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SOBRE “VAGABUNDAGEM” DE JOSÉ FÉLIX

Postado por Rilvan Batista de Santana 24/11/2015

SOBRE “VAGABUNDAGEM” DE JOSÉ FÉLIX

Não é surpresa para ninguém, pelo menos, naturalmente, para quem me
conhece, escrever que um dos autores que mais aprecio, de entre os que
conheci ao longe destes anos através da internet, é o José Félix. Mas,
tal como amiúde refiro, uma coisa é ler dispersos e outra, bem
distinta, é ler um livro, uma obra pensada, meditada para ser um corpo
uno. Se os esparsos me traziam algo que me aproximava da sua escrita,
os livros, esses, não só confirmaram o que pensava, mas tiveram o
efeito de mais me aproximar da sua obra.

Se as minhas anotações não me enganam, só não possuo o seu primeiro
livro, editado em 2003, “Geografia da árvore (a reinvenção da
memória)”. De resto, “Íntima Loucura”, de 2007, “Travessia” e “Lições
de Eros”, ambos de 2008, “Teoria do Esquecimento”, de 2009,
“Vagabundagem (Um tributo ao poeta chinês Han Shan)”, de 2011, e “O
Sol de ìcaro”, também de 2011, todos os títulos acima, com a excepção
referida, fazem parte da minha biblioteca.

Não será pois de estranhar, pelo que antes mencionei, que as obras
deste autor sejam, por mim, diversas vezes revisitadas. Também não
será de estranhar que, se o faço, é porque algo me chama a estas
obras. Há sempre algo de novo que se revela a cada leitura. Tal foi o
caso desta vez, e esta é a súmula de essa releitura de “Vagabundagem”.

Este volume, que veio a lume, como atrás deixei escrito, em 2011,
divide-se em dois ciclos, ambos constituidos por dez fragmentos, cujos
títulos são: “folheando os dias” e “passeando na neblina”. Se o título
nos sugere, no imediato, uma ideia de liberdade, de algo que é um
andarilho cuja imposição de regras, horários é a que o próprio a si
mesmo impõe, os de cada ciclo, tendo como primeira parcela um verso no
gerúndio, leva-nos, pela ausência de um outro, a uma visão atemporal
ou que, por mera lógica, estará entre o instante e o ido. Tal, de
facto, lendo, mesmo que o tempo presente esteja bem presente, é um
dado que me parece incontornável.

E foi nesse preciso ponto que me veio à memória as transformações de
Nietzsche, isto é, leio nesta obra de José Félix a peregrinação, se é
que o termo não será um pouco desadequado, dada a sua conotação
religiosa, mas julgo ser o que melhor se adapta às circunstâncias, do
que foi, utilizando as imagens do filósofo alemão, camelo, o que se
submetia à carga das convenções do seu tempo, das regras instituidas,
mas que agora inicia a sua tomada de consciência de ser leão, o que se
liberta dessa carga, e, por isso, vagabundeia, mas que não sente em
si, ainda - e daí peregrinar, ir em demanda de algo que pode ser tido
como sagrado, objectivo último - a capacidade de criar em si, e para
si, novos valores.

Por isso, logo no primeiro poema do primeiro ciclo, se pode ler,
embora sinta que: “Os braços são como ramos de carvalho / presos no
vento”, surge a pergunta: “Como posso regressar à terra / com outra
escritura?” Repare-se que os braços ou, usando a imagem, os ramos
estão presos no vento, presos num agente de liberdade, de um autêntico
vagabundo. Ou seja, a percepção da ideia de liberdade começa a estar
bem vincada. Há, pois, que folhear os dias com o tempo necessário para
se colher a matéria que seja instante para a consciencialização do
estado em que se encontra, o tal nietzscheano leão. Por isso, este
estado novo requere uma “outra escritura”, uma nova fórmula, não de
dizer do mundo, mas de dizer o que somos, melhor: radicalmente o que
sou, o que cada um de nós, em si, é., mesmo que as coisas vislumbradas
como que nos digam que “O olhar é uma diferença repetida”, mas é
diferente porque o olhar, que sobre as coisas recai, é novo, é outro.
Já não é, portanto, o olhar do camelo submetido às coisas, mas o olhar
do leão liberto das coisas.

Toda a revolução é um processo, quer esta seja exterior a nós ou
interior. Sendo um processo, o que se inscreve em cada folha de cada
dia é como uma espécie de pedra necessária para o erguer da casa que
somos. Pelo ócio é-nos possível colher cada fruto do caminho e
saboreá-lo verdadeiramente, descobrir a sua beleza ou a sua fealdade.
Porque, escreve o poeta, “A vida é simples como um passo depois do
outro”. É assim possível alimentar a íntima revolução em curso com
tempo, com todo o tempo, para fruir da simplicidade da vida, essa que
se edifica adindo “um passo depois do outro”. E cada passo somado é
mais do que a sua própria condição porque, diz o autor, “Vou
caminhando com serenidade”, o vento age e “As marcas dos passos / vão
com o vento entre a folhagem”, ou seja, o instante transforma-se
dentro de si mesmo em outro instante diverso ao que seria se a acção
do vento não estivesse presente. Ou, na voz do poeta, “A realidade
transforma-se / diante dos teus olhos / com o vento”.

