que entornam a garrafa com gosto. Não se sabe a razão, Rasec é o único que não estar bebendo. Ramelc, seu irmão mais novo, com o copo de bebida pelo meio, olha-o com jeito de gozação, e, sua mãe fixa-lhe um olhar de admoestação! Você, meu amor, com o olhar pensativo, é o único que saiu bem na foto...
- Gosto de ver a foto com o olhar de saudade, não com o olhar de crítica, portanto, não temos o mesmo parecer!
- Concordo. O meu olhar é de análise, é de entender, é de procurar, é de leitura, é de buscar significado, eu não estou dentro da foto!
- Querida Nadva, veja a vida, apenas, com os olhos do coração, entender o quê?...
- Mas querido, a curiosidade cativa o espírito. Seria importante, se com o olhar de análise, compreendêssemos o verdadeiro significado, por exemplo, desse momento de família na foto!
- Pra quê? A câmara fez um corte no tempo, aí nada muda, a não ser a nossa percepção de beleza. Se alguém encontrar o belo no feio irá lhe satisfazer o espírito e a foto passará ter significado e não o registro histórico de um fotógrafo!
- Meu amado Narvil, eu sou uma administradora de empresa, trabalho com número, estatística, meta, desempenho, projeto, estimativa, tudo concreto, enfim, não tenho sensibilidade e alma de poeta para descobrir o feio no belo, a beleza das obras de Picasso, de Paul Cézanne, dos pós-impressionistas... Para mim, não importa a beleza das flores, mas se uma floricultura é viável ou não no mercado. Nesta foto, por exemplo, gostaria que você me informasse o paradeiro dos retratados, se foram ou são homens empreendedores, ou, uns derrotados da vida!?
- Se eles são empresários ou foram empresários?
- Para ser um homem de sucesso não é condição sine qua non ser empresário. O homem pode se realizar em qualquer atividade, mesmo a literária e de ensino que é o seu caso, mas tem que ter atitude, perseverança, determinação, objetivo, foco, é a receita do sucesso, se alguém passa na vida por passar, é um fracassado! – Narvil a aplaudiu de pé:
- Muito bem! Muito bem! Muito bem! Agora, eu lhe compreendo, o seu conceito de sucesso é amplo, não é somente, os resultados do mercado, mas a posição do homem diante do mundo, não é “deixe a vida me levar”, assim, satisfarei sua curiosidade e lhe adianto: todos, nesta foto, com exceção deste (indicou a foto com um gesto) que a câmara registrou só o cabelo e não me lembro dele, todos são homens de sucesso!
- Ufa!!! Estamos nos entendendo... Agora, me fale do paradeiro deles, se todos moram aqui e eles fazem, hoje, o quê?
- Bem, Ordep e Aslec, os pais, estão de idade avançada e moram nesta cidade. A velha está muito doente. O velho, ainda se aguenta nas pernas e faz do trabalho terapia, porém, com mais de 86 anos de vida, não é mais o mesmo homem rijo da foto. Construíram um bom patrimônio, mas o patrimônio maior foi ter educado e formado todos os filhos: Oslec é engenheiro agrônomo, Rasec, juiz de direito de uma cidade não muito longe daqui e Ramelc é funcionário de um grande banco do país em Brasília, quanto a mim, não lhe será necessário contar a minha trajetória, você conhece tudo que fiz e conquistei, até os meus defeitos, as minhas qualidades e os meus sonhos!...
- Não é verdade que lhe conheço. Aliás, ninguém conhece ninguém, o homem é uma caixinha de segredo de atitudes inesperadas!
- Por exemplo?
- Sacrificar o ócio da manhã para suscitar lembranças de um passado esquecido na gaveta da saudade!
- Parabéns! Parabéns! Parabéns! Aplausos para mim, senhora, pois acabo de descobrir na administradora uma poetisa que se nega fazer poesia... – e correu pra piscina.
Não se pode negar o absurdo de Camus e de Heidegger, a impossibilidade acontece, uma corrente de vento apareceu do nada e foi varrendo tudo que encontrou. A foto foi puxada pela corrente de ar sem resistência, como uma pluma, subiu aos céus e desapareceu.
Narvil não conteve o pranto e chorou, chorou, chorou...


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licenciada: Creative Commons
Itabuna, 02 de maio de 2013.







Nota Editorial:

Pedimos desculpa aos nossos leitores pela reedição deste texto, mas justifica por termos resgatado o retrato que lhe deu origem.  

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