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O NATAL PEDE PASSAGEM - Sônia Carvalho de Almeida Maron*

Postado por Rilvan Batista de Santana 25/12/2015

O NATAL PEDE PASSAGEM
  Sônia Carvalho de Almeida Maron*

Vamos esperar um pouco antes de acender as luzes coloridas da árvore de Natal. É preciso enxugar as lágrimas do rosto dos franceses e assegurar às famílias de Paris que suas crianças não serão executadas nas escolas. Afinal, é Natal. A ameaça paira no ar, os terroristas já divulgaram o próximo alvo. Quem sabe, aguardarão mais um pouco. Quem sabe, desistirão. Cristo nasce e se renova na fé daqueles que acreditam Nele.

 É preciso analisar o cenário do mundo sob a ameaça do terrorismo e parte dele sobrevivendo às guerras fratricidas que obrigam as populações atingidas a abandonar sonhos e esperanças, refugiando-se como párias em países que relutam em recebê-los pelas conseqüências sócio-econômicas que fatalmente enfrentarão com a excessiva permissividade.

 Precisamos confortar os habitantes da cidade de Mariana, Minas Gerais, Brasil. É necessário arranjar abrigo, roupas e alimentos para os sobreviventes da maior catástrofe que já atingiu nosso país.  É nosso dever enxugar  as lágrimas das viúvas, mães, pais e órfãos da cidadezinha que saiu do mapa graças à irresponsabilidade dos poderosos empresários que extraíam riqueza da terra que oferecia abrigo e alimentava aquela gente;  principalmente lembremos  aos titulares dos poderes constituídos que o grito de alerta do Ministério Público se fez ouvir muito antes, sem acordar os surdos e indiferentes. E o povo de Mariana, todos  sem casa e muitos sem vida, olham para o céu acompanhando o voo rasante de um helicóptero, imaginando que é o trenó de Papai Noel, cheio de presentes. Para aquela gente, também é Natal. O trenó de presentes, é claro, continua uma lenda.

 Vale lembrar que vai chegar o Natal não somente na cidadezinha coberta pela lama. Também é Natal no Oceano Atlântico que emprestava o azul de suas ondas ao litoral do Espírito Santo. O capixaba assiste impotente a areia morena de Guarapari mudar de cor e assumir o tom sombrio que prepara a recepção para toneladas de peixes mortos; fauna e flora destruídas  no caminho percorrido pelo desastre tido por alguns entendidos como irmão das tragédias de Hiroshima e da usina atômica de Chernobyl. Quando o meio ambiente é atingido criminosamente, o mundo já não é o mesmo, nosso fim fica mais próximo e mais doloroso. É preciso abrir os olhos e enxergar, ainda que seja por ocasião do Natal. 

 Cuidemos de esquecer um pouco as desgraças do mundo e ficar atentos ao cenário da Câmara dos Deputados, onde alguns dos representantes do povo brasileiro trocam tapas e palavras de baixo calão, engalfinhando-se em vergonhosa luta corporal no plenário da “augusta” casa que abriga os cidadãos agraciados com o voto popular. Transformada em academia de MMA, a casa legislativa onde nosso destino é decidido, abriga um grupo de exploradores da boa fé e da ignorância do segmento de brasileiros que permitiram a presença deles como nossos mandatários. As agressões e o frenético descontrole decorre da necessidade de conservar a zona de conforto em que vivem, defendendo os responsáveis pelas escolhas equivocadas na administração do país. Seguimos o caminho inverso à moralidade e decoro dos cargos públicos, vivemos um verdadeiro retrocesso econômico. Como se não bastasse, somos obrigados a ouvir os lutadores de MMA do mundo político interpretarem o impeachment como “golpe”. Como sempre, não sabem o que falam. Não provam e nem podem provar as insustentáveis e levianas afirmações.

 Vamos ler e tentar entender a Lei nº 1079, de 10 de abril de 1950, que define os crimes de responsabilidade e oferece os fundamentos para o procedimento lícito, destinado a coibir os abusos dos detentores de cargos públicos cuja investidura decorre do voto popular. Não precisa ser bacharel em Direito: qualquer pessoa medianamente alfabetizada pode consultar o Google, evitando a leitura dos manuais e tratados de Direito Constitucional, leitura obrigatória  para os estudiosos do assunto. Façam isso porque o Natal pede passagem.

 Chegamos, por fim, ao pedaço de chão sob nossos pés: o município de Itabuna. Olhemos com atenção a cor das águas do Rio Cachoeira, chorando as lágrimas verdes da poluição que vem minando sua vida. Melhor dizendo, nossa vida. Concentrem a atenção nos caminhões-tanque que cortam a cidade ininterruptamente para levar o equilíbrio da vida no planeta, a água, aos edifícios e casas dos bairros privilegiados, habitados por pessoas de médio ou alto poder aquisitivo e que podem pagar pelo precioso líquido. E nos bairros da periferia? E nos célebres condomínios “nossa casa, nossa vida”? Ora, Deus proverá. É problema de somenos importância para os gestores.

 Uma parada para reflexão, enquanto é tempo. Itabuna agoniza. Não existe água para o consumo da população.  Um projeto antigo de revitalização da bacia do Rio Cachoeira, idealizado pela UESC, continua vivo em uma instituição privada e independente, Centro das Águas. A duras penas, sua coordenadora conseguiu criar um Forum Permanente das Águas, incluindo a maioria das instituições da sociedade organizada inclusive as duas Universidades, ressaltando-se o caráter voluntário da participação das entidades. Divididas as responsabilidades, cumpre às Universidades a elaboração dos projetos para consecução de objetivos que dependam de apoio político. Até agora, silêncio absoluto da UESC e da UFSB. É compreensível a indiferença da Universidade Federal do Sul da Bahia, apesar de comandada por um filho da região: algemada às metas da política do momento, na qual Itabuna nunca figurou como  prioridade, fatalmente permanecerá no plano das promessas e pedras fundamentais diante dos problemas maiores da comunidade. Com a UESC, a relação é outra. Apesar de estadualizada e inserida nos “projetos” da “pátria educadora”, nasceu do sonho puro e legítimo de filhos desta região, notadamente Ilhéus e Itabuna; tem compromissos com a história: passado, presente e futuro estão unidos indissoluvelmente. Nenhum direcionamento ditado pelas circunstâncias afastará a trajetória inicialmente traçada. A UESC precisa ser fiel às suas origens e à sua história. É o único patrimônio que restou da pujante região cacaueira.

Para festejar o Natal, esperem, confortem, lembrem, analisem, esqueçam a desgraça geral momentaneamente, leiam e tentem entender, concentrem-se, reflitam. Por fim, abram as portas, abram o coração, limpem as mentes do egoísmo,  do pessimismo e da covardia. Deixem o clima festivo entrar e permanecer em seus lares. É a energia do simbolismo do Natal que pede passagem.


* Presidente da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Fonte: ALITA





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