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CACAU CANTO CLAMOR - Florisvaldo Mattos

Postado por Rilvan Batista de Santana 01/11/2015

CACAU CANTO CLAMOR
(Ao ontem verde com alma)

                                      Florisvaldo Mattos

                            A Jorge Amado, in memoriam



                            Um gran vuelo de cuervos mancha el azul celeste.
                                                          Rubén Darío (1905)

I
Na terra farta de frutos
sigo os rios.
Na árvore gorda de grãos
sorvo a seiva.

Vou, sim, vou.
Cacauais me amparam
de sol terroso,
de chuva rude.

Ó infinitude, áureo cosmo
prenhe de diálogos verdes,
depois safra de soluços.

Ressoando primórdios                                     
de edênicas andanças,
a natureza sorria
abraçada com os homens.

Vale lembrar este tempo
em que a mata acordava.
Não se ouviam trombetas,
pulmões fortes, buzinas,
nem bodegas rurais,
nem sorrisos de moças                                                                                                
ou violões seresteiros.
Sim, pássaros nos ninhos.
Lobrigam o abismo verde
ou músicos passeiam
sobre a clave dos ramos
de onde pendem sagüins
ou o jupará de amanhã.

(Ó natural semeadura de crenças.
Ó gestos noturnos que a selva oculta.
Ó dias de ontem nada temerosos).

Ali, sim, se estabeleceu aurora
De raízes jamais adormecidas.

II
Cegou-se o horizonte?
Nunca mais hei de ver
manhãs fecundas,
tardes dormentes,
noites que anunciavam
certezas do outro dia?
E as mudas, vingaram?
E as vozes, clamaram?

Sou um colecionador de sombras,
de veredas mortas, onde
mãos burocráticas impudicas
imprimiram
sobre caules, ramos, folhas
signos de amor ausente,
afrontaram
a memória do chão,
a de quem por ele transitou
com alma e sonhos perenes.

Um dia, dirão: acorde e parta,
as estradas de ontem se fecharam,                                       
o ar de frescor apodreceu,
a água encheu-se de mercúrio,
as pedras são sobras de incêndio,
e só restou a mim para apagá-lo.
Mudo, fito o que não sou.
Perplexo, converso com o nada.

III
Da janela do trem olhos inúteis
refazem itinerário sob poeira,
bordejam  matas, coloridos montes,
morada de vozes e saltitantes rostos;
sonhos férvidos trafegam pelos
debruns da tarde, antes que a noite
chegue e me devolva migalhas de ontens,
meras sobras de metamorfoses.

Não te aconselho a chorar, quando passes
e mires o deserto de nutridas safras nem
o que se passou, o que, nítido e úmido,
nasceu, vibrou, viveu, tombou, morreu.
Homem, entende: todos quererão saber
o quem, o que, o quando, o como e o por quê,
de madura fatalidade e dor no sangue.

IV
Dirás que homens vieram na noite grande,
misturando longes, fomes e outros brados.
Alpercatas tiniam, dentes rangiam, calças
de mescla e brim ressoavam como bronze;
ávidas faces de crianças ecoam  maldições.
Os que vieram do Norte com chagas e sonhos,
guerreiros e santos em busca de água e pão,
mártires de pés rachados e barba por fazer;
do Norte, de Sergipe e Canudos, lapeados
de caatinga abrasante, e os mais de África rastros,
que obscuros vieram  também para ser donos
de terras sobre encostas e perambeiras únicos;
cambaleando na noite fantasmática,
esgueiram-se na selva contra os medos,
para emergir na terra solidária
banhados de suor e economia.
Sombra e dor no semblante, fecundos passos,
espalharam claridade em solo de durezas,
e logo a terra-úbere, à vasta luz abrindo-se,
vingou, gerou seiva, abençoada pelas estrelas. 

V
Dirás que homens outros também vieram,
descidos dos céus, chegados do mar, varões
de olhos claros, cabelos e sobrenomes feéricos,
terno engomado e gravata borboleta, eles,
fugitivos de guerras e derrotas, em Ilhéus
aportaram vontades e proas confiantes,
os Stevenson, os Wildberger, os Colavolpe,
os Scaldaferri, Kaufmann, Brussell, Zack Oack      
(longe, decifro gasto letreiro por sobre a ponte,
refletido em murmúrios de bagres e tainhas).
Em gabinetes e terraços, recendendo auroras
de mares remotos, tardes e noites gélidas,
plantaram experiência e formas de pensar,
com discretos modos de aprisionar os dias.
Potentes centauros desceram na hora unânime,
com galope febril, no despertar das águas,
vêm cobertos de auras, nostálgicos de neve,
que se acrescentam às barbas do Rio Almada,
invadem o Cachoeira, suplantam Rio de Contas.
Entraram vibrantes pelos riachos, avançaram
botas e sobre solidões assentaram portas,
para trocas atônitas que assanhavam manhãs.

