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TORQUATO NETO, O NOSFERATU TROPICALISTA

Postado por Rilvan Batista de Santana 03/10/2015

TORQUATO NETO, O NOSFERATU TROPICALISTA

torquato neto /para Morvan


Na madrugada de 10 de novembro de 1972, o letrista e poeta piauiense TORQUATO NETO foi ao encontro da morte em um pequeno apartamento no bairro carioca da Tijuca, onde vivia com a ilheense Ana Maria e o filho Thiago, de apenas três anos. Planejando o enigmático suicídio, deixou uma confusa mensagem com letras desiguais e frases entrecortadas, rabiscado em três folhas de caderno espiral: “Tenho saudade como os cariocas do tempo em que eu me sentia e achava que era um guia de cegos. Depois começaram a ver e enquanto me contorcia de dores o cacho de bananas caía. De modo que FICO sossegado por aqui mesmo enquanto dure. Pra mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar”.

torquato, caetano e capinam

O suicídio aconteceu um dia depois do seu aniversário, após uma longa série de tentativas malogradas. Drogado e embriagado, o poeta vinha de uma ronda pelas boates da zona sul – numa delas assistiu a um filme cinemascópico de Rogério Sganzerla -, e assim que a esposa adormeceu, trancou-se no banheiro, vedou as entradas de ar e ligou o gás do aquecedor. Tinha 28 anos de idade. deixando uma obra original que se resume em alguns poemas e trinta letras para canções de Edu Lobo, Jards Macalé, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Vandré etc. Atuou também em filmes experimentais, foi crítico de cinema, roteirista, produtor cultural, repórter de uma agência de notícias carioca e músico.

De sensibilidade latente e rebeldia romântica, complicado, culto, meigo, provocativo, exaltado e auto-destrutivo, combinava inteligência precisa e poética aguda, resultando numa criação singular. As crises de melancolia e insatisfação o fizeram eliminar boa parte de sua produção literária. Em 1973, o poeta baiano Waly Salomão e a viúva de Torquato, Ana Maria Silva, reuniram no livro “Os Últimos Dias de Paupéria” a produção intelectual de TORQUATO NETO: artigos publicados ou inéditos, fragmentos do diário sobre a passagem do autor pelo hospício, poemas. Acompanha um compacto com quatro músicas e comentários de Décio Pignatari, Hélio Oiticica, Haroldo e Augusto de Campos. Tornou-se uma espécie de bíblia da chamada poesia marginal dos 1970. Nele, a desenvoltura, a inquietação, a luminosidade do poeta.

Nascido em 9 de novembro de 1944, em Teresina, Piauí, numa família abastada, leu toda a obra de Shakespeare aos doze anos e dela tirava conceitos, discutindo-os com amigos. Magro, pálido, pés grandes e mãos longas, possuía uma sensualidade que nem mesmo os excessos alcoólicos ocultavam. Escrevendo compulsivamente, preenchia dezenas de cadernos com poemas e reflexões. Estudou o científico em Salvador, conhecendo Gilberto Gil e os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia. Na época, a capital baiana vivia grande agitação cultural, de Glauber Rocha a Lina Bo Bardi, de Othon Bastos a Jurema Penna, impulsionando um excepcional ambiente artístico. Irreverente, TORQUATO NETO foi expulso da escola de padres, mudando-se para o Rio de Janeiro em 1963, acatando o desbunde existencial em plena efervescência dos festivais de música.
torquato e vinicius de moraes


Admirando Carlos Drummond de Andrade e Nelson Rodrigues, costumava segui-los nas ruas, sem se deixar perceber, num prazeroso ritual secreto. Na mesa de um bar, o botequim “Mau Cheiro”, no Arpoador, conheceu sua futura mulher, Ana, uma garota inteligente e de personalidade forte com quem viveria cinco anos, mas sem desprezar outras experiências sexuais. Ao lado de amigos como Chico Buarque, Caetano Veloso e Jards Macalé, viveu uma “vagabundagem inspirada”. A festa acabou com o golpe militar de 1964. A partir dali, a felicidade passou a estar, sempre, ligada à angústia. “Sou um homem triste”, ele escreveu em carta a um amigo, “sinto que sou um homem destinado à latrina”. Trabalhou em jornais, gravadoras, agências de publicidade e até no Aeroporto Santos Dumont. Fez parte do corpo de redatores da revista “Cláudia”, “Jornal do Brasil” e “Estado de São Paulo”. 