No entanto, a culminar o processo do folhear dos dias, o assumir que
há ainda muito por indagar para que a nova transformação surja. No
fundo, “Caminhei muito. / Vi o sol e a lua em vários lugares / e não
aquietei o meu coração. // Levei comigo a casa / o som dos passos / a
sombra dos habitantes”. A ruptura com o passado não foi concluida. Há
vestígios que o fazem sentir ainda incapaz de “regressar à terra / com
outra escritura”. A revolução íntima faz-se, mais lentamente do que se
poderia desejar, mas na certeza de que, como afirma, “Na próxima
estação colho os frutos”.

Há que entrar na neblina, nessa outra dimensão da própria existência,
mas entrar, também aí, com a algibeira repleta de tempo, de ócio para
que, por entre a neblina, a fruição do instante persista em ocorrer e
a matéria, que permite uma nova transformação, seja colhida. Talvez a
neblina seja a mencionada “estação” onde o poeta diz: “colho os
frutos”.

“Só o tempo me ensinou a olhar”. É com este verso que termina o
primeiro poema, melhor, fragmento do segundo ciclo, cujo título
recordo: “passeando na neblina”. Nesse mesmo texto inaugural,
refere-se que já não possui “a impaciência / da juventude” e tal lhe
permite perceber “a elegância da rosa vermelha / no vaso de corpo
estreito / e no canteiro do funcionário público”. A fruição não é a
que se adquire pelos sentidos ou à pressa, mas sobretudo pela
consequente meditação sobre as coisas. O tempo que se leva na
algibeira permite-nos uma outra forma de olhar. A “rosa vermelha” não
perde a sua, agora, percebida “elegância” independentemente do espaço
onde se encontra. A “rosa vermelha” é elegante, mesmo que se saiba que
“A vida tem outro motivo / o sentido prático / da vida e da morte”.

A possível aproximação ao saber, adquirido com o tempo, já limpa da
“impaciência”, começa a revelar-se, desta feita através da valoração
das coisas. Não é, tal como ocorre no primeiro ciclo da obra, um
movimento de fora para dentro, mas exactamente o reverso. E a leitura
do tempo, mesmo que, por vezes, nos soe a resignação, ou os dias não
fossem “passando / como a água do rio”, certo é que são diferentes,
porque olhados de forma diferente. Como diz o poeta, referindo-se a
uma planta de bambu, “A cada dia / olho-a diferente / como diferentes
são os meus dias”. Mas estamos na neblina, “passeando na neblina”,
onde tudo é diáfano, pouco perceptível e, por isso mesmo, a felicidade
de ir, com tempo, percorrendo os seus meandros para que, o que antes
era silhueta, aos poucos, com tempo, se torne coisa nomeável, como se
possuidores do “livro de poesia”, onde, como refere José Félix,
“descubro (…) // a paciência da tarde”. A paciência, o tempo para
decifrar as sombras até que estaas sejam o que são. Tal como, por
exemplo, “As flores dos chorões, as amarelas / iluminam a terra
peregrina”.

Esta quase direi personagem, que habita esta obra poética de José
Félix, tal como o filósofo, tem uma característica em comum, o prazer
de deambular. É sabido que Nietzsche apreciava longas caminhadas, ou
seja, era, ele próprio, uma espécie de vagabundo. E ambos se podem
rever neste fragmento, o nono do segundo ciclo: “Um rosto jovem /
alegra o coração da tarde // Ele não sabe que uma ruga diz / o tempo
que passou. // Só se ouve o eco dos pássaros”.

Se para Nietzsche o terceiro movimento (o que surge após o camelo e o
leão) tem por imagem a criança, essa que possui a capacidade para a
criação de novos valores, nesta obra de José Félix a possibilidade de
uma nova transformação surge através da imagem do pássaro que, neste
penúltimo fragmento do livro, nos surge como “eco”, mas que, no final,
no último dístico do tomo se torna concreto e, mais do que concreto,
decisivo para uma nova jornada: “Um bando de pássaros / corta a
neblina”.

O que antes era de fora para dentro, que, depois, se tranforma no
movimento de dentro para fora, agora assume-se como a possibilidade de
ser acima do fora e acima do dentro, a possibilidade de eclodir da
palavra-outra, tornando-se assim possível o “regresso à terra / com
outra escritura”.

Xavier Zarco

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