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A lição de Mário de Andrade – I, por Walnice Nogueira Galvão

Postado por Rilvan Batista de Santana 04/12/2015

A lição de Mário de Andrade – I, por Walnice Nogueira Galvão

Celebrações da passagem do aniversário de 70 anos da morte de Mário de Andrade multiplicam-se, e merecidamente, nem é preciso dizer. Homem dos sete instrumentos, Mário devotou-se incansavelmente à promoção das artes brasileiras, sendo ele mesmo autor de prosa de ficção, poeta, ensaísta, articulista de jornais e revistas, professor de piano no Conservatório Musical, colecionador de arte, pesquisador de campo da cultura popular, etc., etc., etc.
Por Walnice Nogueira Galvão, do GGN
Mais um dentre tantos legados que deixou, abrindo caminhos – e talvez dos menos lembrados – é o de estudar com recursos de erudito as manifestações populares.
Como se sabe, Mário criou o primeiro Departamento da Cultura de nosso país, na prefeitura de São Paulo. Hoje, estamos habituados a ter órgãos desse naipe a nível de município, secretarias da Cultura a nível estadual, e mesmo um Ministério da Cultura a nível federal. Pois bem, tudo deriva daquele pioneiro, e nem pensamos mais nisso.
Criou parques infantis, orquestra sinfônica, quarteto de câmara, departamento de bibliotecas  – e muito justamente a biblioteca municipal da cidade, que ele não chegou a ver, hoje leva seu nome. Apesar de ser “do município” de São Paulo, Mário, entre outras coisas, organizou e enviou ao Norte e Nordeste a Missão de Pesquisas Folclóricas. Foi a primeira do gênero entre nós e recebeu treinamento em etnografia de campo dado por Dina Lévi-Strauss. O departamento financiaria ela própria e seu marido Claude em viagens de terreno a aldeias indígenas.
A Missão carregou literalmente toneladas de equipamento, pois corriam os anos 30 e a era digital ainda não tinha chegado. Gravou discos e fotografou cantorias, folguedos e danças, anotando manualmente as partituras em cadernos pautados e recolhendo objetos característicos. Os pesquisadores viajavam de navio, de caminhão, a cavalo e a pé. Ao todo, trouxeram de volta 10 mil peças.
O imenso acervo, hoje sob a guarda do Centro Cultural Vergueiro,  levou 70 anos para ser indexado e catalogado. A esta altura, já está digitalizado e remasterizado, além de restaurado. Há poucos anos, a musicóloga Flávia Toni, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, encarregou-se da tarefa, que resultou num catálogo, gravação de vários CDs e uma exposição.
Pequena parte desse material foi aproveitada pelo próprio Mário nos três volumes das Danças dramáticas do Brasil e em Os cocos. Da publicação desses livros, deixados incompletos por Mário quando de sua morte precoce, cuidou Oneyda Alvarenga, seu braço direito, em dedicação de muitos anos. Mas ainda sobrou a maior parte, intocada. O acervo pode ser visitado no Centro Cultural Vergueiro, e vale a pena.
É no Instituto de Estudo Brasileiros da USP que está depositado o Fundo Mário de Andrade, com seus pertences,  biblioteca, móveis, coleção de pintura/escultura/gravura, coleção  de arte popular, correspondência ativa e passiva, e até a máquina de escrever, que ele apelidou de Manuela. O IEB, em suas muitas décadas de funcionamento, veio a se tornar o maior centro de especialistas em Mário de Andrade, oferecendo cursos, formando discípulos, despertando vocações, orientando teses, tornando o acervo algo vivo e vital, o que pode ser verificado na enorme produção que dali saiu.
O interesse de Mário pelas manifestações populares envolvendo música era sem limites. Muito trabalhou gravando, anotando e fazendo desenhos para registrar a coreografia de coisas como reisados, congadas, moçambiques, etc. Seu entusiasmo por um cantador extraordinário que conheceu em suas viagens pelo Nordeste, Chico Antonio, expressou-se em artigos publicados em jornal e em muito material inédito que deixou e está preservado no acervo do IEB. Juntando tudo, deu um livro, em cuidadíssima edição crítica preparada por Raimunda de Brito Batista, Vida do cantador.
Muitos anos depois, Eduardo Escorel voltou à região e conseguiu encontrar Chico Antonio ainda vivo. Realizou com o cantador um maravilhoso filme documentário, que intitulou  Chico Antonio, um heroi com caráter – num jogo de palavras com Macunaíma, um heroi sem nenhum caráter


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