Escreveu o roteiro de três shows de sucesso: “Pois É”, “Maria Bethânia” e “Ensaio Geral”. Participou de performances, produziu espetáculos multimídia, roteirizou com o poeta-compositor José Carlos Capinam o programa de tevê “Vida, Paixão e Banana do Tropicalismo”. Escreveu a coluna “Pulg”, sobre cinema, no “Correio da Manhã”; outra de música popular no suplemento “O Sol”, do “Jornal dos Sports”, e no auge do tropicalismo, em 1967, publicou “Tropicalismo para Principiantes”, convidando a “viver a tropicalidade e o novo universo que ela encerra”.  A TROPICÁLIA renovou a música popular brasileira, num reinado com conceitos hippies, encontros nas “Dunas do Barato” em Ipanema, Gal Costa como musa, Arembepe, garotas de minissaia, rapazes cabeludos, erva e ácido. O designer Rogério Duarte nomeou o espírito dessa época como “Apocalipopótese”. Nessa doideira, TORQUATO NETO passava as noites em claro, andando com um caderno cheio de poemas que um dia possivelmente seria um livro e vestido de maneira tradicional e cafona, transformando-se numa figura pitoresca.


Uma de suas manias, copiar frases de para-choque de caminhão. “Não me siga que não sou novela”, por exemplo. Contraditório, freguês de cachaça e tira-gosto gorduroso nos botecos suburbanos e de LSD e champanhe em sofisticadas festanças, travestiu-se jocosamente para o filme “Helô e Dirce”, de Luiz Otávio Pimentel, filmando na Cinelândia e no local de pegação Cine-Hora, mas no dia seguinte mergulhou na fossa, dilacerado pela culpa, como sempre acontecia ao libertar a bissexualidade. De 1968, no álbum “Tropicália ou Panis et Circensis” se encontra a famosa canção “Geleia Geral”, com letra-manifesto deTORQUATO NETO e melodia de Gilberto Gil. O título teve origem numa expressão pregada por Décio Pignatari, um trocadilho com “Geleia Real”.


A polêmica coluna de TORQUATO NETO, com o mesmo título da canção, era um espaço crítico-criativo-poético publicado no jornal “Última Hora”, de agosto de 1971 e março de 1972. De linguagem agressiva e descrente de qualquer função didática, chegou a se dirigir aos leitores com um “Alô, alô idiotas”. Nela, defendia as manifestações artísticas de vanguarda, divulgava o universo pop internacional e a cenaunderground brasileira. Militante ferrenho da implantação da contracultura no Brasil, o poeta aproveitou o espaço para abrir fogo contra o Cinema Novo, questionando o comprometimento político dele ao acusá-lo de lacaio de cargos e verbas oficiais, e atacando incansavelmente o debochado “Pasquim”. Certa vez, ao encontrar Jaguar, um dos humoristas do periódico, arrancou-lhe os óculos, pisou-os e disse: “Um cego não precisa de óculos”. Como editor, ele fundou o alternativo “Presença” e pouco antes de morrer, junto com Waly Salomão, projetou NAVILOUCA, que Caetano Veloso viria a co-patrocionar o primeiro e único número como homenagem e reconciliação póstuma. O destemido Waly radiografou o colega como “Astro doido a sonhar. O nosso moço das ânsias. Pobre? Fauve! Fauve? Fraco herói underground. Fraco? Forte herói underground. Leão alado sem juba”.

A erudição, lirismo e originalidade poética de TORQUATO NETO deram uma poderosa contribuição ao Tropicalismo. Tímido, desajeitado, revoltado com o mundo, ferino, emocionalmente abalado e criador em crise, exigiu demais de todos, desejando “muito além do que já houvera feito”. Terminou por se internar no hospital psiquiátrico de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, e em clínicas especializadas para superar o alcoolismo, num total de nove internações por livre e espontânea vontade. “Para se desintoxicar e dar um tempo”, dizia. Sua dor era visível. “Torquato apareceu um dia depois de uma internação em um sanatório com o cabelo completamente tosado, um skin head avant-la-lettre, e eu sofri uma premonição terrível e insuportável de uma ovelha negra tosada se oferecendo ao cutelo do matadouro”, lembra Waly.

