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Apologia da vida - R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 03/10/2015

Apologia da vida
R. Santana

            Naquele dia de Sábado, acordei mal humorado, às avessas com a vida. Depois do café da manhã, calcei meu chinelo, camisa e bermuda domingueiras, e fui bater pernas na cidade. Não sabia o porquê do meu mal-estar, mas sabia com quem desabafa-lo e fui aonde sempre me encontrava com o velho Tanaguchi:
            - Bom dia Narvil!
            - Bom dia... – respondi frouxo e completei:
            - Hoje, eu acordei às avessas, Tanaguchi!
            - Homem de Deus, quando acordamos, nós temos que escolher as opções: de bem com a vida ou de mal com a vida. Se nós escolhemos a primeira, o dia torna-se bom, aprazível; se escolhemos a segunda, o dia é mau, e tudo ao redor é negro, azedume...
            - Eu sei!
            - Então, que razão tem essa cara!?
            - Você já refletiu de maneira profunda o significado prático da vida?
            - O homem da caverna já pensava na sua condição existencial, meu caro!
            - Sim, mas não me refiro somente à sentença: “quem sou eu, de onde vim e pra onde vou”. São perguntas sem respostas desde o início dos tempos, são dogmas... Falo do dia a dia da vida!
            - Seja mais claro!
            - Para o homem de ciência a natureza evoluiu e deu origem às formas de vida atual. O homem de fé sustenta que tudo é o que é, desde Adão e Eva, o criacionismo... Não se sabe se a essência precede a existência ou vem depois, é muito filosófico, são conjeturas estéreis, partindo de algum lugar para lugar ne... – Tanaguchi saiu do silêncio:
            - Por favor, seja menos prolixo!
            - Desculpe-me!
            - Narvil, não se desculpe...
            - Tencionei fundamentar o significado prático da vida e discorri fundamentos desnecessários!
            - Não, homem! Estamos ligados por elos invisíveis do nascimento à morte, para explicar o fenômeno da vida nada é desnecessário, talvez, queira, agora, discutir as relações sociais, não?
            - Sim!
            - Pois, discutamos...
            - Tudo passa pela natureza... Alguém disse que “o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”, prefiro acreditar que o homem é mau desde o nascimento, o estado é que o molda sociável!
            - Menos, meu caro! O radical só enxerga um lado da vida e a vida é complexa e de cores diversas e não maniqueísta!
            - Tanaguchi, é de sua natureza eufemizar, mas “o homem é o lobo do homem”, o predador da natureza, sua natureza é má!
            - Leu Thomas Hobbes?
            - Li Hobbes quando era jovem, ele continua atual!
            - Como assim?
            - Os homens nascem com a mesma natureza, movido pelo interesse comum da subsistência, quando este interesse é contrariado, aí surge o conflito, a guerra, só o contrato social é capaz de estabelecer a paz!
            - Parabéns Narvil, depois de tanto tempo de ter lido Leviatã, ainda lembra-se do esboço dessa teoria?
            - Não tanto quanto gostaria, porém, o necessário para compreender o cerne dos conflitos sociais!
            - Tenho minhas dúvidas... interesses materiais... contrato de sentimentos... – eu o interrompi:
            - Seja menos sutil, homem!
            - Estou refletindo: o interesse material é diferente de amor, de solidariedade, de amizade, de compaixão, de humildade, enfim, o material é diferente do emocional. Não se usa uma camisa de força pra emoção, pois são coisas do coração e não da mente, meu caro Narvil! – explodi:
            - Você é igual ao polvo!
            - Não entendi!
            - Li certa feita um diálogo de Platão em que o interlocutor de Sócrates, aturdido com sua maiêutica, mencionou que Sócrates entorpecia seu pensamento como o polvo entorpece seus predadores ou suas vítimas. Você esmiúça a minha fala, faz conjetura do óbvio e deixa-me com os nervos a flor da pele!
            - Não tive a intenção... Portanto, continue falando sobre o homem, as relações sociais, a vida!
            - Já falamos o essencial, Tanaguchi! O homem é egoísta, vaidoso, autossuficiente, corrupto, inescrupuloso, capcioso, amoral, maldoso, invejoso, falso e predador, “O homem é o lobo do homem”...
            - As pessoas não são más assim, Narvil!
            - Sim! O homem nasce com essas predisposições e ele as desenvolve de acordo a influência do meio. Sua natureza é moldada pela educação, pela religião, pelas leis e regras sociais. Se o homem vivesse na natureza, na selva, sem comunidade, seria o pior dos bichos!
            - Não concordo. As comunidades silvícolas lá do recôndito da Amazônia, onde o homem civilizado ainda não domina, têm regras de convivência que são exemplos comunitários!
            - São comunidades evoluídas pelo processo de Darwin, eu falo do homem de Neandertal, do Homo sapiens...
            - Narvil, brutos não teriam construído a nossa civilização!
            - O homem é de natureza má, mas é racional... Ele sabe administrar os conflitos e quando não consegue, elimina o outro ou o bicho que lhe é obstáculo, além de controlar a natureza. Tanaguchi, quantas bestas-feras já surgiram na História da Humanidade?
            - Hitler, Mussolini, Nero, Herodes, Stálin... – não deixei que completasse a lista de malfeitores da humanidade:
            - Basta! Sua amostra da maldade é suficiente. Mas, há a maldade humana do dia a dia, a maldade a varejo, os seriais killers que não se enquadram na cadeia biológica de tão sinistros!
            Tanaguchi não falou mais nada, assentiu com a cabeça e fomos embora cuidar da nossa vida.

Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

1 Responses to Apologia da vida - R. Santana

  1. EXCELENTE CONTEXTO.
    A VERDADE, MEU NOBRE AMIGO ESCRITOR RILVAN BATISTA DE SANTANA, E QUE A MALDADE RESIDE NA MENTE HUMNA.
    MAS VAMOS COMBATER O MAL COM O BEM.
    SUAS PALAVRAS SERVIRÃO DE BONS EXEMPLOS, NESTE PLANETA LERAS.
    TUDO DE BOM.
    JOÃO DE PAULA.:

     

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