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Alf, o demônio

Postado por Rilvan Batista de Santana 15/10/2015

Alf, o demônio.
R. Santana




           
A velha Astrid não sabia explicar a origem de Alf, o gato surgiu, foi ficando e ficou. Astrid não gostava de gato, seu animal preferido era o cachorro, ultimamente, criava dois cachorros: Tupã era o guardião do sítio, e uma cachorra de raça Basset, que Astrid chamou-lhe de “Jéssica” desde novinha. Jéssica e Tupã conviviam em perfeita harmonia.
A velha Astrid morava numa pequena fazenda de boa aguada, na região Sudoeste da Bahia, onde criava galinhas, patos, perus, porcos, pavões, pequeno rebanho bovino, alguns pássaros de estimação, além de cultivar milho, batata doce, aipim, mandioca, abóbora e frutas. Ela, o marido, e seus dois sobrinhos (não teve filhos) davam conta do trabalho da fazenda. O lazer da família de Astrid era assistir à missa aos domingos em povoado não muito distante e ouvir um rádio de pilha de várias faixas nas noites de verão no alpendre da casa grande.
No início, Alf e os cachorros se estranharam, a velha Astrid interveio, mas ficaram alguns resquícios de má convivência, então, Alf escolheu o celeiro da fazenda como seu habitat permanente, de quando em vez, visitava a casa grande de maneira sorrateira, geralmente, pelo telhado, de lá só saía quando Jéssica e Tupã cismavam com sua presença e não paravam de latir. Astrid ensimesmava-se com o comportamento dos animais, porém, não podia negar que o surgimento de Alf, a fazendeira não podia mais se queixar de prejuízo: o celeiro ficou livre de ratos calunga e ratazanas, seguro para se guardar os mantimentos.
Alf tinha uma aparência não muito comum: olhos castanhos marcantes, o pelo do focinho, cabeça, pescoço, era negro piche e o resto cinza escuro rajado, corpo comprido e magro. Era admirável sua rapidez quando enfrentava Tupã e Jéssica, esbofeteava e unhava os cachorros com extrema facilidade, se incomodava mais com os latidos, do que com a ferocidade dos cães.





Três meses depois do aparecimento de Alf:

            - Tia Astrid, Jéssica está morta!
            - Morta? Morta como!?
            - Não sei. Eu sei que ela foi mordida na goela!
            - Mordida de cobra?
            - Acho que não!
            - O que faz pensar assim?
            - A mordida de cobra seria nas ventas, nos olhos, ou, noutra parte do corpo, menos na jugular de onde o sangue foi chupado! 
            - Que história é essa, rapaz?
            - Tia, o bicho que matou Jéssica fez dois orifícios bem definidos e sugou todo sangue...

Quatro meses depois do aparecimento de Alf, Tupã foi encontrado atrás do celeiro com as mesmas marcas dentárias de Jéssica e os olhos esbugalhados fora da caixa craniana, um quadro horrível. Todos da fazenda ficaram apavorados, inclusive, os vizinhos da fazendeira. Quando todos buscavam respostas, José de Astrid, seu marido, teve um insight inexplicável:
- Querida, será que não foi Alf?
- Alf, José!?
- Pressentimento, querida...
- Embora eu não goste de gato, Alf é dócil, José!
- Não! Alf enfrentava Jéssica e Tupã com bofetadas e arranhões e se não ralhássemos, ele teria matado os cães...
- O pobrezinho se sentia acuado, não é assim até com a gente? – olhe as patas dele pra ver se existem marcas de sangue, insistiu José.
O pessoal saiu atrás de Alf, mas não o encontrou, o gato desapareceu, Astrid inconformada, justificou:
- Ele ficou atemorizado com a quantidade de gente, voltará à noite, certamente... – Alf não voltou.


Alf sumiu. A família de Astrid e os vizinhos vasculharam as roças num raio de um quilômetro quadrado e não encontraram o gato. O mistério continuou... Depois dos cachorros, as galinhas e os porcos foram atacados, em duas semanas, três porcos e várias galinhas e frangos foram sacrificados com o mesmo modus operandi na matança. A família de Astrid e os vizinhos apavorados criaram grupos de vigília para que dia sim e dia não, realizarem ronda na área da fazenda, onde se concentrava a maioria da criação, em vão, o bicho driblava os vigilantes!...
Naquele dia, sexta-feira 13, às 24 horas, o vento forte soprava fora da casa grande, o galo no terreiro cantava antes do dia amanhecer, se ouvia longe o canto agoureiro da coruja, a noite escura indicava Lua nova, a chuva caía lentamente na bica da casa grande, as dobradiças da porteira do curral rangiam como se chorassem, o touro berrava, o galinheiro alvoroçado, os porcos danados na pocilga, a temperatura despencou, mesmo assim, neste inferno de Dante Alighieri, Astrid e José de Astrid deixaram o leito e com candeeiro suspenso na mão direita, foram ver o que se passava quando encontram Alf em cima da mesa, a velha Astrid e José de Astrid correm para pegá-lo, mas uma voz cavernosa, soturna, ecoa no ambiente:
- Saiam daqui velhos carolas! Baba-hóstias! Baratas-de-sacristia! Saiam de minha fazenda!!! – os velhos não se intimidaram, cruz e terço levantados enfrentaram o demônio Alf:
- Vade retro Satana!  Afasta-te desta casa Satanás! O teu lugar é o mundo das trevas! Nunca mais volte a esta casa do Senhor – o bicho quadruplicou em tamanho, se debatia, vomitava chispas de fogo, o rabo e a cabeça rodopiavam no corpo, os olhos faiscavam, das ventas saiam um vento quente, mas os velhos continuavam fortes e firmes na fé com a oração do terço:
- Creio em um só Deus/Pai todo-poderoso.... Pai Nosso... Ave Maria... Pai Nosso... Ave Maria...

Autor Rilvan Batista de Santana


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