Moveram aço e rodas, logo rotas de comércio,
inundaram distâncias com amêndoa e sacaria;
avivaram cassinos, ao som de polcas e foxes,
amores, bródios, com vinho e whisky perdulário.
Vilas dirão mais tarde para que vieram eles,
quando à noite se abrir a luz dos alfarrábios.
Se ventos zunem, balas zumbem, nuvens captam,
repercutem mensagens desta nova aurora.
Altos, avermelhados, ágeis, descendo rútilos,
chegaram com  tropel de notas promissórias:
uma luz cambial se propagará nas matas,
por onde seguem florescendo vozes e rastros.

VI
Fé e sol do Oriente, mel e flor dos oásis,
para trás o deserto, camelos e miragens,
reluzentes medinas, versos do Corão,
livres de turbantes, burkas e sandálias,
outros mais, mais outros, enfim dezenas,
vieram, por desejo de erguer e construir
o que a alma na carne gravara como dívida,
exsudando moeda e astúcia planejada.

(Tinham a carne igual à de centauros,
correndo na planície em cavalgada).

Vencem terras avaras e mares e vão unir-se
aos muitos que semeavam sóis junto dos rios                                                    
e, urdindo calendários com  luas generosas,
cavalgando manhãs e crepúsculos amenos,
trafegaram por horizontes e lá montaram
sociedade ecumênica de raças e línguas.

VII
 De repente, na sucessão de colheitas amargas,
de fartos comboios com amêndoas apodrecidas,
de lágrimas e mãos em clamor estendidas,
estuário de sombras, dor e morte (sabemos),
em paisagem apropriada a corvos e desvarios,
da serra a fome, em corcovas, coalhando vales,
límpidas mentes dispostas a aplacar estios,
outros vieram, lépidos, com asfalto nas veias,
a reacender chama com  lábia e burocracias,
propalando siglas, ciência e metodologias,
químicas severas, mapas e árdua geometria,
metidos em trajes de rija e formal pertinência,
dizimaram crepúsculos, auroras acenderam.
Bocas espalham pelo ar com notas estridentes: 
a vida é bela, a morte tarda, sonhos vencem,
porque o que cabe ao sol, útil, da noite se ausenta.

Foi depois com o dia alto que o desastre veio.
Sobre águas, pedras, colinas, canoros córregos,
com saber das Antilhas ou nos Andes colhido,
à força de azoto, fosfato, cal e uréia, roubados
do fundo da terra aberta à ilusão e ao sonho,
áulicos derramaram a esconjurada lavra.
“Não há mal que sempre dure”, brada o jovem,
ante os lamentos do úbere enfermo canceroso.
“Nem bem que nunca se acabe”, rosnou o velho,
nos bruxuleios da noite que baixa inapelável.

VIII                                                             
Acordo em alamedas tumulares,
conto círios de noites que se foram.
São pesadelos o meu patrimônio,
de horrores me basto comigo mesmo.
Converte-se o ar em tumba de canções,
Orlando, Sílvio, Chico, Ciro, Dick
passeiam entre antenas, folhas mortas.
Uma criança chorou, a mãe gritou,
o pai desesperou, o rádio calou,
e ele foi de ônibus para El Dorado
(disseram: lá ele é amigo de Deus,                                                    
tem a sensação de terra prometida).                                             
Em São Paulo desceu, ganhou  salário.
Vai para a obra e morre eletrocutado.

IX
Adeus, dias claros de outrora, corolários
que vingaram  na terra de águas fartas;
adeus, mãos operosas que redimiram brenhas;
adeus, sonhos silvestres, semens de manhãs,
em campinas pejadas de música e cores;
adeus, meteorologias, verdades sazonais
de cochos e lastros cheios; adeus, chamas
de fornalhas ardentes noite adentro,
enfartadas de músculos e amêndoas,
tropas de burros subjugando lamaçais.
Adeus, trens de carga repletos de saudade,
avisai às quebradas, aos contrafortes,
à fieira de pássaros nos fios telefônicos:
debaixo da terra, estou  indo para o trabalho.
                                                         
X
Fulgurações de mel em cuias escorrendo,
sob o fresco das roças de pujantes frondes,
adeus. Morto, comprei passagem para o éden.
Lá, com amigos, quero encontrar a doce Anice,
a de olhos forjados em veredas de infância,                                                                   
jambo de cabelos azuis e mãos de seda
e um jeito pré-rafaelita de sentar,
virar o corpo, os seios rijos, e mirar-me
por sobre abas da jindiba no alto da serra.
Adeus, tropas de lento passo nas ladeiras,
convosco dialogo em minhas noites insones;
adeus, tropeiros que ajeitavam peitorais,
nas íngremes subidas rumo ao infinito.
Desta fonte flui a essência de minha vida.                     


In Poesia Reunida e Inéditos; São Paulo: Escrituras Editor, 2011, pp. 308 a 314)

Fonte: ALITA

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