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Antônio Charqueada R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 11/12/2015

Antônio Charqueada
R. Santana

O prenome era Antônio, “Charqueada” não era nome, mas um apelido que lhe substituiu o nome ao longo do tempo e ficou. Não sei se gostava que o chamasse de “Antônio Charqueada”, mas quem cala consente, então, conclui-se que ele gostava do nome “Charqueada”. 
Quando eu o conheci já era homem de barba e bigode. Menino, eu o admirava pela força e valentia. Ele deveria passar de 1,80 m de altura, forte como um touro, cabelo pixaim e cor de betume. Não levava desaforo pra casa, não gostava de arma de fogo, numa briga, usava a enorme mão na broca do desafeto ou manejava como ninguém o facão.
Nascido no começo do Século XX, afrodescendente, não perdera o complexo de escravo dos bisavôs, tratava sempre o homem branco com deferência, chamando-o de “patrão” ou “doutor” e atitudes serviçais. Não se enxodozava com mulher negra, quanto mais branca, melhor, brincava: “dois negros no escuro não se enxergam”, porém, todo esse ranço atávico desaparecia quando alguém de sua raça era injustiçado, aí, Charqueada ficava bravo e o sangue africano se sobrepunha.
Certa feita um dos seus irmãos teve acidente grave de carro. No hospital, o cirurgião para lhe poupar do trabalho de reconstituição de uma perna estragada da vítima, quis amputá-la, Antônio Charqueada pegou o médico pelo gogó e ameaçou matá-lo se a perna fosse amputada, a perna foi reconstituída e seu irmão ficou bom e não deixou de ser motorista.
Porém, um episódio eu nunca esqueci: um sujeito apareceu na bodega dos meus parentes e se passou por cabo do exército.  Falante, envolvente, havia participado de algumas campanhas militares no exterior, havia sido condecorado por bravura, conversa vai e conversa vem e bebericando!... Quando a conta havia atingido certo montante e a paciência da balconista havia chegado ao fim, exigiu-lhe pagamento, então, ele alegou ter deixado a carteira em casa e apressou-se buscar o dinheiro – fui junto com o desconhecido.
Acabara de completar 10 anos de idade, acompanhar um desconhecido, mesmo naquela época, era uma temeridade, mas o sujeito justificou que sua casa não ficava longe e meus parentes consentiram acompanhá-lo. Porém, a distância foi aumentando, o indivíduo caminhava na frente, dizia que sua casa estava perto e a casa não chegava, quando tínhamos atingido mais ou menos a distância de um quilômetro em lugar ermo, desabitado, vereda de um matagal, o meu coração começou bater mais forte, o medo apoderou-se de mim, não podia retornar sem o dinheiro ao tempo que o desconhecido estava me levando cada vez mais longe, foi quando surgiu por providência dos meus parentes, Antônio Charqueada!...
O meu coração adquiriu confiança, o medo fugiu quando eu o vi. Charqueada por perto, o sujeito que se cuidasse e foi o que aconteceu, fomos parados embaixo dum pé de jaqueira:
- Aonde vai com o menino? – o indivíduo amarelou:
            - Não... moro ali... moro... moro na... – não completou, recebeu dois bofetões na cara: um jogou-o ao chão, quase aos nossos pés; o outro, fê-lo rolar ladeira abaixo, enquanto Charqueada gritava:
            - Pera aí! Pera aí! Pera aí! Pera aí vagabundo! – o cara não esperou e “pernas pra que te quero”, o sujeito sumiu no matagal.
            Ele não gostava de coisa errada, era justiceiro sem ser assassino, corrigia o infrator na mão grande ou alguns panaços de facão no lombo do malandro, muito tempo depois, na época de delegado de “calça-curta”, em reconhecimento pelos serviços prestados à comunidade, ele foi nomeado de papel passado: “inspetor de quarteirão” do bairro itabunense São Caetano.
            O tempo passou, ele já não me chamava mais de “patrãozinho”, mas de “doutorzinho”, pois me via com frequência a caminho da escola e minha lida com os livros. Não me sentia à vontade com os seus epítetos de “patrãozinho” e “doutorzinho”, porém, a minha autoestima melhorava quando o encontrava, porque não eram gestos dum simples bajulador, eram gestos de um amigo que torcia pela minha ascensão social e profissional, pois representava as oportunidades que ele não teve.
            Anos mais tarde, quando a função de “inspetor de quarteirão” foi extinta, encontrei Antônio Charqueada em serviço de táxi com um velho Ford Corcel 1. Não demorou muitos anos nessa nova função, as dificuldades da vida, a idade e as doenças da velhice lhe deram cabo.
            Certamente, o negro Antônio Charqueada foi um desses heróis anônimos que a história não registra, mas permanecerá para sempre no coração dos seus conterrâneos, exemplos de justiça e amor à raça, raça humana.   





Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Itabuna, 02.02.2013.

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