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A neguinha metida

Postado por Rilvan Batista de Santana 31/12/2015

A neguinha metida

Se tem uma coisa a que sempre vou ser forçadamente encaixada é ao famigerado rótulo de “neguinha metida”. Um rótulo que para a sociedade sempre cabe a alguém como eu. E por que?

Enviado por Anna Cláudia Magalhães via Guest Post para o Portal Geledés

Simples, estou fora do lugar que me cabe. Pense, onde estão a maioria das mulheres da sociedade? Ou melhor, onde estão a maioria das mulheres negras? Quais são seus cargos? Quais são suas formações? Quais são seus lugares em ambientes políticos? Qual a voz e atuação das mulheres negras na nossa pátria amada?

Sem hipocrisia, podemos dizer, quando pensamos na figura da mulher negra em nossas mentes, qual é a primeira representação? A de uma mulher independente, letrada, atuando em algum cargo de poder ou a de uma mulher com poucas condições financeiras, mãe, ocupando cargos subalternos e que viveu com pouco ou nenhum acesso à educação? Posso responder, eu mesma, que sou uma mulher negra, por muitos anos a representação que vinha a minha mente era a última.

Simplesmente porque pra mim as mulheres negras não estavam em nenhum desses lugares em que as pessoas estão em destaque e são protagonistas: cargos de chefia, cargos políticos, jornais, livros, televisão, capas de revistas, a frente de grupos musicais, a frente de movimentos sociais. Eu tinha conhecimento de poucas ou nenhuma mulher negra transitando por esses espaços, e foi assim durante a vida toda.

No meu caso, tive o privilégio de ter uma família que mesmo sem entender muito do que eu pretendia e insistentemente buscava conhecer, sobre meus livros, meus posicionamentos políticos, as músicas que eu ouvia, mesmo sem esse conhecimento, todos me apoiaram e se esforçaram para que eu tivesse acesso ao que tinha de melhor.
 Eu estive numa escola particular no Ensino Médio e quantas meninas iguais a mim estavam lá? Duas? Em uma escola de 200 alunos… Eu era a única adolescente sem computador em casa, sem acesso a Internet, lembro que meus colegas me zombavam porque eu achava o máximo alguns tipos de redes sociais no laboratório da escola e hoje em dia quando me veem com uma desenvoltura escrita muito melhor do que a deles, provavelmente o que pensam é: “olha essa neguinha, que metida”.

E aí cheguei à universidade pública, quantas mulheres negras estavam lá? Pouquíssimas. Quantas professoras negras eu tive? Nenhuma. Não acho que isso seja uma coincidência e fico intrigada com quem acha, ou é muita inocência ou muita desonestidade.

A faculdade de Letras me deu uma bagagem ótima, abriu meus horizontes e me auxiliou numa das coisas que mais gosto de fazer, escrever. Melhorei consideravelmente minhas habilidades na escrita. Escrevendo e lendo textos acadêmicos, conhecendo e destrinchando gêneros textuais, obviamente, hoje falo melhor e escrevo melhor do que antes. Não digo melhor, mas de uma forma de diferente.

Nunca vou me esquecer quando no meio de uma discussão com a minha mãe, ela respondeu revoltada: “E NEM ADIANTA COMEÇAR A FALAR DIFÍCIL!” Fiquei indignada! Não achava que eu estava “falando difícil”, acontece que eu havia adquirido um letramento que minha própria família não dominava, e eu não fazer mais parte da forma de se expressar daqueles que me criaram acabou dando ainda mais margem para quê? Para que eu fosse a “neguinha metida”.

Independente da minha formação, seria considerada assim de qualquer forma. Qualquer preta que saia do que lhe foi condicionado, que é, mesmo sendo oprimida, calar e, mesmo com raiva, servir, já é vista com maus olhos.

A partir do conhecimento que adquiri, resolvi que iria escrever não só para mim, mas para outras pessoas, expressar minhas opiniões sobre as questões raciais e o machismo, coisas que cada vez me incomodavam mais e que faziam parte da minha vivência. Escrevi nas redes sociais e muitas pessoas, principalmente mulheres, gostaram do escrevi e refletiram com as minhas palavras, mas, ao mesmo tempo, muita gente só pensava: “O que essa menina quer? Ela se acha a dona da verdade com essas opiniões de merda? Quem ela pensa que é para expressar o que bem entende? Quem liga para o que ela pensa? Af! Que neguinha metida!”

Então, eu fui escrever crônicas com as mesmas temáticas no jornal da cidade e o leque de julgamento se abriu. Claramente ninguém pensa que talvez eu seja a primeira mulher negra de vinte e cinco anos expressando esse tipo de opinião no jornal de um município tão conservador. Não que isso me faça melhor que ninguém, mas se qualquer outra mulher nas mesmas condições que as minhas estivesse lá, sinceramente e independente de opiniões preconceituosas, eu me sentiria satisfeita.

No ambiente de trabalho também fica evidente pra mim a condição da mulher negra, em todos os lugares em que trabalhei, instituições com 50, 100, 200 funcionários, cinco ou três eram negros, duas ou uma, eram mulheres negras, a maioria em cargos subalternos.

Isso quer dizer que acho que estar em cargos subalternos não seja uma posição digna? Não, muito pelo contrário, foram nesses cargos que milhares de mulheres negras foram arrimo de família e criaram seus filhos com dignidade, eu mesma sou fruto disso. Só acho que já chega de estarmos somente lá. Passamos anos construindo e recebendo nada ou quantias mínimas como recompensa de nossos esforços. Hoje deveríamos não só construir, mas supervisionar, gerenciar. Precisamos de oportunidades iguais.

