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O primeiro vice a gente nunca esquece Por José Luiz Passos

Postado por Rilvan Batista de Santana 13/12/2015

O primeiro vice a gente nunca esquece
Por José Luiz Passos
Estava Floriano Peixoto à porta de sua casa, na rua Santa Alexandrina, n.9, observando a recém-nascida República, quando de repente vieram chamar por ele.
Algumas das primeiras reuniões da República aconteceram no Rio, no Instituto de Meninos Cegos, dirigido por Benjamin Constant, que, aliás, logo após a proclamação publicou uma carta na imprensa, datada do dia 19 de maio de 1890, dizendo que não aceitaria concorrer à Presidência. Ele havia sido conclamado entre os do Governo Provisório. Sobrou, então, para o marechal Deodoro da Fonseca. Mas o general Floriano, herói da campanha do Paraguai, Vice-Chefe do Governo Provisório, quando vieram as primeiras eleições no Congresso, foi apoiar outro candidato: Prudente de Morais, e não o seu próprio amigo e chefe militar. Em jogo está o nascimento da nossa democracia. Então, por favor, prestem atenção.
Sempre que paira alguma dúvida sobre o presente, me concentro no passado. Minha sensação hoje é a de que, afinal, há vice-presidentes que realmente fizeram diferença. É o caso do nosso primeiro, o caladão Floriano. Talvez seus futuros seguidores, os vices subsequentes, tenham nele um modelo de cópia impossível. E isto, claro, é um peso´. O primeiro Presidente da República não foi eleito em pleito regulamentar. Logo após a proclamação, o marechal Deodoro assumiu a Presidência por um acordo entre os fundadores do regime. Havia apoio a ele, também havia muita confusão e indiferença. Mas ao contrário dele, o primeiro Vice foi de fato eleito por um gesto de confiança da Assembleia, numa votação de dar inveja ao próprio Presidente. Tudo indica que Deodoro levou o resultado para o lado, digamos, “pessoal”. Ressentiu-se. Apesar de fundador da República e primeiro Presidente, ele queria mais, queria um consenso de maior margem em torno a seu nome, e era homem de fácil ressentimento. O resultado da primeira eleição é bem curioso. Quando, em 25 de fevereiro de 1891, a Assembleia Constituinte se reuniu para escolher Presidente e Vice-Presidente da República, os oficiais das Forças Armadas que constavam do quadro legislativo foram recomendados a comparecerem à sessão fardados e armados. Os primeiros minutos de qualquer democracia são, realmente, inacreditáveis. Havia duas chapas. Estavam o marechal Deodoro da Fonseca e o almirante Wandenkolk contra Prudente de Morais e o general Floriano Peixoto. Computados os votos, tchã! 129 e 57 contra 153 e 97. Claro está, a República tinha preferência por números ímpares. E mais importante ainda, Deodoro, com 129 votos, foi eleito Presidente junto com Floriano, Vice da chapa oposta, e este com saldo de 153 votos, superior ao do próprio Presidente… Que situação. O segundo lugar havia chegado na frente. O Brasil é incrível. Por isso que volto para cá todo ano. Com maior apoio político do que o seu próprio líder no primeiro governo de direito, Floriano foi eleito o nosso primeiro Vice-Presidente.
Quanto ao Presidente marechal Deodoro da Fonseca, insensível ao trato democrático entre os três poderes, recebeu críticas pesadas, pagou caro por sua interferência na política estadual da nova federação, enfrentou um legislativo discordante e duríssimo. Oito meses e oito dias após a sua posse constitucional, Deodoro dissolveu o Congresso, restringiu a liberdade de imprensa e convocou novas eleições. Floriano permaneceu Vice fiel, embora contra o “golpe”. Em carta ao Barão de Lucena, diz, “eu não sou mais amigo do sr. marechal Deodoro desde o dia em que ele duvidou da minha lealdade, mas sou seu camarada, sou militar e, antes de tudo, sou brasileiro. V. Exa. pode assegurar ao sr. Generalíssimo que me terá sempre a seu lado em toda e qualquer emergência”. Em 23 de novembro de 1891, vinte dias depois da dissolução do Congresso, Deodoro, enfrentando o levantamento da Marinha, chama “o funcionário a quem incumbe substituir-me” e entrega o poder a Floriano, e este torna-se o segundo Presidente, conhecido como Caboclo, o Disciplinador, Marechal de Ferro. O Vice Floriano entrou para a história como o consolidador da República.
Sarney, Itamar etc. são palidíssimas emanações do efeito Floriano. Isto, claro, de um ponto de vista estético. Na política, há muitas teorias a respeito, e elas estão naturalmente em desacordo umas com as outras. Fico pensando naquela boa pichação, aqui, na muralha do forte do Brum, onde começou a república pernambucana de 1817, “Quem é vice, que vista a camisa ou saia, visse!” Numa democracia, a vontade do povo é a fonte e o objeto da coisa pública. E sobre essa pichação, convenhamos que nenhum publicitário, mesmo contratado com as verbas escusas de todos os partidos simultaneamente, jamais alcançou tamanho apelo nem sutileza.
Se eu fosse Nelson Rodrigues, poderia dizer, impunemente, “Floriano é o inconsciente dissoluto de todos os vices”. Carreira-modelo. Mas paremos por aí. Seja você quem for, por favor, não vá competir com Floriano. Ele é o super-homem dos vices. Se você é vice, não há como não querer ser Floriano, entendo. Mas para todos nós, o povo, eis a questão. Temer ou não temer os vices? Deodoro, primeiro Presidente, parece que temia. Com razão. Às vezes penso que Floriano Peixoto era de outro mundo. A propósito, lembro aos leitores que ele era alagoano, de vila de Ipioca, e que se casou com a própria irmã. Não há como esquecer, nem querer competir com isso. Como diz outra pichação oracular, “Era outra época. Já passou”.
* * * * *

José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revista Granta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.




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