Em 1968, com o AI-5 e o exílio de amigos como Caetano e Gil, viajou pela Europa com o artista plástico Hélio Oiticica, morando algum tempo em Londres. Vivia-se a época da caça às bruxas ao inconformismo político. As forças cegas da ditadura militar não alisavam e os tropicalistas foram considerados como elementos nocivos e subversivos, perigosos para a segurança nacional. Calado, deprimido, recolhido e magoado com a desastrosa viagem a Londres e o rompimento com os baianos no duro exílio, abateu-se ainda mais com as mortes súbitas de Jimi Hendrix (que ele teria conhecido) e Janis Joplin. Ainda assim, incentivou a originalidade do emergente Cinema Marginal e de seus ícones Júlio Bressane, Ivan Cardoso e Rogério Sganzerla. Num super-8 de Ivan Cardoso, “Nosferatu no Brasil”, fez o papel-título, numa brincadeira com o seu apelido na vida real, atuando ao lado de Scarlet Moon de Chavelier. “Ele tinha muita identificação com os vampiros, não gostava de claridade e era elegante como um conde da nobreza”, justificou, mais tarde, o cineasta.

chico buarque e torquato
De volta a Terezina, em 1971, filmou sob a direção de Carlos Galvão, “Adão e Eva no Paraíso de Consumo”. No mesma época, compôs aberturas e trilhas sonoras de telenovelas populares como “Minha Doce Namorada” e “O Homem que deve Morrer”. Terminou brigando com a Globo e com o Conselho Nacional de Direitos Autorais. O amigo Ivan Cardoso dirigiu o documentário “Torquato Neto, o Anjo Torto da Tropicália”, com depoimentos comoventes, entre eles o de Gilberto Gil (“Tenho uma foto dele e Caetano comigo, pendurada na parede. Sempre a vejo. Gosto dele daquele jeito. Meio português, meio campesino. Como aqueles meninos que você vê nos filmes de Buñuel. Parece um daqueles devotos de Lourdes ou de Fátima”) e o de Caetano Veloso (“No período mais próximo da morte dele, vi muito pouco Torquato. Que era uma pessoa que eu via muito. Então você sente uma angústia no sentido que parece que poderia ou deveria ter feito alguma coisa, ter estado perto de algum modo. Mas eu ficava sem ser arrebatado por uma emoção de sentimento, de saudade ou de choro. Até que já alguns anos depois fui a Teresina. Conheci o pai dele, o dr. Hely, ficamos conversando e ele me serviu uma cajuína. Foi quando eu consegui chorar a morte de Torquato”).

Haroldo de Campos traduziu TORQUATO NETO: “Verlaine escreveu sobre os poetas malditos – que eram aqueles simbolistas rejeitados pela sociedade. E o Torquato tem muito desse aspecto”. Outro poeta, Chacal, num verão de 1972 na Bahia, encontrou “Torquato de olhos e boca vermelhos, cabelos em chamas pela Avenida Sete. Essa foi a imagem que me ficou na cabeça, Torquato pela Sete, vertiginoso, volátil, dando pérolas aos porcos, em sua geleia geral lisérgica”. Em 1988, a banda Titãs resgatou para o pop contemporâneo o poema “Go Back”, musicado por Sérgio Britto. Autor de algumas das mais bonitas letras da nossa música popular, bardo alucinado, vértice tropicalista e um dos nomes mais influentes do panorama cultural de sua época, o nordestino que desatinava e desafinava o coro dos contentes, não segurando a barra dos anos de chumbo, escreveu: “Épreciso não beber mais. Não é preciso não sentir vontade de beber e não beber: é preciso não sentir vontade de beber. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso enquanto é tempo não morrer na via pública”. Não conseguiu parar de beber a agonia do mundo.


TORQUATO NETO pôs em curso a poética da resistência cultural. Sua linguagem blasfema e antropofágica faz repensar o Brasil. O terrível é que morreu com asco de sua razão de ser: a literatura. Havia encerrado a possibilidade poética, perdera a fé nas palavras. Pouco antes do suicídio, distribuiu sua vasta coleção de literatura de cordel, queimou a maioria de seus escritos e quebrou a máquina de escrever, dizendo que nunca mais voltaria a usá-la. E assim aconteceu, vencido pelo desejo de desaparecer da face da Terra.



DE TORQUATO NETO


LET’S PLAY THAT

quando eu nasci
um anjo louco
muito louco
veio ler a
minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo
me disse
apertando a
minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let’s play that
Até o fim


Fonte: cinzasdiamantes,blogspot.com.br




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