E isso quer dizer que os gestores das empresas são racistas? Talvez, mas geralmente mulheres negras não tem oportunidades de se qualificar para certos cargos e, então, acabam ocupando sempre os mesmos. Somos empregadas domésticas, faxineiras, babás. Estamos lá cuidando da casa de outras pessoas e mal frequentando as nossas, cuidando dos filhos dos outros e pouco participando da educação dos nossos. Somos socialmente, culturalmente e economicamente levadas a esses cargos e condições.

Muita gente não dá a mínima para essa situação, não reconhece os próprios privilégios e fala sobre o mito da meritocracia e um tal de esforço pessoal que só cabe na realidade do próprio umbigo. Só que mais engraçado que isso, é que tem quem se diga indignado com a situação do povo negro no Brasil e em especial das mulheres trabalhadoras negras, mas quando uma mulher negra ascende socialmente, são os primeiros a apontá-la e a chamá-la do que? De neguinha metida. A neguinha que esqueceu as raízes, que se acha muito esperta, que não representa, que ficou muito radical, que anda falando demais.

O talento da mulher negra é sempre olhado como coisa de segunda mão, assim como nossa própria existência, nosso talento é rebaixado. Sempre rola uma falsa benevolência e elogios forçados que disfarçam o ar de superioridade. Sempre que penso sobre isso me lembro de uma reflexão que li sobre um trecho de “Quarto de Despejo” em que Carolina Maria de Jesus escreveu:

Comecei a catar papel. Subi a rua de Tiradentes, cumprimentei as senhoras que conheço. A dona da tinturaria disse:
 – Coitada! Ela é boazinha…
 Fiquei repetindo no pensamento: “Ela é boazinha!””

Carolina Maria de Jesus, uma artista de talento imensurável e produção intensa, era grandiosa e inteligente, porém mulher, negra e periférica. Estas últimas condições a faziam sempre, independente do que fosse capaz em sua intimidade, ser olhada com aquele olhar de coitadismo… A necessidade de comentar “Ela é a boazinha”, como se pra justificar sua miserável existência no mundo, demonstram qual é a visão que as pessoas tinham e ainda têm sobre a mulher negra.

Quem entenderá nosso valor? Quem admitirá que somos capazes? Alguns até admitem, mas sempre arranjam uma desculpa, uma oportunidade que nos é dada, um mentor… Ainda nos surgem esses disfarces de Princesa Isabel. Ainda não podemos ser donas de nós mesmas.

Com isso, também me vem a cabeça uma reclamação recorrente de uma grande amiga, assim como Carolina Maria de Jesus, mulher, negra e periférica. Apesar do imenso talento dela, sempre a apresentavam e a tratavam com aquele esteriótipo de pessoa em situação fragilizada. Sempre a ofereciam ajudas financeiras, das quais muitas vezes ela nem havia solicitado, não pelo seu trabalho, mas porque, coitada, ela precisava. Isso a incomodava muito e incomoda a todas nós que temos que provar a todo momento o que realmente somos para o mundo e, ainda assim, sermos desvalorizadas. Porque nós podemos ser talentosas, mas nem tanto, podemos ser inteligentes, mas nem tanto, podemos ter a palavra, mas não sermos protagonistas.

No meu caso, o que percebo é que pode até ser que admitam que eu escrevo bem, mas eu me acho demais. Pode até ser que eu tenha opiniões contundentes, mas eu sou muito arrogante. Esses desenhos que eu faço… Hummm… Eu nem sei o que estou fazendo direito! Enfim, não pertenço a lugar nenhum, nem a cultura de rua, nem a cultura acadêmica, minha postura não me permite entrar em nenhum dos lugares, pra um sou demais, pro outro sou de menos, no final das contas eu só sou uma neguinha metida.

Quando falamos de cultura e arte, quantos nomes de mulheres negras estão nos clássicos da literatura brasileira? Nos nomes famosos de artistas visuais? Quantas são as negras artistas prestigiadas pelo grande público? Quais são os talentos artísticos das mulheres negras? Nós não as conhecemos e quando elas surgem nós a rechaçamos, porque elas estão em lugares em que nunca as quisemos. Mulher não sabe, mulher negra sabe menos ainda. O machismo não permite que a gente se imponha, o racismo não permite que a gente tenha conhecimento e autoestima para se impor, juntos são os maiores inimigos da mulher negra, que continua sem lugar na História.

Acho bonito a ideia de que paremos de falar de racismo e machismo e comecemos a falar de sentimentos, mas para isso a realidade precisa ser confrontada e discutida. A realidade destroça todos os dias os sentimentos de muitas mulheres negras.

Criei uma casca para não ser atingida quando me dizem ou me olham com o olhar de “neguinha metida”. Só que também me permito fraquejar, não sou obrigada a ser forte o tempo inteiro. Confesso que muitas vezes me autoboicoto, sinto que não sou capaz, acho que a qualquer momento vão descobrir que eu sou uma farsa. Só que sempre volto e percebo que eu preciso estar ali, preciso ser a referência que eu nunca tive pra outras meninas e preciso continuar buscando essas referências em textos, amizades, movimentos sociais, mídia, na minha própria arte, nos meus próprios desabafos. Resolvi lutar ao lado de várias neguinhas metidas por aí, e o que posso concluir é: nós vamos mudar a porra toda. Gostem eles ou não.

Autora: Anna Cláudia Magalhães

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